O Holofote - Conto de Virginia Woolf | Fantástica Cultural

Artigo O Holofote - Conto de Virginia Woolf
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O Holofote - Conto de Virginia Woolf

Autores Selecionados ⋅ 13 maio 2024
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Um homem... Um homem! Que veio vindo do canto. Que a pegou em seus braços! E eles se beijaram... se beijaram!

o holofote virginia woolf 2

A mansão do conde do século XVIII foi transformada no século XX num clube. Era agradável, depois de jantar no salão com pilares e candelabros sob uma luz ofuscante, sair para a sacada que dava para o parque. As árvores estavam cobertas de folhas e, se houvesse lua, poder-se-ia enxergar os cocares das castanheiras, tingidos de creme e cor-de-rosa. Contudo era uma noite sem lua; muito quente, depois de um belo dia de verão.

Os convidados de Mr. e Mrs. Ivimey tinham ido fumar e tomar café na sacada. Como que para poupá-los à obrigação de conversar, para distraí-los sem nenhum esforço da parte deles, feixes de luz giravam pelo céu. Era tempo de paz; mas a força aérea fazia seus exercícios; procurando no céu um avião inimigo. Depois de se deter num ponto suspeito para esquadrinhá-lo, a luz voltava a rodar, como as pás de um moinho, ou então como as antenas de algum prodigioso inseto, e revelava aqui uma cadavérica fachada de pedra; acolá uma castanheira coroada de flores; de repente a luz bateu na sacada e, por um segundo, um disco brilhou intensamente — talvez um pequeno espelho na bolsinha de mão de uma senhora.

"Olhem", exclamou Mrs. Ivimey.

A luz passou. Eles ficaram novamente no escuro.

"Ninguém adivinha o que isso me fez ver!" Naturalmente, eles adivinharam.

"Não, não, não", protestou ela. Ninguém podia adivinhar; só ela sabia; só ela era capaz de saber, porque ela era a bisneta do próprio homem. Foi ele quem lhe contou a história. Que história? Bem, se eles quisessem, ela tentaria contá-la. Ainda havia tempo antes da peça.

"Mas por onde eu começo?", ponderou. "Pelo ano de 1820?... Deve ter sido por aí a época da infância do meu bisavô. Eu mesma já não sou mais tão jovem", não, mas mantinha-se bonita e bem conservada, "e ele já era muito idoso em meus tempos de menina — quando me contou a história. Um velho, sim, e muito bonito", explicou ela, "de basta cabeleira branca e olhos azuis. Deve ter sido um garoto lindo. Mas estranho... O que era apenas natural — vendo-se como eles viviam. O nome era Comber. Tinham decaído de nível. Depois de serem fazendeiros; de terem tido terras no Yorkshire. Mas, quando ele era garoto, só restava a torre. A casa era o mesmo que nada, uma simples casinhola de fazenda no meio dos campos. Demos uma passada por lá há uns dez anos. Tivemos de deixar o carro e atravessar os campos a pé. Não há estrada até a casa, que fica isolada, com capim crescendo pelo portão acima... havia umas galinhas ciscando, que entravam e saíam dos cômodos. Tudo na mais completa ruína. Lembro que da torre caiu subitamente uma pedra". E ela fez uma pausa. "Era lá que eles viviam", prosseguiu, "o velho, a mulher e o menino. Ela não era mulher dele, nem a mãe do menino. Era uma simples ajudante da fazenda, uma garota que o velho levou para viver com ele quando sua esposa morreu. Outra razão talvez por que ninguém os visitava — por que a casa toda estava que era pura ruína. Lembro porém de um brasão por cima da porta; e de livros, livros velhos, mofados. Foi nos livros, sozinho, que ele aprendeu tudo que sabia. Lia muito, lia sem parar, ele me disse, livros antigos, livros de cujas páginas se desdobravam mapas. Arrastou-os para o alto da torre — a corda ainda está por lá, como os degraus quebrados. Ainda há uma cadeira à janela, sem fundo; a janela aberta despencando, as vidraças quebradas e uma vista quilométrica pelos matagais afora".

Ela se interrompeu, como se estivesse na torre olhando pela janela que despencava aberta.

"Mas não conseguimos", disse, "encontrar o telescópio". Na sala de jantar por trás deles o barulho de pratos se tornou mais forte. Mas Mrs. Ivimey na sacada parecia intrigada, porque não conseguia achar o telescópio.

"Por que um telescópio?", perguntou-lhe alguém.

"Por quê? Porque, se não tivesse havido um telescópio", ela riu, "eu não estaria sentada aqui agora!"

E certamente ela estava sentada ali agora, uma bem conservada mulher de meia-idade com alguma coisa azul nos ombros.

"Deve ter sido lá", retomou, "porque ele me disse que todas as noites, quando os mais velhos iam para a cama, ele se sentava à janela, olhando pelo telescópio as estrelas. Júpiter, Aldebarã, Cassiopeia". E ela estendeu a mão para as estrelas que estavam começando a despontar sobre as árvores. Ficava escuro. E o holofote parecia mais brilhante ao varrer o céu, parando aqui e ali para também se fixar nas estrelas.

"Lá estavam elas", prosseguiu, "as estrelas. E ele, o meu bisavô, o garoto — se perguntou: 'O que elas são? E por que são? E quem sou eu?' como nos perguntamos, estando a sós, sem ninguém com quem conversar, quando olhamos para as estrelas".

Ela se calou. E todos olharam para as estrelas que surgiam na escuridão por cima das árvores. Estrelas que pareciam bem permanentes, bem imutáveis. Os barulhos de Londres abafaram-se ao longe. Cem anos não pareciam ser nada. Eles sentiram a presença do garoto olhando para as estrelas com eles. Sentiram-se na torre a seu lado, à procura de estrelas por sobre os matagais.

Uma voz então disse por trás deles: "Certo, sim. Sexta-feira".

Todos se viraram, se mexeram, sentindo-se cair de regresso na sacada. "'Certo, sim — sexta-feira...' Ah, mas não havia ninguém para dizer isso a ele", murmurou ela. O casal se levantou para andar.

"Ele estava sozinho", retomou ela. "Era um belo dia de verão. Um dia de junho. Um desses dias perfeitos de verão, quando tudo parece manter-se imóvel no calor. Mas havia galinhas ciscando pelo terreiro; o velho cavalo esperneando no estábulo; o homem velho cochilando sobre seus óculos. A mulher areando baldes no tanque. Talvez tenha caído uma pedra da torre. Parecia que o dia não acabaria nunca. E ele não tinha com quem conversar — nada em absoluto para fazer. Subiu pois para sua Torre. O mundo todo estendeu-se à sua frente. Os matagais subindo e baixando; o céu se encontrando com os matagais; verde e azul, verde e azul, para sempre e sempre."

À meia-luz, podiam ver que Mrs. Ivimey já se debruçava à sacada, com o queixo apoiado em suas mãos, como se do topo de uma torre ela olhasse os matagais por cima.

"Nada, só mato e céu, mato e céu para sempre e sempre", murmurou ela. Depois fez um movimento, como se endireitasse um objeto no lugar.

"E com o que é que a terra parecia através do telescópio?", perguntou.

Fez outro movimento bem rápido, como se estivesse rodando alguma coisa nos dedos.

"Focalizou-o", disse ela. "Focalizou-o na terra. Na massa escura de um arvoredo no horizonte. Focalizou-o de modo a poder ver... cada árvore... cada árvore em separado... e os pássaros... subindo e baixando... e um fiapo de fumaça... lá... no meio das árvores... E depois... mais baixo... mais baixo... (ela abaixou os olhos)... havia uma casa... uma casa no meio das árvores... uma casa de fazenda... toda de tijolos à mostra... e as tinas de ambos os lados da porta... com flores cor-de-rosa e azuis, talvez hortênsias..." Ela fez uma pausa... "E então saiu da casa uma garota... usando uma coisa azul na cabeça... e lá ficou... alimentando aves... pombos... que esvoaçavam ao seu redor... E aí... vejam... Um homem... Um homem! Que veio vindo do canto. Que a pegou em seus braços! E eles se beijaram... eles se beijaram!"

Mrs. Ivimey abriu e fechou seus próprios braços como se estivesse ela mesma beijando alguém.

"Era a primeira vez que ele via um homem beijar uma mulher — no seu telescópio — a quilômetros dali pelos matagais afora!"

Ela empurrou de si alguma coisa — presumivelmente o telescópio. E sentou-se reta.

"Assim correu escada abaixo. Correu pelos campos. Correu por trilhas, pela estrada principal, em arvoredos. Correu quilômetros e mais quilômetros e, justo quando as estrelas surgiam sobre as árvores, alcançou a casa... coberto de poeira... banhado em suor..."

Ela parou, como se o visse.

"E aí, e aí... o que foi que ele fez? O que foi que ele disse? E a garota...", insistiram com ela.

Um raio de luz caiu sobre Mrs. Ivimey, como se alguém tivesse focalizado nela as lentes de um telescópio. (Era a força aérea, caçando aviação inimiga.) Ela tinha se levantado. Tinha uma coisa azul na cabeça. Tinha erguido sua mão, como se à porta de uma casa, em pé, perplexa.

"Oh, a garota... Ela era mi...", hesitou, como se estivesse a ponto de dizer "eu mesma". Mas se lembrou; e corrigiu-se. "A garota era minha bisavó", disse.

Virou-se então para procurar seu casaco, que estava numa cadeira por trás. "Mas diga-nos — o que aconteceu com o outro homem, o que veio vindo do canto?", perguntaram.

"Aquele homem? Aquele homem", murmurou Mrs. Ivimey, dobrando-se ao se atrapalhar com o casaco (o holofote tinha saído da sacada), "ele, creio eu, sumiu".

"A luz", acrescentou, juntando suas coisas em volta, "cai somente aqui e ali".

O holofote tinha passado adiante. Estava focalizado agora na área ampla e evidente do palácio de Buckingham. E era hora de eles irem ao teatro.

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