O Homem que Amava sua Espécie - Conto de Virginia Woolf | Fantástica Cultural

Artigo O Homem que Amava sua Espécie - Conto de Virginia Woolf
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O Homem que Amava sua Espécie - Conto de Virginia Woolf

Autores Selecionados ⋅ 16 maio 2024
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"Era o tipo de coisa que o deixava indignado. Pensar em homens e mulheres adultos, responsáveis, fazendo isso a vida inteira, toda noite!"

dama e cavalheiro conversando em jardim

Indo às pressas por Deans Yard essa tarde, Prickett Ellis deu de cara com Richard Dalloway, ou melhor, nisso que eles iam passando, o encoberto olhar de relance que cada qual lançou ao outro, por baixo do chapéu e por cima do ombro, alargou-se numa explosão de reconhecimento; há vinte anos que eles não se encontravam. Na escola, tinham sido colegas. E Ellis, o que andava fazendo? Advocacia? Ah, sim, é claro — acompanhara pelos jornais o caso. Mas era impossível conversar ali. Que tal aparecer logo mais lá em casa? (Eles moravam no mesmo lugar de sempre — na primeira transversal.) Viriam uma ou duas pessoas. Talvez Joynson. "Um figurão agora", disse Richard.

"Está bem — então até logo à noite", disse Richard e seguiu seu caminho, "feliz da vida" (o que era pura verdade) por haver encontrado aquele camarada engraçado, que não mudara nem um pingo desde os tempos de escola — o mesmo garotinho gorducho e baixote, saturado de preconceitos, mas incomumente brilhante — ganhou o Newscastle. Pois bem — e lá se foi ele.

Prickett Ellis, contudo, ao se virar e ver Dalloway sumindo, preferia agora não o ter encontrado ou, pelo menos, pois pessoalmente sempre gostara dele, não ter prometido que iria à reunião. Dalloway era casado, dava festas; não era da mesma espécie que ele, que teria de se vestir. Entretanto, chegando a noite, supôs que, como havia prometido, e não querendo ser grosseiro, tinha mesmo de ir.

Mas que entretenimento mais pavoroso! Joynson estava lá; e eles não tinham nada o que dizer um ao outro. Em criança, era um garoto presunçoso; crescido, parecia dar mais importância a si mesmo — e isso era tudo; não havia na sala outra simples alma que Prickett Ellis conhecesse. Nenhuma mesmo. Assim, não podendo ir-se embora logo, sem dizer uma palavra a Dalloway, que parecia sobrecarregado de obrigações, num colete branco, indo e vindo em azáfama, o jeito era aguentar e esperar. Era o tipo de coisa que o deixava indignado. Pensar em homens e mulheres adultos, responsáveis, fazendo isso a vida inteira, toda noite! Os traços de seu rosto barbeado, azul e vermelho, acentuaram-se quando ele se encostou na parede, em completo silêncio; embora trabalhasse como um cavalo, mantinha-se em boa forma com exercícios; e se mostrava ameaçador e duro, como se tivesse o bigode enregelado. Ele se eriçou, ele se irritou. As roupas pobres que usava faziam-no parecer desleixado, insignificante, anguloso.

Ociosos, tagarelas, com roupas demais e sem ideias, sem uma que fosse, na cabeça, os elegantes cavalheiros e damas seguiam conversando e rindo; Prickett Ellis observava-os e comparou-os aos Brunner que, quando ganharam a causa contra a Cervejaria Fenners' e receberam duzentas libras de indenização (nem a metade do que deveriam ter ganho), logo gastaram cinco num relógio para ele. Bem o tipo de comportamento adequado; o tipo de coisa que o comovia, e olhou com mais severidade ainda para aquelas pessoas, supervestidas, cínicas, prósperas, e comparou o que estava sentindo agora com o que sentira às onze horas da manhã em que o velho Brunner e esposa, em suas melhores roupas, pessoas idosas, com o ar mais limpo e respeitoso possível, foram vê-lo para dar-lhe essa pequena lembrança, como disse o velho, perfeitamente aprumado para fazer seu discurso de gratidão e apreço pela maneira tão capaz de conduzir nossa causa e como, aparteou Mrs. Brunner, eles sabiam que tudo se devia a ele. E estavam profundamente gratos por sua generosidade — porque ele, é claro, não tinha cobrado nada.

Quando ele apanhou o relógio e colocou-o em cima da lareira, bem no meio, sentiu estar com vontade de que ninguém visse seu rosto. Para isso é que trabalhava — era essa sua recompensa; e olhou para as pessoas que na realidade estavam diante de seus olhos como se elas dançassem por cima da cena em seu escritório e por ela fossem expostas e, quando tudo sumia — quando os Brunner sumiam —, só restava ele mesmo, como que deixado daquela cena e a confrontar-se com esta população hostil, um homem completamente simples, sem nenhuma sofisticação, um homem do povo (ele se endireitou), muito malvestido, chamando a atenção, sem nenhum ar, nenhum encanto especial, homem pouco calejado em disfarçar seus sentimentos, um homem comum, um ser humano como outro qualquer, lançado contra o mal, a corrupção, a impiedade da sociedade. Mas ele não ia continuar olhando. Pôs os óculos e já se punha a examinar os quadros agora. Leu os títulos de uma fileira de livros; quase todos de poesia. Bem que ele gostaria de reler alguns de seus velhos favoritos — Shakespeare, Dickens —, bem que gostaria de ter tempo para ir um dia à National Gallery, mas não podia — não podia mesmo. Com o mundo na situação em que estava — era realmente impossível. O dia inteiro havia gente querendo sua ajuda, clamando, a bem dizer, por ajuda. Não era uma época para se ter luxo. E ele olhava as poltronas e os cortadores de papel e os livros bem encadernados e balançava a cabeça, sabendo que nunca teria tempo, nunca teria coragem, e alegrava-se ao pensar assim, de se permitir tais luxos. Aqui, as pessoas ficariam chocadas se soubessem quanto ele pagava por seu tabaco; e que a roupa que vestia tinha sido emprestada. Sua única extravagância era um barquinho a vela na lagoa de Norfolk. Isso ele se permitia. Gostava de uma vez por ano sumir da vista de todos para se pôr de costas num campo. Pensou como se espantariam — essas pessoas tão finas — se soubessem quanto prazer ele extraía do amor à natureza, termo que usava por ser tão antiquado; desde garoto ele conhecera campos e árvores.

Ficariam chocadas essas finas pessoas. E ele de fato, ali em pé, pondo seus óculos no bolso, a cada instante se sentia mais chocante. Sentimento dos mais desagradáveis. Não sentira aquilo — que amava a humanidade, que pagava cinco pence pela onça de tabaco, que amava a natureza — natural e tranquilamente. Cada um desses prazeres tinha se transformado num protesto. Sentia que essas pessoas que ele desprezava faziam-no aguentar e pronunciar-se e justificar-se. Não parava de dizer: "Eu sou um homem comum". E o que disse a seguir, envergonhou-se de fato de o ter feito, mas disse: "Eu já fiz mais por minha espécie num só dia do que o resto de vocês em suas vidas". Realmente era mais forte do que ele; vivia a se lembrar de cena após cena, como a de quando os Brunner tinham lhe dado o relógio — vivia a se lembrar das belas coisas que já haviam dito de sua generosidade, seu humanitarismo, de como já ajudara a tantos. Estava sempre a se ver como sábio e tolerante servidor da humanidade. E desejou que pudesse repetir em voz alta seus louvores. Era desagradável que a sensação de sua bondade o afligisse por dentro. E ainda mais desagradável que não pudesse contar a ninguém o que haviam dito a seu respeito. Graças a Deus, dizia-se a toda hora, volto a trabalhar amanhã; entretanto já não ficaria mais satisfeito em apenas se esgueirar pela porta e ir para casa. Tinha de ficar, tinha de ficar até se justificar. Mas como poderia fazê-lo? Naquela sala cheia de gente, não conhecia vivalma a quem falar.

Finalmente Richard Dalloway apareceu.

"Quero lhe apresentar Miss O'Keefe", disse ele. Miss O'Keefe olhou-o em cheio nos olhos. Era uma mulher meio arrogante, de maneiras abruptas, na casa dos trinta.

Miss O'Keefe quis um sorvete ou algo para beber. E a razão de o ter pedido a Prickett Ellis, de um modo que lhe pareceu soberbo e injustificável, foi que ela tinha visto uma mulher e duas crianças, paupérrimos, exaustos, agarrados nas grades de uma praça, de olhos compridos para dentro, naquela tarde tão quente. Não podem deixar que entrem?, tinha pensado, subindo sua compaixão como onda; e sua indignação fervendo. Não; no momento seguinte ela se reprovou com aspereza, como se se enfrentasse no boxe. Nem toda a força do mundo é capaz disso. Ela assim apanhou e devolveu a bola de tênis. Nem toda a força do mundo é capaz disso, disse furiosa da vida, e foi por isso que disse tão imperiosamente ao homem desconhecido:

"Dê-me um sorvete."

Muito antes de ela o ter acabado, Prickett Ellis, de pé a seu lado sem tomar nada, disse-lhe que há quinze anos ele não vinha a uma festa; disse-lhe que o terno que estava usando fora emprestado por seu cunhado; disse-lhe que não gostava desse tipo de coisa e teria sentido grande alívio se continuasse e dissesse que era um homem comum, com marcada preferência por pessoas bem simples, quando então lhe falaria (para envergonhar-se disso depois) dos Brunner e do relógio, mas ela disse:

"O senhor viu A tempestade?"

Ou então (pois A tempestade ele não tinha visto) leu algum livro? De novo não, e então, nisso que ela punha seu sorvete de lado, costumava ler poesia?

E Prickett Ellis, sentindo subir-lhe algo por dentro que acabaria por decapitar esta moça, transformá-la em vítima, massacrá-la, fê-la sentar-se lá, onde ninguém os interromperia, em duas cadeiras, no jardim vazio, pois todos estavam no andar de cima, podendo-se ouvir apenas um incessante zumbido e a falação e um trintlim, como o louco acompanhamento de uma orquestra fantasma a um gato ou dois atravessando o gramado, e a ondulação das folhas e as lanternas chinesas vermelhas e amarelas balançando como frutas penduradas no ar — a conversa parecia uma frenética dança musical de esqueletos relacionada a algo muito real, e cheia de sofrimento.

"Que beleza!", disse Miss O'Keefe.

Oh, essa nesga de grama, com a massa negra e alta das torres de Westminster em torno, era bela mesmo, depois da sala de visitas; depois da barulheira, era silenciosa. E eles, afinal de contas, tinham aquilo — a mulher cansada, as crianças.

Prickett Ellis acendeu seu cachimbo. Isso a deixaria chocada; enchera-o de fumo vagabundo — cinco pence e meio a onça. Pensou como estaria em seu barco, fumando deitado, pôde ver-se sozinho, à noite, fumando sob as estrelas. Pois durante essa noite ele estivera sempre pensando que aparência teria, se as pessoas ali o olhassem. Ali, disse a Miss O'Keefe, riscando um fósforo na sola da bota, não conseguia ver nada de particularmente bonito.

"Talvez", disse Miss O'Keefe, "o senhor não ligue para a beleza". (Ele dissera não ter visto A tempestade; não ter lido nenhum livro; seu bigode, seu queixo, a corrente de relógio de prata, tudo nele exalava um ar de penúria.) Mas para isso, pensou ela, ninguém precisava gastar nada; os museus e a National Gallery eram grátis; e o campo também. Decerto sabia das objeções — lavar, cozinhar, crianças; mas a essência da coisa, o que eles todos tinham medo de dizer, era que a felicidade é barata à beça. Pode até sair de graça. A beleza.

Prickett Ellis deu-lhe então o que ela merecia — essa mulher abrupta, arrogante e pálida. Disse-lhe, com uma baforada de seu fumo barato, o que havia feito esse dia. De pé às seis; ouvindo gente; suportando o cheiro de esgoto de uma área sórdida; e depois no tribunal.

Nisso hesitou, querendo dizer-lhe algo de si, dos seus afazeres pessoais. Porém, por reprimir isso, tornou-se ainda mais sarcástico. Disse que já se sentia mal só de ouvir mulheres bem-vestidas e bem-alimentadas (ela encolheu os lábios, pois era magra e sua roupa não estava assim tão na moda) falando de beleza.

"A beleza!", disse ele. Temia não entender a beleza tomada à parte dos seres humanos.

Olharam assim para o jardim vazio, onde oscilavam luzes e, bem lá no meio, com uma pata no ar, hesitava um gato.

A beleza à parte dos seres humanos? O que ele queria dizer com isso?, perguntou ela de repente.

Pois bem, isto: entrando cada vez em mais pormenores, contou-lhe a história dos Brunner e do relógio, sem disfarçar seu orgulho. Isso era belo, disse ele.

Já ela não teve palavras para especificar o horror que a história lhe causou. Primeiro, sua vaidade; depois, sua falta de pudor em falar de sentimentos humanos; era uma blasfêmia; ninguém no mundo devia contar um caso para provar que amava sua espécie. Entretanto quando ele contou o dele — como o velho tinha se posto de pé para fazer seu discurso — ela quase foi às lágrimas; ah, se algum dia alguém lhe tivesse falado assim! Mas aí de novo ela sentiu que fora justamente isso que condenara para sempre a humanidade; nunca eles iriam mais longe do que deixar-se comover por cenas com relógios; os Brunner fazendo discursos para os Prickett Ellis, e esses sempre dizendo que amavam sua espécie; seriam sempre preguiçosos, transigentes, temerosos diante da beleza. Daí surgiam revoluções; da preguiça e do medo e desse amor por cenas impressionáveis. Ainda assim esse homem teve prazer com seus Brunner; e ela estava condenada a sofrer eternamente por causa de suas pobres mulheres impedidas de entrar nas praças. Sentavam-se assim em silêncio. Ambos muito infelizes. Pois Prickett Ellis não se aliviou nem um pouco com o que tinha dito; em vez de arrancar o espinho dela, enfiara-o ainda mais para o fundo; sua felicidade da manhã fora arruinada. Miss O'Keefe estava confusa e aborrecida; estava turva, e não clara.

"Temo ser uma dessas pessoas muito comuns", disse ele, levantando-se, "que amam sua espécie".

Ao que Miss O'Keefe quase gritou: "Eu também".

E assim odiando-se, odiando a casa cheia de gente que lhes proporcionara essa noite desilusiva e dolorosa, esses dois amantes de sua espécie se levantaram e, sem uma palavra, se despediram para sempre.

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