Pacto da Branquitude: racismo e neurose por trás de uma teoria da conspiração | Fantástica Cultural

Artigo Pacto da Branquitude: racismo e neurose por trás de uma teoria da conspiração

Pacto da Branquitude: racismo e neurose por trás de uma teoria da conspiração

Por Paulo Nunes ⋅ 1 out. 2023
Compartilhar pelo FacebookCompartilhar por WhatsAppCitar este artigo

Uma visão psicológica do ativismo racial e seu ciclo de fracassos e ressentimentos.

Livro O Pacto da Branquitude, da psicóloga e ativista brasileira Cida Bento, publicado pela Companhia das Letras.
Livro O Pacto da Branquitude, da psicóloga e ativista brasileira Cida Bento, publicado pela Companhia das Letras.

A cada ano, novas teorias da conspiração são elaboradas nas universidades por acadêmicos ativistas de extrema esquerda. Uma das mais recentes é o chamado pacto da branquitude, ou pacto narcísico da branquitude: segundo os defensores desta ideia, todas as sociedades do Ocidente estariam sob a opressão das pessoas brancas, que se coordenam por meio de um pacto para manter seus privilégios e subjugar indivíduos de outras raças.

As semelhanças com a narrativa nazista a respeito dos judeus são perturbadoras. Em ambas as perspectivas, um grupo racial se diz vítima de outro, apontando como evidência uma conspiração invisível.

Os nazistas acreditavam que os judeus pretendiam dominar o mundo; que os judeus conspiravam para explorar os recursos da sociedade; que os judeus eram a causa de mazelas sociais na Alemanha; e que tudo isso era feito por meio de um pacto silencioso, conspiratório. Mais ainda, acreditavam que todos os judeus eram parte do pacto — isto é, para eles era algo inerente à própria raça. Todas estas ideias racistas e delirantes estão presentes da teoria do pacto da banquitude.

Esta é uma propaganda antissemita criada pelos nazistas. O polvo representa o povo judeu tentando dominar o mundo. A mesma teoria da conspiração é pregada hoje em relação às etnias de origem europeia.
Esta é uma propaganda antissemita criada pelos nazistas. O polvo representa o povo judeu tentando dominar o mundo. A mesma teoria da conspiração é pregada hoje em relação às etnias de origem europeia.

Mas esta ideia de um pacto é apenas parte de uma narrativa maior, conhecida como teoria crítica de raça. Angela Davis, Kimberlé Crenshaw, Stuart Hall e Frantz Fanon são alguns dos ativistas responsáveis pela elaboração desta corrente de pensamento, segundo a qual todo o Ocidente vive sob a égide de uma supremacia branca. Branquitude, nesta perspectiva, é sinônimo de inimigo, caracterizada com toques quase religiosos — como se se tratasse de uma manifestação do próprio demônio, o Mal supremo.

Assim como na visão dos nazistas, os teóricos críticos de raça defendem que uma dada raça conspira para explorar as demais, e que todas as mazelas sociais são provenientes desta conspiração. Enquanto para os nazistas a solução deveria ser o combate aos judeus, para os ativistas de raça é a branquitude que deve ser combatida. O termo branquitude é usado para obscurecer o caráter puramente racista de seu ativismo, mas esta estratégia não resiste a qualquer escrutínio: se, para eles, negritude é algo bom e branquitude é algo nocivo que deve ser destruído, nenhum malabarismo de palavras será capaz de esconder seu racismo.

Afinal, atribuir a todos os membros de uma raça uma característica negativa (isto é, "todo branco é racista") é exatamente o que se espera de um racista. A antropóloga e mestranda Amanda Medeiros Oliveira, integrante dos Estudos Étnicos e Africanos na UFBA, exemplifica esta mentalidade racista em uma entrevista:

Pessoas brancas têm que trabalhar muito para conseguir pensar e agir de uma forma antirracista.

É difícil estimar qual o objetivo último destas narrativas racistas e irracionais, travestidas de teorias. No nível individual, porém, é bastante evidente o apelo psicológico que tais crenças exercem sobre certas pessoas.

definicao de branquitude
Definição de branquitude publicada pela Abril no site Elástica.

Mesmo entre os ativistas, reconhece-se que há uma neurose cultural relacionada à raça no Ocidente. Sua análise, porém, fracassa em entender e explicar o fenômeno. À medida que o racismo se torna cada vez mais raro, e cada vez mais socialmente penalizado, seria de se esperar que as tensões raciais diminuíssem. Mas o contrário ocorreu. Nunca houve tantas acusações e denúncias de racismo no âmbito cultural. Nas mídias jornalísticas ou de entretenimento, praticamente tudo o que existe no mundo já foi associado ao racismo e à supremacia branca.

racismo e branquitude
Uma rápida busca pelo Google Imagens revela incontáveis eventos promovidos por universidades celebrando a negritude ao mesmo tempo que demonizando a branquitude, vinculando esta última ao racismo, à crueldade e à opressão.

Membros de minorias, desde a infância, são bombardeados com estas narrativas de opressão. São socializados com a crença de que o mundo inteiro está contra eles, e ultrassensibilizadas (fragilizados) a qualquer ato que possa parecer racista. Assim, no aparente intuito de ajudar, a conscientização de raça e sobre o racismo torna estes indivíduos mais frágeis, mais suscetíveis ao sofrimento emocional, à paranoia, à baixa autoestima, à ideia de que eles serão cidadãos de segunda classe não importa o que façam.

Em suma, a conscientização de raça defendida como fundamental pela extrema esquerda acaba paralisando as minorias raciais, fragilizando-as emocionalmente, e tornando-as dependentes do ativismo como forma de "lutar" e "resistir" — ainda que seu inimigo, na verdade, sejam suas próprias crenças limitadoras.

Em psicologia, esta paralisação (ou sentimento de impotência) às vezes é tratada através do conceito de lócus de controle: uma pessoa com agência (capacidade de agir conforme sua vontade) tem controle sobre si mesma — o controle está nela; já indivíduos com lócus de controle externo entendem que não têm controle sobre suas vidas, e que algo para além delas dita as regras. Frequentemente, é como uma profecia que se autorrealiza: ao acreditar que não tem controle, a pessoa age como se não tivesse controle.

Psicóloga e ativista Maria Aparecida da Cida Bento, uma das principais proponentes do racismo antibrancos no Brasil.
Psicóloga e ativista Maria Aparecida da Cida Bento, uma das principais proponentes do racismo antibrancos no Brasil.

E como muitos membros de minorias escapam desta armadilha, é inevitável que se encontrem exemplos de pessoas bem-sucedidas de todas as raças e etnias. Para cada indivíduo desafortunado que culpa o racismo estrutural por sua situação, há outro da mesma raça ou etnia que fez sua própria sorte sem qualquer impedimento racial.

Culpar fatores externos, portanto, parece ser um mecanismo de enfrentamento emocional (em psicologia, coping) para lidar com falhas pessoais, fracassos ou baixa autoestima. Culpar o "sistema", a "estrutura", a "sociedade", é mais fácil e emocionalmente confortável do que responsabilizar a si mesmo. Esta atitude não produz nenhum resultado positivo: ao responsabilizar fatores externos, a pessoa perde o poder de decidir sobre seu próprio destino, ficando à mercê da pena alheia. E mesmo que este indivíduo obtenha ajuda externa, por meio de protesto ou ativismo, seus ganhos terão sido obtidos por meio do status de vítima em que ele se colocou — e quem quer se sentir uma vítima? Nestes casos, mesmo a vitória pode perpetuar neuroses e baixa autoestima, pois as conquistas foram obtidas via vitimização, criando um conflito interno (sou empoderado ou sou vítima?).

Maria Silva, na Marcha da Consciência Negra em São Paulo, culpabilizando todos os indivíduos de todas as etnias brancas por seus problemas.
Maria Silva, na Marcha da Consciência Negra em São Paulo, culpabilizando todos os indivíduos de todas as etnias brancas por seus problemas.

E ainda mais perturbador é o ciclo de fracasso e ressentimento endossado pelos teóricos críticos de raça. Segundo suas narrativas, o próprio sistema político-econômico de nossas sociedades é um reprodutor da supremacia branca. Assim, qualquer membro de uma minoria que seja bem-sucedido e feliz no Ocidente pode ser visto como um "traidor da raça", que "adotou a branquitude". Ao negro diz-se que "embranqueceu", que "tem alma branca", ou que "se tornou lacaio da casa-grande".

Todos os mecanismos pelos quais se pode alcançar sucesso, felicidade, estabilidade financeira (e até mesmo justiça) têm sido associados à supremacia branca (por exemplo: uso da lógica, dedicação ao trabalho, ciência e método científico, princípios éticos, igualdade no tratamento entre as raças). O raciocínio, o mérito, a moral são, de acordo com os teóricos críticos de raça, ferramentas da branquitude para perpetuar a dominação dos brancos. Mas com que outros métodos pode um membro de minoria alcançar seus objetivos de vida? Para os ativistas, a única opção é a revolução violenta, a revanche de raça ("justiça racial") e o subsequente autoritarismo.

São formas manipuladoras de sabotar o sucesso de membros de minorias, e escravizá-los à ideologia, ao ativismo, alimentando divisão racial e instabilidade social. As narrativas de opressão fragilizam estas pessoas para, em seguida, oferecer-lhes a falsa solução: a perpétua militância.

Os maiores inimigos das minorias, portanto, têm sido outros membros destes mesmos grupos. O ativismo de raça parasita as minorias raciais, alimentando-se de suas inseguranças e das mazelas sociais, sem oferecer nenhuma solução viável — agravando cada vez as tensões raciais por todo o Ocidente.

foto do autor

Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador




SÉRIE NUM FUTURO PRÓXIMO

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR

NUNCA PERCA UM POST







Merlin Capista de Livros Sobre Merlin - Capista de Livros Como Publicar seu Livro ou E-Book - Merlin Capista Criação de Capas de Livro - Merlin Capista Diagramação de Livro - Merlin Capista Portfólio de Capas de Livro - Merlin Capista Portfólio de Ilustrações e Design - Merlin Capista Orçamento - Merlin Capista de Livros Contato - Merlin capista de Livros