A Dupla Jornada do Homem: os horrores da discriminação de gênero | Fantástica Cultural

Artigo A Dupla Jornada do Homem: os horrores da discriminação de gênero

A Dupla Jornada do Homem: os horrores da discriminação de gênero

Por Paulo Nunes ⋅ 1 out. 2023
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A opressão dos papéis de gênero na sociedade não afeta apenas as mulheres. Mas será que o feminismo dá conta de explicar a subjugação masculina?

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Rafael é um homem branco, heterossexual e cisgênero. Não possui qualquer deficiência física, e é considerado neurotípico. De acordo com a escala de opressão estabelecida pelo feminismo interseccional, Rafael encontra-se no topo da hierarquia de dominação social, faltando-lhe apenas a riqueza para atingir o ápice dos privilégios. Mas sua realidade não coincide com a teoria.

Na prática, Rafael vive sob o jugo implacável das expectativas sociais. Assim como ocorre com muitas mulheres, a ele é imposta uma dupla jornada de trabalho: na primeira, sua mão de obra é explorada pela burguesia, dentro do sistema capitalista; na segunda, é forçado a cuidar das tarefas da casa, da limpeza, do preparo do alimento — um trabalho inteiramente não remunerado.

Solteiro, Rafael quase não tem tempo para qualquer tipo de atividade de lazer, ou mesmo para encontrar-se com sua namorada: as horas de trabalho no emprego e no lar consomem todas as suas energias.

Rafael desabafa:

Todos os dias, trabalho pelo menos duas horas sem ser pago. Preparo o café da manhã, o almoço e a janta, lavo a louça, faço as compras, cuido do estoque. Também faço toda a limpeza: banheiro, cozinha, sala. Lavo as roupas, passo, cuido dos lençóis de cama... varro a casa, limpo as janelas. Tudo isso sem receber nada, como se eu fosse um escravo.

Em uma sociedade moldada pela doutrina capitalista, não existe qualquer compensação estatal para estas horas de trabalho doméstico. Assim como ocorre com grande parcela das mulheres, indivíduos como Rafael não são pagos para limpar a própria casa, para cozinhar a própria refeição. São injustiças diárias que, ao longo do tempo, acumulam-se sobre o indivíduo oprimido, tornando sua situação indistinguível da de um escravo.

Mas se a realidade de Rafael nos causa assombro, é ainda mais indignante a de Rodrigo, que além do emprego e das lides caseiras, precisa cuidar de seus dois filhos, Laura e Pedro.

Como pai solteiro, já estou acostumado a ser julgado pela sociedade. As pessoas olham feio. Mas a gente se acostuma.

O pior é conciliar trabalho e família. Os filhos sempre são um empecilho para minha profissão. É exatamente como acontece com as mulheres: elas querem priorizar sua carreira, não é? Afinal, o que é mais importante do que a carreira? Os filhos? A família?

A gente foi inculcado com essa ideia reacionária de priorizar família. É coisa da extrema direita, é ideologia fascista. E muito disso temos no capitalismo. É realmente muito injusto. Não temos onde alojar as crianças durante nossas horas de trabalho... Nem todo mundo consegue pagar uma creche!

Estes e tantos outros casos trazem um desconforto para as teóricas feministas: a opressão de gênero parece recair também sobre os homens, um ponto cego no feminismo.

Tyrone, por exemplo, é vítima constante de objetificação. Devido à sua aparência física, convive diariamente com o assédio de mulheres. Disfarçadas de "cantadas inocentes", as agressões verbais têm abalado o estado mental de Tyrone, forçando-o a fazer terapia. Ele protesta:

Eu não saio de casa para agradar as mulheres. Não me visto para agradar as mulheres. Por que elas acham que têm o direito de me tratar como objeto? De me tocar sem permissão?

E enquanto homens como Tyrone sofrem por serem atraentes, de acordo com o padrão estético arbitrário imposto pela sociedade patriarcal, Roberto é oprimido pela razão inversa: sua aparência socialmente indesejável. Conforme a classificação cientificista da medicina, Roberto seria "obeso". Seu peso, somado à calvície e ao desalinho dos dentes, torna-o alvo de chacotas e rejeição por parte das mulheres.

Sou muito inseguro sobre minha aparência. Sei que a beleza é relativa, mas é impossível lutar contra os padrões sociais, forçados em nós pelas grandes corporações e pela mídia. Mas quando procura mulheres feministas, fico chocado. Elas deveriam olhar para a beleza interior, não é? Mas não são diferentes das outras mulheres. Estou cansado de ser rejeitado. Estou cansado de tanta gordofobia. E de ouvir que meu pipi é pequeno. Como elas saberiam o tamanho?

Infelizmente, os homens também são julgados por sua aparência. E estes padrões de beleza, com exceção de todas as pessoas que os alcançam, são inalcançáveis. Para uns, a "feiura" custa-lhes terapia, medicamentos para depressão, cirurgias plásticas; para outros, a "beleza" manifesta-se como maldição, provocando perseguição, investidas indesejadas e muito desconforto.

Quando se trata de relacionamentos, outra vez temos imposições sociais injustas que dificultam a vida dos homens. Desde o início de qualquer relação, as expectativas de esforço recaem sobre o sexo masculino: a abordagem deve ser feita pelo homem; a conta deve ser paga pelo homem; o cortejo deve ser feito pelo homem. Em seguida, é esperado do homem que proteja a família, que a abasteça de tudo o quanto precise: uma dupla jornada (a de cuidar de si e de toda a família) aglutinada em uma única via, a servidão completa ao sistema capitalista em troca do sustento de si e dos seus. E isso tudo sem nenhum reconhecimento social. São sacrifícios invisibilizados pelo zeitgeist mainstream status quo.

Os homens, enfim, estão exaustos frente à discriminação de gênero.

O masculinicídio já alcança 90% de todos os assassinatos no Brasil: homens trucidados apenas por serem homens. De cada 10 mortos por violência, 9 são homens. O privilégio feminino, no campo da Justiça, também é revoltante: mulheres, em média, recebem apenas 60% do tempo de prisão destinado aos homens para os mesmos crimes, apontando claramente para o caráter matriarcal do patriarcado. Os homens também são super-representados nas estatísticas entre moradores de rua e suicidas; têm seus filhos separados de si em cerca de 90% dos divórcios; e ficam por último na fila de escape do Titanic.

E é por isso que tanto homens quanto mulheres precisam do feminismo: porque os maiores beneficiários do sistema opressor patriarcal são as mulheres — o que as torna privilegiadas, apesar de oprimidas, revelando que os homens são também oprimidos, apesar de privilegiados.

Tyrone, porém, mostra certo otimismo:

No dia em que as mulheres pagarem a metade da conta, aí teremos igualdade de gênero. No dia em que 50% dos pedreiros, dos eletricistas, dos encanadores, dos motoristas, dos agricultores e do exército forem mulheres, aí sim saberemos que a igualdade foi alcançada. Acredito que tudo isso é possível. Até lá, nós homens vamos ficar esperando.

foto do autor

Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador




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