Cartas a Hermengardo - Clarice Lispector | Conto Completo | Fantástica Cultural

Artigo Cartas a Hermengardo - Clarice Lispector | Conto Completo
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Cartas a Hermengardo - Clarice Lispector | Conto Completo

Autores Selecionados ⋅ 25 nov. 2023
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Chego a me perguntar: Para que o trabalho? Para que tomar café na cama? Para que sentir algum prazer?

Este conto é parte do livro Primeiras Histórias.


PRIMEIRA CARTA

Querido:

Imagina só que eu hoje me senti tão feliz que me pus a andar pelo quarto até sentir as pernas cansadas e a cabeça tonta. Imagina só que estava chovendo e eu me lembrei de ti. Não, não é assim que eu devo contar.

Começarei de outra forma. Como sabes, eu não posso me queixar de infelicidade, porque, graças ao bom Deus, não me falta o pão nas horas certas e afinal tenho uma cama onde me estirar depois de um dia em que cumpro meu dever. Pois bem, querido, Você também pode gostar: Leia na Fantástica os Melhores Contos de Clarice Lispector amado, eu sou tão mal-agradecida que às vezes me parece pouco ter o pão e a cama. Às vezes me parece pouco até o fato de eu ter uma saúde regular e as duas pernas que a providência não me quis tirar. Bem sei que é uma vergonha e é como tal que eu o confesso.

Como eu ia lhe dizendo, às vezes tudo fica com um gosto de borracha e nesse momento nem mesmo tomar café na cama me distrai. Tudo fica velho de repente e eu peço a cada instante. Imagina, queridíssimo, que eu chego a me perguntar: para que o trabalho? para que tomar café na cama? para que sentir algum prazer?

Imagina, meu bem, eu, que deveria agradecer continuamente por ter nascido com os dois olhos sãos, ou mesmo, por ter nascido, imagina que essa miserável criatura que eu sou se revolta contra a Criação! Tu bem podes crer quanto eu me maldigo depois desses momentos. O pior é quando eles se instalam podem durar pouco mas podem durar muito também. E, às vezes, depois de vários dias de pecado, eu me acordo como se tivesse perdido a memória. Ora é o sol que eu enxergo pela primeira vez, ora é o ar que eu descubro como é bom respirar. Naturalmente eu não conto isso a ninguém porque as outras criaturas são melhores que eu e não duvidam da alegria de Deus.

Vês, queridíssimo, eu tenho até medo de mim, em alguns momentos. Que ousadia a minha de escrever essa frase: duvidar da alegria de Deus. Até onde vou chegar, é isso que me pergunto. Até onde?

Pois bem, quando estava chovendo, hoje mesmo, eu profanei a Criação com um coração tão torturado e uma alma onde havia tanta raiva que a bondade das criaturas não podia entrar. Levei minha cara para a rua, sobre uma maca, mostrando-a a todos: chorem por mim, chorem por mim. E toda vez que alguém sorria, eu gritava: mor-te-mor-te-mor-te. Confesso, contrita e arrependida, que eu me alegrava quando a coisa saía bem-feita.

Mas hoje voltei cedo para casa e no meu quarto não tinha, como sempre, ninguém, e eu fiquei sozinha com meus trinta e dois anos incompletos e me pus a chorar, com pena de mim. Tentei tudo, afianço-lhe, para melhorar. Repeti, repeti: que a maldição caia sobre mim, se eu não ficar alegre! Nenhum resultado. Tentei com melhores modos: você nada é, que direito tem de ficar triste? Zero. Então eu vi que era sincera, embora não compreendesse por que, numa terra tão feliz, eu chorava.

E o pior é que comecei a ficar orgulhosa: será que outras pessoas sentem o que eu sinto? aposto que não.

Estás vendo, amor, como se pode chegar a um grau de desgraça tal em que se ama a própria ferida. Olha, quando eu ouço música me alegro, mesmo sem saber por quê. Pois bem, eu estava sofrendo mesmo sem saber por quê... (Vergonha, vergonha! Falar em "sofrer", quando há gente a quem Deus castiga com sua cólera, tirando-lhe o pão!)

Querido, meu gatinho branco, foi então que me salvaste. Foi por isso que andei pelo quarto louca de alegria, até me cansar. De minha janela enxerguei-te debruçado à tua. Não me olhaste e parece mesmo que não me conheces ainda. Levaste à boca o finzinho do cigarro, depois amassaste-o com cuidado, jogaste-o fora... e pronto. Só isso. Mas eu compreendi a mensagem.

Perdoa meu egoísmo, usei teu nome para não enveredar pelo caminho do pecado. Repeti, como numa oração, ajoelhada perto da cama: José. José. José. José. José. Disse tantas vezes o mesmo que no fim já tinha mudado o teu nome por um outro, de que gosto mais: Hermengardo. Hermengardo. Hermengardo.

Hermengardo. Hermengardo... E depois eu disse: eu te amo, eu te amo, eu te amo... E o meu amor pelos homens reconciliou-me com o mundo e com Deus.

Não posso ser tão orgulhosa que pense ter a chuva parado porque Deus quis abençoar minha redenção.

Mas eu sinto que esta é a verdade, aí está.

E é por isso, meu rei, que eu beijo teus cabelos e tuas mãos. E sinto-me tão agradecida e feliz que é mesmo possível que eu te mande um dia todas as cartas que te escrevi.

A sempre grata e humilde, Idalina



SEGUNDA CARTA

Hermengardo, querido:

Hoje li numa revista um artigo sobre o spleen. Lá diziam o seguinte: que havia uma mulher que se aborrecia durante o dia inteiro, que às vezes tinha vontade de largar tudo e ir embora, que às vezes ia fazer compras somente para "fazer alguma coisa" apesar de ter mil outras importantes em que se ocupar. Mas José, é mais ou menos isso que eu tenho! Quer dizer, mesmo no meio das coisas de que mais gosto, eu tenho vontade de largar tudo e ir embora! Só não vejo que spleen, isto é, essa palavra, pareça com o que eu sinto. O que eu sinto é o que eu sinto, e acabou-se: está misturado comigo. E como é que eu posso fazer de mim uma palavra?

É como a música. Às vezes estou na igreja distraída, rezando. E de repente os sinos começam a dançar como se cantassem um casamento e minha reza fica forte, os santos brilham, minha alma rejuvenesce e eu fico tão feliz que nem entendo o que eu estou rezando. Pois bem, quis explicar a padre Bernardo tudo isso e pareceu-me que eu estava lendo o rol da roupa. É por isso que digo: que relação há entre spleen e o que eu sinto?

Ah, Hermengardo, meu bem amado, eu hoje estou como Deus me quer. Perfeitamente lembrada de que tenho as duas pernas sadias e dois olhos para ver o Sol que Ele, o Grande, criou. Tudo, o resto, não tem importância, não é, querido? uma vez que todo o resto parece com rol de roupa, exatamente no momento em que a gente fala. As coisas foram feitas para serem ditas à luz do dia e se não se pode dizê-las é porque são de má qualidade.

Portanto, eu fico com a minha alegria de ter pão e ter saúde e com a minha tristeza de sentir dor de cabeça. O resto, quando vem, eu oro. E Ele, através de teu doce nome, Hermengardo, me salva e me mostra o caminho por onde uma mulher pode andar.

Assim recebe de novo um beijo irmão, na face esquerda, lá onde tens o sinalzinho negro. Agradecida por existires, humildemente,

Idalina



TERCEIRA CARTA

José:

Ontem tu me faltaste. Eu tinha voltado da repartição e precisava orar. Porque, mea culpa, persisto em querer a névoa, quando ao lado dela se estende gloriosamente o ar límpido. Porque, mea culpa, continuo cheia das coisas que não foram feitas para serem ditas à luz do dia.

Então ajoelhei-me e rezei teu nome.

A princípio tudo corria bem. Mas de repente o rádio do vizinho anunciou Os pinheiros de Roma, de Respighi. Escutei, atenta. A música era como os pinheiros, apontando para o céu, finos e solitários e belos, ah, tão belos... Mas, Hermengardo, os pinheiros sofriam... Por quê, Hermengardo? Por quê? Não estavam eles apontando para o céu? Não eram eles como a vida pura? Por que então cantavam numa queixa e por que me feriam o coração? E era tão grandioso tão terrível...

Tudo se turvou, toda a oração se quebrou em pedaços. Eu queria dizer Hermengardo e só conseguia dizer José... Eu queria me lembrar de minhas pernas, mas me lembrava dos pinheiros tão perfeitos e tão dolorosos...

Rezei, alto, gritei quase. Mas só conseguia dizer: José, José, como se fosse o rol de roupa...

Quer dizer que o mal me invadiu e alagou todos os meus caminhos claros. Nem tu, teu nome me salvarão agora. Mas eu tenho confiança Nele e na sua compreensão absoluta. No dia do Juízo Final eu cantarei a canção dos pinheiros de Roma diante de Deus. Sem palavras, e assim eu Lhe levarei o segredo inteiro e puro para receber uma explicação. E Ele me entenderá tanto, que não usará de palavras: cantará outra canção.

Cada vez mais pobre diante d'Ele. Idalina



QUARTA CARTA

Meu querido Hermengardo:

Hoje é domingo e a cidade está bonita. Não há ninguém nas ruas e todas as árvores existem sozinhas e soberanas. As inquietações e os desejos e os ódios se abaixaram, se estiraram sobre a terra, cansados de existir. E à altura da boca só encontro o ar suave e puro da renúncia serena.

Minha alma, durante toda a semana encolhida, tem desejos súbitos de se espreguiçar, de se sentir elástica por uns momentos, para tingir-se depois de uma lassidão tão feliz quanto a que hoje amolece a natureza.

Preciso pensar uns minutos para depois possuir o doce descanso.

Por isso falarei das paixões. E sei que me escutarás porque eu já te transmiti a impressão e o desejo do domingo. E porque eu te digo que falarei com as roupas humildes de um pastor. E isso me torna pequena e isso me concilia contigo.

Eu queria te dizer que ter paixões não é viver belamente, mas sofrer inutilmente. Que a alma foi feita para ser guiada pela razão e que ninguém poderá ser feliz se estiver à mercê dos instintos. Porque nós somos animais porém somos animais perturbados pelo homem. E se aqueles perdoam a este, este é orgulhoso e exigente e nunca perdoa os excessos daqueles.

Eu te falo das paixões pela sua qualidade e pelos seus efeitos.

Pela sua qualidade porque enquanto o corpo é ativo, a alma é de natureza contemplativa e, nada sabendo, medita para concluir. É esta a sua função. E pelos seus efeitos, porque o arco se sente vazio depois de ter despedido a flecha.

Eu te digo que há uma alegria em renunciar à dor das paixões. Porque desejá-las é desejar a dor e não o contentamento e os nobres sentem em si a necessidade de auscultar sua capacidade de arder. E eu te digo que não vale arder, vale repousar. Vale encontrar a compreensão de si e da vida por intermédio da razão, que nos distingue dos animais.

E se um dia eu te falei em "paixões nobres", não as chamei de nobres pela sua natureza nem pelas suas consequências, senão por piedade de sua fonte, o eterno vazio do homem. Porque o homem perturbado pelo orgulho procura a paixão como uma forma de achar a humildade. Ele pressente (e ai dos cegos) que depois virá a humildade e na humildade há a serenidade da flor que se permite balançar ao sopro da vida.

Há esse herói, um homem sem conteúdo que deseja, pela febre, encontrar a calma. Este não deve ser aplaudido, mas lamentado. Há o outro herói, o que deseja apenas o alvoroço. E este é um homem que não pôde se impedir de voltar. É um fraco. Mas se tu quiseres chamá-lo de nobre chama-o. Porque também há uma grande beleza nos animais. E de qualquer modo, tudo quanto existe é lindo, tanto o erro quanto a verdade.

Apenas acontece que essa atitude de achar a beleza é uma atitude de quem olha do céu para a terra e se emociona com as fraquezas de seus filhos. Os homens, porém, lutam muito e desejam muito. Não têm tempo de procurar o conjunto. Eles querem a felicidade individual.

E é por isso que eu te digo: a paixão não é o caminho. Existe um outro, o único.

Nós chegamos a um certo grau de consciência de nossa inteligência e, sabendo que é esta a nossa marca de homem, descobrimos que a ele devendo (sic) dar a nossa força para atingirmos a perfeição humana. E nem com isso quero dizer que deixemos de ser animais. Nunca renunciaremos a essa felicidade. O que devemos procurar é que este estado primitivo suba um pouco e que nosso orgulho de raciocinante desça um pouco até que os dois seres que existem em nós se encontrem, se absorvam e formem uma nova espécie na natureza.

E é por isso que eu te digo: abandona o que destrói. A paixão destrói porque desassocia. A paixão nasce no corpo e não o compreendendo, nós a situamos na alma e nos perturbamos.

Eu te explico tudo isto para que nunca enalteças o que vai para a guerra com o espírito contente e o que se mata por amor. Perdoa-os apenas. Eles ainda não compreenderam que na vida existe o sorriso e que a paixão o destrói e o transforma num ríctus tremendo, que já não é humano.

Se tu não puderes te libertar de desejar paixões, lê romances e aventuras, que para isso também existem os escritores.

E outra coisa: conta o que eu te disse a algum jovem que não dorme de noite, imaginando novas aventuras de Dom Quixote. Explica-lhe que o "depois" da paixão tem gosto de cigarro apagado. Pede-lhe, por mim, que seja homem e não herói, porque a natureza não exige dele senão que seja feliz e ache a paz da clareira por atalhos menos dolorosos.

Explica-lhe isto e eu poderei gozar este domingo com a humildade necessária.

Agora se me perguntares: "Como sabes dessas coisas?" eu te responderei com as palavras de Kipling, tão citadas pelo meu professor de Direito Público: "Isso é uma outra história..."

Agradecida por me escutares, Idalina



QUINTA CARTA

Meu querido Hermengardo,

Em verdade eu te digo: felizmente tu existes. A mim me bastaria apenas a existência de uma criatura sobre a terra para satisfazer o meu desejo de glória, que não é senão um profundo desejo de vizinhança. Porque eu me enganei quando há tempos imaginei como real minha antiga vontade de "salvar a humanidade", malgré, ela.

Agora só desejo mais alguém, além de mim mesma, para que eu possa me provar... E nessa volta para Idalina compreendi também que tão belo e tão impossível como aquele outro sonho é o de tentar salvar-se a si mesmo. E se é tão impossível, por que então me encaminhar para esta nova cidadela que seria agora uma pobre mulher perturbada? Não sei. Talvez porque é necessário salvar alguma coisa. Talvez pela consciência tardia de que nós somos a única presença que não nos deixará até a morte. E é por isso que nós amamos e nos buscamos a nós mesmos. E porque, enquanto existirmos, existirá o mundo e existirá a humanidade. Eis como, afinal, nós nos ligamos a eles.

E tudo isso que eu estou dizendo é apenas um preâmbulo qualquer que justifique meu gosto de te dar tantos conselhos. Porque dar conselhos é de novo falar de si. E cá estou eu... Mas, afinal, eu posso falar com a consciência em paz. Nada conheço que dê tanto direito a um homem como o fato dele estar vivendo.

Este preâmbulo também serve por uma desculpa. É que percebo, mesmo através das palavras mais doces que o milagre de respirares me inspira, o meu destino de jogar pedras. Nunca te zangues comigo por isso. Uns nasceram para lançar pedras. E afinal (começa aqui minha função), por que será mau lançar pedras, senão porque elas atingirão coisas tuas ou dos que sabem rir e adorar e comer?

Uma vez esclarecido este ponto e uma vez que me permite jogar pedras, eu te falarei da Quinta Sinfonia de Beethoven.

Senta-te. Estende tuas pernas. Fecha os olhos e os ouvidos. Eu nada te direi durante cinco minutos para que possas pensar na Quinta Sinfonia de Beethoven. Vê, e isto será mais perfeito ainda, se consegues não pensar por palavras, mas criar um estado de sentimento. Vê se podes parar todo o turbilhão e deixar uma clareira para a Quinta Sinfonia. É tão bela.

Só assim a terás, por meio do silêncio. Compreendes! Se eu a executar para ti, ela se desvanecerá, nota após nota. Mal dada a primeira, ela não mais existirá. E depois da segunda, o segundo não mais ecoará. E o começo será o prelúdio do fim, como em todas as coisas. Se eu a executar ouvirás música e apenas isto. Enquanto que há um meio de detê-la parada e eterna, cada nota como uma estátua dentro de ti mesmo.

Não a executes, é o que deves fazer. Não a escutes e a possuirás. Não ames e terás dentro de ti o amor. Não fumes o teu cigarro e terás um cigarro aceso dentro de ti. Não ouças a Quinta Sinfonia de Beethoven e ela nunca terminará para ti.

Eis como eu me redimo de lançar pedras, tão sempre... Eis que eu te ensinei a não matar. Erige dentro de ti o monumento do Desejo Insatisfeito. E assim as coisas nunca morrerão, antes que tu mesmo morras. Porque eu te digo, ainda mais triste que lançar pedras é arrastar cadáveres.

E se não puderes seguir meu conselho, porque mais ávida que tudo é sempre a vida, se não puderes seguir meus conselhos e todos os programas que inventamos para nos melhorar, chupa umas pastilhas de hortelã. São tão frescas.

Tua Idalina

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