A Queda da Casa de Usher - Conto Original Completo de Edgar Allan Poe | Fantástica Cultural

Artigo A Queda da Casa de Usher - Conto Original Completo de Edgar Allan Poe
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A Queda da Casa de Usher - Conto Original Completo de Edgar Allan Poe

Autores Selecionados ⋅ 3 out. 2023
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O clássico conto gótico que deu origem à série da Netflix.

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Durante todo um pesado, sombrio e silencioso dia outonal, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, eu estive passeando, sozinho, a cavalo, através de uma região do interior, singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto da melancólica Casa de Usher.

Não sei como foi, mas, ao primeiro olhar sobre o edifício, invadiu-me a alma um sentimento de angústia insuportável, digo insuportável, porque o sentimento não era aliviado por qualquer dessas semiagradáveis, porque poéticas sensações com que a mente recebe comumente, até mesmo as mais cruéis imagens naturais de desolação e de terror. Contemplei o panorama em minha frente, a casa simples, os aspectos simples da paisagem da propriedade, as paredes glaciais, as janelas vazias, semelhando olhos, uns poucos canteiros de caniços e uns poucos troncos brancos de árvores mortas, que só posso comparar, com propriedade, a qualquer sensação terrena, lembrando os instantes após o sonho de ópio, para quem dele desperta, a amarga recaída na vida cotidiana, o terrível tombar do véu. Havia um enregelamento, uma tontura, uma enfermidade de coração, uma irreparável tristeza no pensamento, que nenhum incitamento da imaginação podia forçar a transformar-se em qualquer coisa de sublime. Que era — parei para pensar — que era o que tanto me perturbava à contemplação da Casa de Usher?

Era um mistério inteiramente insolúvel; e eu não podia apreender as ideias sombrias que se acumulavam em mim, ao meditar nisso. Fui forçado a recair na conclusão insatisfatória que se , sem dúvida, combinações de objetos muito naturais, que têm o poder de assim influenciar-nos, a análise desse poder, contudo, permanece, entre as considerações além de nossa argúcia. Era possível refletir que um mero arranjo diferente dos detalhes da paisagem, dos pormenores do quadro, fosse suficiente para modificar, ou talvez aniquilar sua capacidade de produzir tristes impressões; e, demorando-me nesta ideia, dirigi o cavalo para a margem escarpada de um pantanal negro e lúgubre, que reluzia, parado junto ao prédio, e olhei para baixo — com um tremor ainda mais forte do que antes — para as imagens alteradas e invertidas dos caniços cinzentos e dos lívidos troncos de árvores e das janelas vazias semelhantes a olhos.

Não obstante isso, eu me propusera a ficar algumas semanas nesta mansão de melancolia. Seu proprietário, Roderick Usher, fora um dos meus alegres companheiros de infância; mas muitos anos haviam decorrido, desde o nosso último encontro. Uma carta, porém, chegara-me ultimamente, em distante região do país — uma carta dele, a qual, por sua natureza estranhamente importuna, não admitia resposta que não fosse pessoal. O manuscrito dava indícios de nervosa agitação. O signatário falava de uma aguda enfermidade física, de uma perturbação mental que o oprimia e de um ansioso desejo de ver-me, como seu melhor e, em realidade, seu único amigo pessoal, a fim de alcançar, pelo carinho de minha companhia, algum alívio a seus males. A maneira pela qual tudo isso, e ainda mais, era dito, o aparente sentimento que seu pedido demonstrava não me deixaram lugar para hesitação; e, em consequência, aceitei logo o que ainda considerava um convite bastante singular.

Embora, quando crianças, tivéssemos sido companheiros íntimos, eu, na verdade, conhecia pouco meu amigo. Sua reserva sempre fora excessiva e constante. Sabia, contudo, que sua família, das mais antigas, se tornara notada, desde tempos imemoriais, por uma particular sensibilidade de temperamento, manifestando-se, através de longas eras, em muitas obras de arte exaltada e, ultimamente, evidenciando-se em repetidas ações de caridade munificente, embora discreta, assim como intensa paixão pelas sutilezas, talvez mesmo mais do que pelas belezas ortodoxas e facilmente reconhecíveis, da ciência musical. Eu conhecia, também, o fato, muito digno de nota, de que do tronco da família Usher, apesar de sua nobre antiguidade, jamais brotara em qualquer época, um ramo duradouro; em outras palavras, a família inteira só se perpetuava por descendência direta e assim permanecera sempre, com variações muito efêmeras e sem importância. Era essa deficiência, pensava eu, enquanto a mente examinava a concordância perfeita do aspecto da propriedade com o caráter exato de seus habitantes, e enquanto especulava sobre a possível influência que aquela, no longo decorrer dos séculos, poderia ter exercido sobre estes, era essa deficiência, talvez, de um ramo colateral, e a consequente transmissão em linha reta, de pai a filho, do nome e do patrimônio, que afinal tanto identificara ambos, a ponto de dissolver o título original do domínio na estranha e equivoca denominação de "Casa de Usher", denominação que parecia incluir, na mente dos camponeses que a usavam, tanto a família quanto a mansão familiar.

Disse que o simples efeito de minha experiência algo pueril — a de olhar para dentro do pântano — aprofundara a primeira impressão de singularidade. Não podia haver dúvida de que a consciência do rápido aumento de minha superstição — por que não a chamaria assim? — servia principalmente para intensificar esse aumento. Tal, sabia eu de há muito, é a lei paradoxal de todos os sentimentos que têm o terror como base. E só podia ter sido por esta razão que, quando de novo ergui os olhos da imagem do edifício no lodaçal, para a própria casa, cresceu-me no espírito uma estranha fantasia — uma fantasia de fato ridícula que só a menciono para mostrar a viva força das sensações que me oprimiam. Tanto eu forçara a imaginação que realmente acreditava que, em torno da mansão e da propriedade, pairava uma atmosfera característica de ambos e de seus imediatos arredores — atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que se exalava das árvores apodrecidas e do muro cinzento e do lago silencioso — um vapor pestilento e misterioso, pesado, lento, fracamente visível e cor de chumbo.

Desembaraçando o espírito do que devia ter sido um sonho, examinei mais estreitamente o aspecto real do edifício. Sua feição dominante parecia ser a duma excessiva antiguidade. Fora grande o desbotamento produzido pelos séculos. Cogumelos miúdos se espalhavam por todo o exterior, pendendo das goteiras do telhado, como uma fina rede emaranhada. Tudo isso, porém, estava fora de qualquer deterioração incomum. Nenhuma parte da alvenaria havia caído e parecia haver uma violenta incompatibilidade entre sua perfeita consistência de partes e o estado particular das pedras esfarinhadas, que me lembravam bastante a especiosa integridade desses velhos madeiramentos, que durante muitos anos apodreceram em alguma adega abandonada, sem serem perturbados pelo hálito do vento exterior. Além deste índice de extensa decadência, porém, dava o edifício poucos indícios de fragilidade. Talvez o olhar dum observador minucioso descobrisse uma fenda mal perceptível, que, estendendo-se do teto da fachada, ia descendo em ziguezague pela parede, até perder-se nas soturnas águas do lago.

Notando estas coisas, segui a cavalo por uma curta calçada, que levava à casa. Um criado tomou meu cavalo e penetrei na abóbada gótica do vestíbulo. Outro criado, a passos furtivos, conduziu-me, então, em silêncio, através de muitos corredores escuros e intrincados, até o gabinete de seu patrão. Muito do que ia encontrando pelo caminho, contribuía, não sabia eu como, para reforçar os sentimentos vagos de que já falei. Os objetos que me cercavam, as esculturas dos forros, as sombrias tapeçarias das paredes, a negrura de ébano dos soalhos e os fantasmagóricos troféus de armas, que tilintavam à minha passagem precipitada, eram coisas com as quais me familiarizara desde a infância e, conquanto não hesitasse em reconhecê-las como assim familiares, espantava-me ainda verificar como não eram familiares as fantasias que essas imagens habituais faziam irromper. Numa das escadarias encontrei o médico da família. Seu aspecto, pensei, apresentava a expressão mista da agudeza baixa e da perplexidade. Passou por mim precipitadamente e seguiu. O criado então abriu uma porta e me levou à presença de seu patrão.

O aposento em que me achei era muito amplo e elevado. As janelas eram longas, estreitas e pontudas, a uma distância tão vasta do soalho de carvalho negro que, de pé sobre este, não as poderíamos atingir. Fracos clarões de uma luz purpúrea penetravam pelos vitrais e gelosias, conseguindo tornar suficientemente distintos os objetos mais salientes em derredor; em vão, porém, o olhar lutava para alcançar os ângulos mais distantes do quarto, ou os recessos do teto esculpido e abobadado. Negras tapeçarias penduravam-se das paredes. O mobiliário, em geral, era profuso, desconfortável, antigo e desconjuntado. Viam-se espalhados muitos livros e instrumentos musicais, mas nenhuma vivacidade eles conseguiam dar ao cenário. Senti que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de melancolia acre, profunda e irremissível pairava ali, penetrando tudo.

À minha entrada, Usher ergueu-se de um sofá em que estivera deitado, ao comprido, e saudou-me com o vivo calor que em si tinha muito, pensei eu a princípio, de cordialidade constrangida, do esforço obrigatório do homem de sociedade entediado. Um olhar, porém, para seu rosto, convenceu-me de sua perfeita sinceridade. Sentamo-nos. E, por alguns mementos, enquanto ele não falou, olhei-o com um sentimento meio de dó, meio de espanto. Certamente, homem algum jamais se modificou tão terrivelmente, em período tão breve, quanto Roderick Usher! Foi com dificuldade que cheguei a admitir a identidade do fantasma à minha frente, com o companheiro de minha primeira infância. Os característicos de sua face, porém, sempre haviam sido, em todos os tempos, notáveis. Uma compleição cadavérica; um olhar amplo, líquido e luminoso, além de qualquer comparação; lábios um tanto finos e muito pálidos, mas de uma curva extraordinariamente bela; nariz de delicado modelo hebraico, mas com uma amplidão de narinas incomum em tais formas; um queixo finamente modelado, denunciando, na sua falta de proeminência, a falta de energia moral; cabelos de tenuidade e maciez mais que de fios de aranha; — tais feições, e um desenvolvimento frontal excessivo, acima das regiões das têmporas, compunham uma fisionomia que dificilmente se olvidava. E agora, pelo simples exagero dos característicos dominantes desses traços, e da expressão que eles costumavam apresentar, tanta se tornara a mudança que não reconheci logo com quem falava. A lividez agora cadavérica da pele e o brilho sobrenatural do olhar, principalmente, me deixaram atônito e mesmo horrorizado. Também o cabelo sedoso crescera à vontade, sem limites, e como ele, na sua tessitura de aranhol, mais flutuava do que caía em torno da face, eu não podia, mesmo com esforço, ligar sua aparência estranha com a simples ideia de humanidade.

Impressionou-me logo certa incoerência nas maneiras de meu amigo, certa inconsistência; e logo verifiquei que isso nascia de uma série de lutas fracas e fúteis para dominar uma perturbação habitual, uma excessiva agitação nervosa. Na verdade, eu me achava preparado para encontrar algo dessa natureza, não só pela carta dele, como por certas recordações de fatos infantis e por conclusões derivadas de sua conformação física e temperamento especiais. Seu modo de agir era alternadamente vivo e indolente. Sua voz variava, rapidamente, de uma indecisão trêmula (quando a energia animal parecia inteiramente ausente) àquela espécie de concisão enérgica, àquela abrupta, pesada, pausada, e cavernosa enunciação, àquela pronúncia carregada, equilibrada e de modulação guturalmente perfeita, que se pode observar no ébrio contumaz ou no irremediável fumador de ópio, durante os períodos de sua mais intensa excitação.

Foi assim que ele falou do objetivo de minha visita, de seu ansioso desejo de me ver e da consolação que esperava que eu lhe trouxesse. Passou a tratar, com alguma extensão, do que concebia ser a natureza de sua doença. Era, disse ele, um mal orgânico e de família, para o qual desesperara de achar remédio. Simples afecção nervosa — acrescentou imediatamente — que sem dúvida passaria depressa. Desenvolvia-se numa multidão de sensações anormais. Algumas destas, como ele as detalhou, me interessaram e admiraram; embora talvez para isso concorressem os termos e o modo geral de sua narrativa. Sofria muito de uma acuidade mórbida dos sentidos; só o alimento mais insípido lhe era suportável; somente podia usar vestes de determinados tecidos; eram-lhe asfixiantes os perfumes de todas as flores; mesmo uma fraca luz lhe torturava os olhos; e apenas sons especiais, além dos brotados dos instrumentos, não lhe inspiravam horror.

Verifiquei que ele era um escravo agrilhoado a uma espécie anômala de terror. "Morrerei — disse ele — devo morrer nesta loucura deplorável. Estarei perdido assim, assim e não de outra maneira. Temo os acontecimentos do futuro, não por si mesmos, mas por seus resultados. Estremeço ao pensar em algum incidente, mesmo o mais trivial, que possa influir sobre essa intolerável agitação da alma. Na verdade, não tenho horror ao perigo, exceto no seu efeito positivo: o terror. Nessa situação enervante e lastimável, sinto que chegará, mais cedo ou mais tarde, o período em que deverei abandonar, ao mesmo tempo, a vida e a razão, em alguma luta com esse fantasma lúgubre, o medo."

Fiquei sabendo, ademais, a intervalos e por meio de frases quebradas e equívocas, de outro traço singular de sua condição mental. Ele estava preso a certas impressões supersticiosas com relação ao prédio em que morava, e de onde, por muitos anos, nunca se afastara, e com relação a uma influência cuja força hipotética era exposta em termos demasiado tenebrosos, para serem aqui repetidos, influência que certas particularidades, apenas de forma e de substância, na sua casa de família, através de longos sofrimentos, dizia ele, exerciam sobre seu espírito; efeito que o físico das paredes e torreões cinzentos e do sombrio pântano, em que esse conjunto se espelhava afinal, produzira sobre o moral de sua existência.

Ele admitia, porém, embora com hesitação, que muito da melancolia particular, que assim o afligia, podia rastrear-se até uma origem mais natural e bem mais admissível; na doença severa e prolongada — na verdade, na morte aparentemente a aproximar-se, de uma irmã ternamente amacia, sua única companhia, durante longos anos, sua última e única parenta na terra. "O falecimento dela — dizia ele, com amargura que nunca poderei esquecer — deixá-lo-ia (a ele, o desesperançado e frágil) como o último da antiga raça dos Ushers."

Enquanto ele falava, Lady Madeline (pois era assim chamada) passou lentamente para uma parte recuada do aposento e, sem ter notado minha presença, desapareceu. Olhei-a com extremo espanto não destituído de medo. E contudo achava impossível dar-me conta de tais sentimentos. Uma sensação de estupor me oprimia, enquanto meus olhos acompanhavam seus passos que se afastavam. Quando afinal se fechou sobre ela uma porta, meu olhar buscou instintivamente, curiosamente, a fisionomia do irmão. Mas ele havia mergulhado a face nas mãos e apenas pude perceber que uma palidez, bem maior do que a habitual, se havia espalhado sobre os dedos emagrecidos, através dos quais se filtravam lágrimas apaixonadas.

A doença de Lady Madeline por muito tempo zombara da habilidade de seus médicos. Uma apatia fixa, um esgotamento gradual de sua pessoa e crises frequentes, embora transitórias, de caráter parcialmente cataléptico, eram os insólitos sintomas. Até ali, tinha ela suportado bravamente o peso de sua doença e não quisera ir para a cama; mas, ao fim da noite de minha chegada à casa, ela sucumbiu (como me contou seu irmão, à noite, com inexprimível agitação) ao poder esmagador do flagelo; e eu soube que o olhar, que havia lançado sobre ela seria assim, provavelmente, o último e que não mais veria aquela mulher, pelo menos enquanto estivesse viva.

Durante os vários dias que se seguiram, seu nome não foi pronunciado, nem por Usher, nem por mim; e nesse período fiquei eu ocupado em esforços tenazes para aliviar a melancolia de meu amigo. Pintávamos e liamos juntos, ou ouvíamos, como em sonhos, suas improvisações estranhas, em sua eloquente guitarra. E assim, à medida que uma intimidade cada vez maior me introduzia sem reservas nos recessos de seu espírito, mais amargamente eu percebia a vaidade de todas as minhas tentativas de alegrar uma alma da qual a escuridão, como uma qualidade inerente e positiva, se derramava sobre todos os objetos do universo moral e físico, numa incessante irradiação de trevas.

Guardarei para sempre a lembrança de muitas horas solenes que passei a sós com o dono da Casa de Usher. Contudo, seria malsucedido em qualquer tentativa de exprimir uma ideia do exato caráter dos estudos, ou das ocupações a que ele me arrastava, ou de que me mostrava o caminho. Uma idealidade excitada e altamente mórbida lançava um brilho sulfuroso sobre tudo. Suas longas e improvisadas endechas soarão para sempre aos meus ouvidos. Entre outras coisas, recordo-me penosamente de certa adulteração singular e amplificação da estranha ária da derradeira valsa de Von Weber. Quanto às pinturas geradas pela sua complicada fantasia e que iam aumentando, traço a traço, numa espécie de vaguidão que me causava os mais arrepiantes calafrios, porque eu tremia sem saber por que — quanto a essas pinturas (como suas imagens estão vivas agora diante de mim!) em vão tentaria delas extrair mais do que uma pequena parte, que pudesse ficar nos limites das simples palavras escritas. Pela extrema simplicidade, pela nudez de seus desenhos, ele atraía e subjugava a atenção. Se jamais algum mortal pintou uma ideia, esse foi Roderick Usher. Para mim, pelo menos, nas circunstâncias que então me cercavam, erguia-se das puras abstrações que o hipocondríaco se esforçava por lançar na tela, um terror de intensidade intolerável, do qual nem a sombra eu jamais senti na contemplação dos devaneios de Fuselli, certamente brilhantes, embora demasiado concretos.

Uma das fantasmagóricas concepções de meu amigo, que não partilhava tão rigidamente do espírito de abstração, pode ser esboçada, embora fracamente, em palavras. Um pequeno quadro apresentava o interior de uma adega, ou túnel, imensamente longo e retangular, com paredes baixas, polidas, brancas e sem interrupção ou ornamento. Certos pontos acessórios da composição serviam bem para traduzir a ideia de que essa escavação jazia a uma profundidade excessiva, abaixo da superfície da terra. Não se via qualquer saída, em seu vasto percurso, e nenhuma tocha, ou qualquer outra fonte artificial de luz era perceptível: e, no entanto, uma efusão de intensos raios rolava de uma extremidade à outra, tudo banhando de esplendor fantástico e inapropriado.

Já me referi àquele estado mórbido do nervo acústico, que tornava toda música intolerável ao paciente, exceto certos efeitos de instrumentos de corda. Foram talvez os estreitos limites a que ele assim se confinou na guitarra, que deram origem em grande parte ao caráter fantástico de suas execuções. Mas a fervorosa facilidade de seus impromptus não podia ser assim explicada. Eles devem ter sido e eram, nas notas, bem como nas palavras de suas estranhas fantasias (pois ele frequentemente se acompanhava, com improvisações verbais rimadas), o resultado daquela intensa concentração e recolhimento mental, a que eu antes aludi, como observável apenas em momentos especiais da mais alta excitação artificial. Lembrei-me facilmente das palavras de uma dessas rapsódias. Talvez me tenha ela impressionado mais fortemente, quando ele me apresentou-a, porque, na corrente subterrânea ou mística de seu significado, imaginei perceber, pela primeira vez, que Usher tinha pleno conhecimento do vacilar de sua elevada razão, sobre seu trono. Os versos, que eram intitulados O palácio assombrado, eram pouco mais ou menos assim:

I
No vale mais verdejante
que anjos bons têm por morada,
outrora, nobre e radiante
palácio erguia a fachada.
Lá, o rei era o Pensamento,
e jamais um serafim
as asas soltou ao vento,
sobre solar belo assim.

II
Bandeiras de ouro, amarelas,
no seu teto, flamejantes,
ondulavam, (foi naquelas...
eras distantes!)
e alado odor se evolava,
quando a brisa em horas cálidas,
por sobre as muralhas pálidas
suavemente perpassava.

III
Pelas janelas de luz
o viajor a dançar via
espíritos que a harmonia
de um alaúde tinham por lei.
E sobre o trono, fulgia
(porfirogênito!) o Rei,
com a glória, com a fidalguia,
de quem tal reino conduz.

IV
Pela porta cintilante
de pérolas e rubis,
ia fluindo a cada instante
multidão de ecos sutis,
vozes de imortal beleza
cujo dever singular
era somente cantar
do Rei a imensa grandeza.

V
Mas torvos, lutuosos vultos
assaltaram o solar!
(Choremos! pois nunca o dia
sobre o ermo se há de elevar!)
E, em torno ao palácio, a glória
que fulgente florescia
é apenas obscura história
de velhos tempos sepultos!

VI
Pelas janelas, agora,
em brasa, avista o viajante
estranhas formas, que agita
uma música ululante;
e, qual rio, se precipita
pela pálida muralha
uma turba que apavora,
que não sorri, mas gargalha
em gargalhada infinita!

Lembro-me bem que as sugestões surgidas desta balada conduziram-nos a uma corrente de ideias, dentro das quais se manifestou uma opinião de Usher, que menciono, não tanto por causa de sua novidade (pois outros homens têm pensado assim), como per causa da pertinácia com que a mantinha. Esta opinião, na sua forma geral, era a da sensitividade de todos os seres vegetais. Mas, na sua fantasia desordenada a ideia havia assumido um caráter mais audacioso, e avançava sob certas condições, no reino do inorgânico. Faltam-me palavras para exprimir toda a extensão, ou o grave abandono de sua persuasão. Esta crença, todavia, estava ligada (como já dei antes a entender) às cinzentas pedras do lar de seus antepassados. As condições da sensitividade tinham sido aqui, imaginava ele, realizadas pelo método de colocação dessas pedras — na ordem do seu arranjo, bem como na dos muitos fungos que as revestiam, e das árvores mortas que se erguiam em redor — e acima de tudo, na longa e imperturbada duração deste arranjo, e em sua reduplicação nas águas dormentes do lago. A prova — a prova de sensitividade — haveria de ver-se, dizia ele (e aqui me sobressaltei ao ouvi-lo falar), na gradual, ainda que incerta condensação duma atmosfera que lhes era própria, em torno das águas e dos muros. O resultado era discernível, acrescentava ele, naquela influência silenciosa, embora importuna e terrível, que, durante séculos, tinha moldado os destinos de sua família, e fizera dele, tal como eu agora o via — o que ele era. Tais opiniões não necessitam de comentários e por isso nenhum farei.

Nossos livros — os livros que, durante anos, tinham formado não pequena parte da existência mental do inválido — estavam, como é de supor-se, de perfeito acordo com esse caráter de visionário. Analisáramos juntos obras tais como Vert-Vert e A Cartuxa, de Gresset; O Belfegor, de Maquiavel; O Céu e Inferno, de Swedenborg; A Viagem Subterrânea de Nicolau Klimm, de Holberg; Quiromancia, de Robert Flud, de Jean d´Indagìné e De La Chambre; A Viagem no Azul, de Tieck, e A Cidade do Sol, de Campanella. Um volume favorito era uma pequena edição, in-8.º, do Directorium Inquisitorium, do dominicano Eymeric de Gironne; e havia passagens de Pomponius Mela, a respeito dos velhos sátiros africanos e dos egipãs, sobre as quais ficava Usher a sonhar durante horas. Seu principal deleite, porém, consistia na leitura dum livro excessivamente raro e curioso, um in-4.º gótico — manual duma igreja esquecida — Vigiliae mortuorum secundum, chorum ecclesiae maguntinae.

Não podia deixar de pensar no estranho ritual dessa obra, e na sua provável influência sobre o hipocondríaco, quando uma noite, tendo-me informado bruscamente que Lady Madeline não mais vivia, revelou sua intenção de conservar-lhe o corpo, por uma quinzena (antes de seu enterramento definitivo), em uma das numerosas masmorras, dentro das possantes paredes do castelo. A razão profana, porém, que ele dava de tão singular procedimento, era dessas que eu não me sentia com liberdade de discutir. Como irmão, tinha sido levado a essa resolução (assim me dizia ele), tendo em conta o caráter insólito da doença da morta, certas perguntas importunas e indiscretas da parte de seus médicos e a localização afastada e muito exposta do cemitério da família. Não negarei que, quando me veio à memória a fisionomia sinistra do indivíduo a quem encontrara na escada, no dia de minha chegada à casa, perdi a vontade de opor-me ao que eu encarava, quando muito, como uma preocupação inocente e sem dúvida alguma muito natural.

A pedido de Usher, ajudei-o pessoalmente nos arranjos para o sepultamento temporário. Tendo sido o corpo metido no caixão, nós dois, sozinhos, levamo-lo para seu lugar de repouso. A adega na qual o colocamos (e que estivera tanto tempo fechada, que nossas tochas semiamortecidas na sua atmosfera sufocante, não nos permitiam um exame melhor do local) era pequena, úmida e sem nenhuma entrada para luz; achava-se, a grande profundidade, logo abaixo daquela parte do edifício, em que se encontrava meu próprio quarto de dormir. Tinha sido utilizada, ao que parece, em remotos tempos feudais, para os péssimos fins de calabouço e, em dias recentes, como paiol de pólvora, ou de alguma outra substância altamente inflamável, pois uma parte do chão e todo o interior duma longa arcada, por onde havíamos passado, estavam cuidadosamente revestidos de cobre. A porta de ferro maciço tinha sido também protegida de igual modo. Quando girava nos gonzos, seu enorme peso produzia um som insolitamente agudo e irritante.

Tendo depositado nosso fúnebre fardo sobre cavaletes, naquele horrendo lugar, desviamos em parte a tampa, ainda não pregada do caixão, e contemplamos o rosto do cadáver. Uma semelhança chocante entre o irmão e a irmã deteve então, em primeiro lugar, a minha atenção; e Usher, adivinhando, talvez, meus pensamentos, murmurou umas poucas palavras, pelas quais vim a saber que a morta e ele tinham sido gêmeos e que afinidades, duma natureza mal inteligível, sempre haviam existido entre eles. Nossos olhares, porém, não descansaram muito tempo sobre a morta, pois não a podíamos contemplar sem temor. A doença, que assim levara ao túmulo a senhora, na plenitude de sua mocidade, havia deixado, como sempre acontece em todas as doenças de caráter estritamente catalético, a ironia duma fraca coloração no seio e na face, e nos lábios aquele sorriso, desconfiadamente hesitante, tão terrível na morte. Fechamos e pregamos a tampa, e, depois de havermos prendido a porta de ferro, retomamos com lassidão o caminho de volta, para os aposentos, pouco menos sombrios, da parte superior da casa.

E, então, tendo decorrido alguns dias de amargo pesar, uma mudança visível operou-se nos sintomas da desordem mental de meu amigo. Suas maneiras usuais desapareceram. Suas ocupações costumeiras eram negligenciadas ou esquecidas. Vagava de quarto em quarto, a passos precipitados, desiguais e sem objetivo. A palidez de sua fisionomia tomara, se possível, um tom ainda mais espectral — mas a luminosidade de seu olhar havia-se extinguido por completo. Não mais escutava aquele tom rouco de voz, que ele outrora fazia às vezes ouvir; e sua fala era agora habitualmente caracterizada por gaguejo trêmulo, como de extremo terror. Havia vezes, na verdade, em que eu pensava que seu pensamento, incessantemente agitado, estava sendo trabalhado por algum segredo opressivo, lutando ele para ter a necessária coragem de divulgá-lo. Às vezes, ainda, eu era forçado a considerar tudo como inexplicáveis devaneios da loucura, pois via-o contemplar o vácuo, durante horas a fio, numa atitude da mais profunda atenção, como se desse ouvidos a algum som imaginário. Não admira que sua situação terrificasse — que me contagiasse. Senti subirem, rastejando em mim, por escalas lentas, embora incertas, as influências estranhas das fantásticas, mas impressionantes, superstições, que ele entretinha.

Foi, especialmente, depois de ir deitar-me, já noite alta, sete ou oito dias depois de haver sido colocado no túmulo o corpo de Lady Madeline, que experimentei o vasto poder desses sentimentos. O sono não se aproximou de meu leito — e as horas se iam desfazendo, uma a uma. Lutei para dominar com a razão o nervosismo que de mim se apoderava. Tentei levar-me a crer que muito, senão tudo aquilo que se sentia, se devia à impressionante influência da sombria decoração do aposento, dos panos negros e em farrapos que, forçados ao movimento pelo sopro de uma tempestade nascente, ondulavam caprichosamente, para lá e para cá, nas paredes, oscilando, inquietos, junto aos ornatos da cama. Meus esforços, porém, foram infrutíferos. Irreprimível tremor, pouco a pouco, me invadiu o corpo; e, por fim, sentou-se sobre meu próprio coração o incubo de uma angústia inteiramente infundada. Sacudindo-o de cima de mim, em luta ofegante, ergui-me sobre os travesseiros e, perscrutando avidamente a intensa escuridão do quarto, escutei — não sei por que, mas impelido por uma força instintiva — certos sons baixos e indefinidos, que vinham por entre as pausas da tempestade, a longos intervalos, não sabia eu de onde. Dominado por um intenso sentimento de horror, inexplicável embora insuportável, vesti-me às pressas (pois sentia que não poderia dormir mais naquela noite) e tentei arrancar-me da lastimável situação em que caíra, andando rapidamente para lá e para cá, pelo aposento.

Havia eu dado apenas poucas voltas dessa maneira, quando um passo leve, numa escada vizinha, deteve minha atenção. Logo o reconheci, como o passo de Usher. Um instante depois batia ele levemente à minha porta e entrava trazendo uma lâmpada. Sua fisionomia estava como sempre cadavericamente descorada, mas além disso havia uma espécie de hilaridade louca nos seus olhos — uma histeria evidentemente contida, em toda a sua atitude. Seu ar aterrorizou-me, mas qualquer coisa era preferível à solidão que eu tinha suportado tanto tempo e mesmo acolhi sua presença como um alívio.

— E você não o viu? — perguntou ele bruscamente, depois de ter olhado em turno de si, por alguns instantes, em silêncio. Não o viu, então? Mas espere! Você o verá!

Assim falando, e tendo cuidadosamente protegido sua lâmpada, correu para uma das janelas e abriu-a escancaradamente para a tempestade.

A fúria impetuosa da rajada, que entrava, quase nos levou do solo. Era, na verdade, uma noite tempestuosa, embora asperamente bela, uma noite estranhamente singular, no seu terror e na sua beleza. Um turbilhão, aparentemente, desencadeara sua força na nossa vizinhança, pois havia frequentes e violentas alterações na direção do vento e a densidade excessiva das nuvens (que pendiam tão baixas como a pesar sobre os torreões da casa) não nos impedia de perceber a velocidade natural, com que elas se precipitavam, de todos os pontos, umas contra as outras, sem se dissiparem na distância. Disse que mesmo sua excessiva densidade não nos impedia de perceber isto — contudo não podíamos ver a lua ou as estrelas, nem havia ali qualquer clarão de relâmpagos. Mas as superfícies inferiores das vastas massas de vapor agitado, bem como todos os objetos terrestres, imediatamente em torno de nós, estavam cintilando à luz sobrenatural de uma exalação gasosa, fracamente luminosa e distintamente visível, que pendia em torno da mansão, amortalhando-a.

— Você não deve... você não pode contemplar isso! — disse eu, estremecendo, a Usher, enquanto o levava, com suave energia, da janela para uma cadeira, esses espetáculos que o perturbam, são simples fenômenos elétricos comuns... ou talvez tenham sua origem fantasmal nos miasmas fétidos do pântano. Fechemos esta janela; o ar está frio e é um perigo para sua saúde. Anui está um de seus romances favoritos. Lê-lo-ei e você escutará. E assim passaremos esta terrível noite juntos.

O velho volume que apanhei era A assembleia dos loucos, de sir Launcelot Canning; mas eu o havia chamado favorito de Usher, mais por triste brincadeira que a sério, pois, na verdade, pouca coisa havia, em sua prolixidade grosseira e sem imaginação, que pudesse interessar a idealidade elevada e espiritual de meu amigo. Era, contudo, o único livro imediatamente à mão, e abriguei a vaga esperança de que a excitação que, no momento agitava o hipocondríaco, pudesse achar alivio (pois a história das desordens mentais está cheia de anomalias semelhantes) mesmo no exagero das loucuras que eu iria ler. A julgar, na verdade, pelo ar estranhamente tenso de vivacidade, com que ele escutava, ou fingia escutar as palavras da narração, eu poderia congratular-me pelo êxito do meu desígnio.

Havia chegado àquele trecho, muito conhecido da história, em que Etelredo, o herói do Triste, tendo procurado, em vão, entrar pacificamente na casa do eremita, passa a querer abrir caminho à força. Aí, como hão de recordar-se, as palavras da narrativa dizem o seguinte:

"E Etelredo, que era, por natureza, de coração valente e que se achava então ainda mais encorajado, por causa da força do vinho que tinha bebido, não esperou mais tempo para travar discussão com o eremita, que, na verdade, tinha um jeito obstinado e malicioso; mas, sentindo a chuva nos ombros e temendo o desencadear-se da tempestade, ergueu sua maça e, com repetidos golpes, abriu rapidamente caminho nos tabuados da porta, para sua manopla; e então, empurrando com ela firmemente, tanto arrebentou, e fendeu, e despedaçou tudo, que o barulho da madeira seca e do som oco repercutia, alarmando toda a floresta."

Ao terminar esta frase, sobressaltei-me e, durante um momento, me detive; pois me parecia (embora imediatamente concluísse que minha imaginação excitada me havia enganado) que, de alguma parte, muito distante da casa, provinha, indistintamente, aos meus ouvidos, o que poderia ser, na exata similaridade de seu caráter, o eco (mas um eco certamente abafado e cavo) do som verdadeiramente estalante e rachante, que Sir Launcelot havia tão caracteristicamente descrito. Foi, não resta dúvida, somente a coincidência que havia detido minha atenção, pois entre o ranger dos caixilhos das janelas e os rumores habituais e misturados da tempestade ainda em aumento, o som em si mesmo, nada tinha, de certo, que pudesse ter-me interessado ou perturbado. Continuei a história:

"Mas o bom campeão Etelredo, entrando agora pela porta, ficou excessivamente enraivecido e espantado, por não encontrar sinal algum do malicioso eremita; mas em lugar dele um dragão havia, de aspecto escamoso e monstruoso, e com uma língua chamejante, que estava de guarda diante de um palácio de ouro, com chão de prata. E sobre a parede pendia um escudo de bronze cintilante, com esta legenda gravada:

Quem aqui peneirar, conquistador será;
quem matar o dragão, esse, o escudo terá.

"E Etelredo ergueu sua clava e descarregou-a sobre a cabeça do dragão, que caiu diante dele e lançou seu pestilento suspiro, com um berro tão horrível e rouco e ao mesmo tempo tão agudo, que Etelredo foi obrigado a cobrir os ouvidos com as mãos, contra o tremendo barulho, que igual jamais ele ouvira."

Aqui de novo eu parei bruscamente e então, com um sentimento de estranho espanto, pois não poderia haver dúvida alguma de que neste instante eu tivesse realmente ouvido (embora me fosse impossível distinguir de que direção ele provinha) um som baixo e aparentemente distante, mas áspero, prolongado e bem singularmente penetrante ou rascante — a exata reprodução daquilo que minha fantasia já havia figurado, como o berro desnatural do dragão, tal como o descrevera o romancista.

Opresso, como certamente estava, diante da extraordinária coincidência, por mil sensações contraditórias, em que predominava o espanto e o extremo terror, mantive ainda suficiente presença de espirito para impedir-me de excitar, por qualquer observação, a sensibilidade nervosa de meu companheiro. Não tinha certeza alguma de que ele houvesse notado os sons em questão, embora certamente uma estranha alteração, durante os últimos minutos, se houvesse operado na sua atitude. De uma posição fronteira à minha, ele havia gradualmente feito girar sua cadeira, de modo a ficar sentado de frente para a porta do quarto; e assim eu podia avistar apenas parcialmente suas feições, embora visse que seus lábios tremiam, como se ele estivesse murmurando sons inaudíveis. A cabeça havia-lhe pendido sobre o peito e, no entanto, eu sabia que ele não estava adormecido, por ver-lhe os olhos escancarados e vítreos, quando lobriguei avistar-lhe o perfil. O movimento de seu corpo estava também em desacordo com essa ideia, pois ele se balançava de um lado para outro, num ondular vagaroso, embora constante e uniforme. Tendo rapidamente percebido tudo isso, retomei a narrativa de sir Launcelot, que continuava dessa forma:

"E agora o campeão, tendo escapado à terrível fúria do dragão, lembrando-se do escudo de bronze e da quebra do encanto que havia nele, removeu a carcaça de sua frente e aproximou-se corajosamente, pelo pavimento de prata do castelo, do lugar onde pendia o escudo sobre a parede, o qual, em verdade, não esperou que ele chegasse junto, mas caiu-lhe aos pés sobre o chão argênteo, com um retinir reboante e terrível."

Tão logo estas sílabas me saíram dos lábios, eis que — como um escudo de bronze que houvesse realmente, naquele instante, caído pesadamente sobre um chão de prata, percebi um eco distinto, cavo, metálico e clangoroso, embora aparentemente abafado. Completamente nervoso. De um salto pus-me de pé; mas o movimento compassado de balanço de Usher não se modificou. Corri para a cadeira onde ele estava sentado. Seus olhos estavam sempre fixos diante de si e por toda a sua fisionomia imperava uma rigidez de pedra. Mas quando coloquei minha mão sobre seu ombro, toda a sua pessoa estremeceu fortemente; um sorriso mórbido tremeu-lhe em torno dos lábios e eu vi que ele falava num murmúrio baixo, apressado, inarticulado, como se não notasse minha presença. Curvando-me sobre ele e bem de perto, sorvi, afinal, o medonho sentido de suas palavras.

— Não o ouço?... Sim, ouço-o, e tenho-o ouvido. Longamente... longamente... muitos minutos, muitas horas, muitos dias, tenho-o ouvido... contudo não ousava... Oh! Coitado de mim, miserável, desgraçado que sou!... Não ousava... não ousava falar! Nós a pusemos viva na sepultura!... Não disse que meus sentidos eram agudos? Agora, eu lhe conto que ouvi seu primeiro fraco movimento, no fundo do caixão. Ouvi-o... faz muitos, muitos dias... e contudo não ousei... não ousei falar! E agora, esta noite... Etelredo... Ah! Ah! Ah!... o arrombamento da porta do eremita, e o estertor da agonia do dragão, e o retinir do escudo... diga, antes, o abrir-se do caixão, e o rascar dos gonzos de ferro de sua prisão, e o debater-se dela dentro da arcada de cobre da masmorra! Oh! Para onde fugirei? Não estará ela aqui, dentro em pouco? Não estará correndo a censurar-me, por minha pressa? Não ouvi eu o tropel de seus passos na escada? Não distingo aquele pesado e horrível bater do seu coração? Louco! — e aqui saltou ele furiosamente da cadeira e gritou, bem alto, cada sílaba, como se com aquele esforço estivesse exalando a própria alma — Louco! Digo-lhe que ela está, agora, por trás da porta!

Como se na sobre-humana energia de sua fala se tivesse encontrado a potência de um encantamento, as enormes e antigas almofadas da porta, para as quais Usher apontava, escancararam, imediatamente suas pesadas mandíbulas de ébano. Foi isso obra de furiosa rajada; mas, por trás da porta, estava de pé a figura elevada e amortalhada de Lady Madeline de Usher. Havia sangue sobre suas vestes alvas e sinais de uma luta terrível, em todas as partes de seu corpo emagrecido. Durante um instante permaneceu ela, tremendo e vacilando, para lá e para cá, no limiar. Depois com um grito profundo e lamentoso, caiu pesadamente para a frente, sobre seu irmão, e em seus estertores agônicos, violentos e agora finais, arrastou-o consigo para o chão, um cadáver, uma vítima dos terrores que ele mesmo antecipara.

Fugi espavorido daquele quarto e daquela mansão. Ao atravessar a velha alameda, a tempestade lá fora rugia ainda, em todo o seu furor. De repente, irrompeu ao longo do caminho uma luz estranha e voltei-me para ver donde podia provir um clarão tão insólito; pois a enorme casa e as suas sombras eram tudo que havia atrás de mim. O clarão era o da lua cheia e cor de sangue, que se ia pondo e que agora brilhava vivamente, através daquela fenda, outrora mal perceptível, a que me referi antes, partindo do telhado para a base do edifício, em ziguezague. Enquanto eu olhava, aquela fenda rapidamente se alargou... sobreveio uma violenta rajada do turbilhão... o inteiro orbe do satélite explodiu imediatamente à minha vista... meu cérebro vacilou, quando vi as possantes paredes se desmoronarem... houve um longo e tumultuoso estrondar, semelhante à voz de mil torrentes... e o pântano profundo e lamacento, a meus pés, fechou-se, lúgubre e silenciosamente, sobre os destroços da Casa de Usher.

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