Pensamento Crítico: Você o cultiva, o alguém o cultiva por você? | Fantástica Cultural

Artigo Pensamento Crítico: Você o cultiva, o alguém o cultiva por você?

Pensamento Crítico: Você o cultiva, o alguém o cultiva por você?

Por Paulo Nunes ⋅ 1 ago. 2022
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"Toda filiação política ou religiosa deve ser acompanhada de certo ceticismo, pois todas as intuições e ideologias são passíveis de corrupção e erro."

Sempre pense por si mesmo.
Quem pensa por você tem sua própria agenda.

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Um Estado para tudo controlar
Um Estado para censurar-nos
Um Estado para nos perseguir
E na tirania aprisionar-nos

Aeterna rivalidade entre direita e esquerda parece ser mais uma distração inútil do que uma forma de resolver problemas sociais. Parafraseando George Lucas, há heróis [e vilões] dos dois lados. E assim como Lucas, o que enxergamos como uma problema social persistente na história da humanidade não são as diferentes preferências políticas das pessoas, nem seus modos de vida diferenciados, mas sim o autoritarismo, a tirania, a intolerância com a diferença e a supressão das liberdades. Defendemos a soberania do indivíduo acima de tudo.

Também não nos preocupamos em advogar pelo ateísmo ou, do contrário, por religiosidade. Cada um precisa encontrar seu próprio caminho no mundo, explorando possibilidades e descobrindo como melhor lidar com as questões existenciais que compartilhamos, como a iminência da morte, ou a busca por sentido. A ciência não provê evidências para nenhuma religião, mas nunca foi essa sua função. Onde a ciência é incapaz dar explicação, resta ao indivíduo buscar suas próprias conclusões. Nesse campo, o que buscamos eliminar é o fundamentalismo, o dogmatismo, a imposição de crenças e de práticas.

Deve, assim, ter ficado claro que o foco deve ser o empoderamento do indivíduo, de todos os indivíduo, sem distinção; e a resistência a toda ou qualquer entidade que tente tolher as liberdades individuais.

Homem Vitruviano, por Leonardo da Vinci
Homem Vitruviano, por Leonardo da Vinci

Buscamos o respeito e a celebração das individualidades, e a soberania do ser humano, uno, frente ao Estado e às instituições religiosas. Governos e religiões existem para servir ao homem: os primeiros devem organizar a vida em sociedade, e os últimos devem guiar seus seguidores em questões morais e espirituais. Lembre-se: o Estado serve ao povo, não o contrário; e as religiões são instituições criadas pelos homens: elas não são a manifestação de Deus, ou de deuses, mas a tentativa humana (falível e corruptível) de atender a uma vontade divina.

Portanto, toda filiação política ou religiosa deve ser acompanhada de certo ceticismo, pois todas as intuições e ideologias são passíveis de corrupção e erro. Pessoas podem ser éticas, mas entidades corporativas, em geral, são amorais: elas tendem a agir apenas em benefício próprio.

Sempre tive o senso de não me aliar nem a grupos de escoteiros nem a grupos políticos, ou mesmo intelectuais e artísticos. Todos os grupos (sobretudo os altamente filantrópicos), ao fim e ao cabo, são apenas agências de emprego para seus membros. — Millôr Fernandes.

Mas é muito difícil para as pessoas não se filiarem a algum grupo. Quando não se trata de política, então são os times de futebol, em que o homem pré-histórico pode se manifestar em plena contemporaneidade. O ser humano é geneticamente programado para isso: foi assim que nossa espécie vingou.

O animal humano, igual a todos os demais, está adaptado a um certo grau de luta pela vida e, quando sua grande riqueza permite a um Homo sapiens satisfazer sem esforço todos os seus caprichos, a simples ausência de esforço retira de sua vida um ingrediente imprescindível à felicidade. — Bertrand Russell

Evoluímos sob a pressão do perigo e dos desafios: na pré-história, a morte estava à espreita atrás de cada pedra, arbusto, ou nas sombras da noite. Vivemos assim por centenas de milhares de anos, e nos adaptamos a isso: a viver imersos em certo nível de estresse, tensão e aventura. Então, o que acontece quando removemos essa espécie de seu habitat natural?

Nossa espécie só pode sobreviver se tivermos obstáculos a serem superados. Você remove esses obstáculos. Sem eles para nos fortalecer, vamos enfraquecer e morrer — James T. Kirk, Star Trek

Ao ser privado da pressão atmosférica terrestre, o ser humano tende a apresentar diversas falhas fisiológicas, e eventualmente morre. Algo semelhante parece ocorrer quando privamos as pessoas de uma estrutura de vida minimamente estável, de compromissos e responsabilidades, com um objetivo existencial. Todo tipo de distúrbios psicológicos começa a surgir; e em meio à confusão emocional e à falta de sentido, os quatro remédios mais populares são as drogas prescritas por médicos (antidepressivos), as outras drogas, a religião e a militância política.

O fato de uma opinião ser amplamente compartilhada não é nenhuma evidência de que não seja completamente absurda. De fato, levando-se em conta a maioria da humanidade, é mais provável que uma opinião difundida seja tola do que sensata. — Bertrand Russell

Essa ânsia por participar de uma cruzada, fazer algo útil a alguém, de lutar por algo, seguir algum líder, venerar algum mártir, está presente em todo ser humano, em alguns mais do que em outros. É ela que conduz ao coletivismo, ao tribalismo, ao fanatismo; e é ela que leva à lealdade cega a alguma figura messiânica, que não raro conduz suas massas ao linchamento, à violência, a execuções, à guerra e à autoimolação. Essas figuras lhe parecerão benévolas, bem-intencionadas, assim como Hitler parecia à juventude hitlerista: para eles, um verdadeiro patriota.

Nos desenhos animados e filmes, os vilões são degenerados que enrolam os bigodes e dão gargalhadas de júbilo pela própria maldade. Na vida real, os vilões estão convencidos de sua integridade. — Steven Pinker

Portanto, pense por si mesmo, e atente para isso: se você faz parte de um grupo ou ideologia que o atacaria, humilharia ou expulsaria caso você apresentasse alguma discordância, ou ousasse sugerir que a ideologia oposta tivesse certo nível de razão em algum tópico, então este grupo ou ideologia é um culto.

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A escolha é sua.

Em especial, tome cuidado com as ideias patogênicas. O termo, cunhado pelo psicólogo evolucionista Gad Saad (livro The Parasitic Mind: How Infectious Ideas Are Killing Common Sense), designa o modo viral como certas ideias se espalham pela sociedade, parasitando a mente dos indivíduos e promovendo ações concretas (e deletérias) no mundo real.

E na dúvida sobre o que fazer de sua vida, ao invés de desperdiçá-la quebrando vidraças, atando fogo na propriedade alheia ou doutrinando a infância com ideias idiotizantes que as transformarão em adultos disfuncionais, frustrados e desempregados, busque duas coisas: a introspecção, ou o conhece-te a ti mesmo, para entender-se melhor e compreender o que lhe trará satisfação no curto e no longo prazo; e a exploração das possibilidades reais no mundo, testando atividades, hobbies, profissões, e conhecendo pessoas e suas diferentes perspectivas, o que lhe proporcionará um repertório rico de insights opções.

É como diz o Gato de Cheshire:

— Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? — perguntou Alice.
— Depende bastante de para onde você quer ir — respondeu o Gato.
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

foto do autor

Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador




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