Obsessão - Clarice Lispector | Conto Completo | Fantástica Cultural

Artigo Obsessão - Clarice Lispector | Conto Completo
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Obsessão - Clarice Lispector | Conto Completo

Autores Selecionados ⋅ 25 nov. 2023
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Não tentarei fazer-me perdoar. Tentarei não acusar. Aconteceu simplesmente.

Este conto é parte do livro Primeiras Histórias.


Agora que já vivi o meu caso, posso rememorá-lo com mais serenidade. Não tentarei fazer-me perdoar. Tentarei não acusar. Aconteceu simplesmente.

Não me recordo com nitidez de seu início. Transformei-me independente de minha consciência e quando abri os olhos o veneno circulava irremediavelmente no meu sangue, já antigo no seu poder.

É necessário contar um pouco sobre mim, antes do meu contato com Daniel. Apenas assim conhecer-se-á o terreno em que suas sementes foram jogadas. Você também pode gostar: Leia na Fantástica os Melhores Contos de Clarice Lispector Embora não acreditasse que se pudesse compreender inteiramente por que as sementes resultaram em tão tristes frutos.

Sempre fui sossegada e nunca dei provas de possuir os elementos que Daniel desenvolveu em mim. Nasci de criaturas simples, instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência e se adivinha pelo senso comum. Vivemos, de minha infância até meus catorze anos, numa boa casa de arrabalde, onde eu estudava, brincava e movia-me despreocupadamente sob os olhares benevolentes de meus pais.

Até que um dia em mim descobriram uma mocinha, abaixaram meu vestido, fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta. Aceitei a descoberta e suas consequências sem grande alvoroço, do mesmo modo distraído como estudava, passeava, lia e vivia.

Mudamo-nos para uma casa mais próxima da cidade, num bairro cujo nome, juntamente com outros detalhes posteriores, silenciarei. Lá eu teria oportunidade de conhecer rapazes e moças, dizia mamãe.

Realmente fiz depressa algumas amizades, com minha alegria amena e fácil. Consideravam-me bonitinha, e meu corpo forte, minha pele clara causavam simpatia.

Quanto aos meus sonhos, nessa idade tão cheia deles — os de uma jovem qualquer: casar, ter filhos e, finalmente, ser feliz, desejo que eu não precisava bem e confusamente enquadrava nos fins dos mil romances que lera, sem me contagiar com seu romanticismo. Eu apenas esperava que tudo corresse bem, embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia.

Aos dezenove anos encontrei Jaime. Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito, bem mobiliado.

Vivemos seis anos juntos, sem filhos. E eu era feliz. Se alguém me perguntava, eu afirmava, acrescentando não sem um pouco de perplexidade: "E por que não?"

Jaime foi sempre bom para mim. E, seu temperamento pouco ardente, eu o considerava de certo modo um prolongamento de meus pais, de minha casa anterior, onde habituara-me aos privilégios de filha única.

Vivia facilmente. Nunca dedicava um pensamento mais forte a qualquer assunto. E, como a poupar-me ainda mais, não acreditava inteiramente nos livros que lia. Eram feitos apenas para distrair, pensava eu. Às vezes, melancolia sem causa escurecia-me o rosto, uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava. Nada romântica, afastava-as logo como a um sentimento inútil que não se liga às coisas realmente importantes. Quais? Não as definia bem e englobava-as na expressão ambígua — "coisas da vida". Jaime. Eu. Casa. Mamãe.

Por outro lado, as pessoas que me cercavam moviam-se tranquilas, a testa lisa sem preocupações, num círculo onde o hábito há muito alargara caminhos certos, onde os fatos explicavam-se razoavelmente por causas visíveis e os mais extraordinários se ligavam, não por misticismo mas por comodismo, a Deus. Os únicos acontecimentos capazes de perturbar suas almas eram o nascimento, o casamento, a morte e os estados a eles contínuos.

Ou engano-me e, na minha feliz cegueira, não sabia enxergar mais profundamente? Não sei, mas agora parece-me impossível que na zona escura de cada homem, mesmo dos pacíficos, não se aninhe a ameaça de outros homens, mais terríveis e dolorosos.

Se aquela vaga insatisfação vinha me inquietar, eu, sem saber explicá-la e habituada a conferir um nome claro a todas as coisas, não a admitia ou atribuía-a a indisposições físicas. Além disso, a reunião de domingo em casa de meus pais, junto às primas e vizinhos, qualquer bom e animado jogo reconquistavam-me rapidamente e repunham-me na estrada larga, de novo a caminhar entre a multidão dos de olhos fechados.

Noto agora que certa apatia, mais do que paz, acinzentava meus atos e meus desejos. Lembro-me que Jaime dissera uma vez, um pouco emocionado:

— Se nós tivéssemos um filho... Respondi, desatenta:

— Pra quê?

Denso véu isolava-me do mundo e, sem o saber, um abismo distanciava-me de mim mesma.

E assim continuei até que contraí febre tifoide e quase morri. Minhas duas casas se mobilizaram e num trabalho de noites e dias salvaram-me.

A convalescença veio me encontrar magra e pálida, sem gosto para nada do mundo. Mal me alimentava, irritava-me com simples palavras. Passava o dia recostada sobre o travesseiro, sem pensar, sem me mover, presa por anormal e doce languidez. Não afirmo com segurança que esse estado tenha favorecido uma influência mais fácil de Daniel. Imagino antes que forçava minha fraqueza para conservar as pessoas ao redor de mim, como na fase da doença. Quando Jaime chegava do trabalho, meu ar de fragilidade acentuava-se propositalmente.

Não planejara assustá-lo, mas consegui-o. E um dia, em que eu até já esquecera minha atitude de "convalescente", comunicaram-me que eu passaria dois meses em Belo Horizonte, onde o bom clima e o novo ambiente me fortificariam. Não houve apelação. Jaime para lá me conduziu, num trem noturno. Arranjou-me uma boa pensão e partiu, deixando-me sozinha, sem o que fazer, subitamente lançada numa liberdade que eu não pedira e da qual não sabia me utilizar.

Talvez tenha sido o começo. Fora de minha órbita, longe das coisas como que nascidas comigo, senti-me sem apoio porque afinal nem as noções recebidas haviam criado raízes em mim, tão superficialmente eu vivia. O que até então me sustentara não eram convicções, mas as pessoas que as possuíam. Pela primeira vez davam-me uma oportunidade de ver com meus próprios olhos. Pela primeira vez isolavam-me comigo mesma. Pelas cartas que naquela época escrevi e lidas muito depois, observo que um sentimento de mal-estar se apoderara de mim. Em todas elas referia-me à volta, desejando-a com certa ansiedade. Isso, porém, até Daniel.

Não posso, mesmo agora, lembrar-me do rosto de Daniel. Falo daquela sua fisionomia de minhas primeiras impressões, bem diversa do conjunto a que depois me habituei. Só então, infelizmente um pouco tarde, consegui pela convivência compreender e absorver seus traços. Mas eram outros... Do primeiro Daniel nada guardei, senão a marca.

Sei que ele sorria, apenas isso. De quando em quando, surge-me qualquer traço seu, isolado, daqueles anteriores. Seus dedos curvos e compridos, aquelas sobrancelhas afastadas, densas. Mais nada. É que ele me dominava de tal forma que, se assim posso dizer, quase me impedia de vê-lo. Acredito mesmo que minha angústia posterior mais se acentuou com essa impossibilidade de recompor sua imagem. Eu assim apenas possuía suas palavras, a lembrança de sua alma, tudo o que não era humano em Daniel. E nas noites de insônia, sem poder reconstituí-lo mentalmente, já exausta pelas tentativas inúteis, eu o enxergava qual uma sombra, enorme, de contornos móveis, esmagadora e ao mesmo tempo distante como uma ameaça. Como um pintor que para prender a ventania na sua tela inclina a copa das árvores, faz esvoaçar cabeleiras e saias, eu só conseguia relembrá-lo transportando-me a mim mesma, à daquele tempo. Martirizava-me com acusações, desprezava-me e, magoada, partida, fixava-o em mim vivamente.

Mas é necessário começar pelo princípio, pôr um pouco de ordem nesta minha narrativa...

Daniel morava na pensão onde eu me alojara. Nunca se dirigira a mim, nem eu o notara particularmente. Até que um dia ouvi-o falar, caindo subitamente em conversa alheia, embora não abandonando aquele seu ar de distância, como se tivesse emergido de um sono espesso. Sobre o trabalho. Que não deveria constituir senão um meio de matar a fome imediata. E, distraindo-se a escandalizar os circunstantes, acrescentou — a qualquer momento abandonaria o seu, o que já fizera várias vezes, para viver como "um bom vagabundo". Um estudante de óculos, após o primeiro instante de silêncio e de reserva que se formou, retrucou-lhe friamente que antes de tudo trabalhar era um dever. "Um dever para com a sociedade." Daniel teve um gesto qualquer, como se não lhe interessasse convencer, e concedeu-lhe uma frase:

— Já alguém disse que não há fundamento para o dever.

Saiu da sala, deixando o estudante indignado. E a mim, surpresa e divertida: nunca ouvira alguém insurgir-se contra o trabalho, "uma obrigação tão séria". O máximo de revolta de Jaime ou de papai concretizava-se apenas em forma de lamento, sem importância. De um modo geral, eu nunca me lembrara de que se pudesse não aceitar, escolher, revoltar-se... Sobretudo percebera através das palavras de Daniel um descaso pelo estabelecido, pelas "coisas da vida"... E jamais me ocorrera, senão como leve fantasia, desejar que o mundo fosse diferente do que era. Recordei-me de Jaime, sempre elogiado pelo "desempenho de suas funções", como ele contava, e senti-me, sem saber por quê, mais segura.

Depois, quando revi Daniel, formalizei-me numa atitude fria e inútil, uma vez que ele mal me percebia, colocando-me assim ao lado da pensão inteira, a salvo. No entanto, examinando todos por ocasião do jantar, senti vagamente certa vergonha em fazer parte daquele grupo amorfo de homens e mulheres que numa combinação tácita se apoiavam e se esquentavam, unidos contra o que lhes viesse perturbar o conforto.

Compreendi que Daniel os desprezava e irritei-me porque também eu era atingida.

Não estava habituada a me demorar muito tempo sobre qualquer pensamento, e um ligeiro mal-estar, como uma impaciência, apoderou-se de mim. Desde então, sem refletir, evitava Daniel. Vendo-o, imperceptivelmente punha-me em guarda, os olhos abertos, vigilantes. Parece-me que eu temia que ele pronunciasse alguma frase daquelas suas, cortantes, porque receava aceitá-las... Forcei minha antipatia, defendendo-me não sei de quê, defendendo papai, mamãe, Jaime e todos os meus. Mas foi em vão. Daniel era o perigo. E para ele eu caminhava.

De outra vez, vagava eu pela pensão vazia, às duas horas de uma tarde chuvosa, até que, ouvindo vozes na sala de espera, para lá me dirigi. Ele conversava com um homem magro, vestido de preto. Os dois fumavam, falando sem pressa, envoltos nos seus pensamentos a tal ponto que nem me viram entrar. Ia retirar-me, mas uma curiosidade súbita me prendeu e conduziu-me a uma poltrona, afastada das que eles ocupavam. Afinal, refleti desculpando-me, a sala pertencia aos hóspedes. Procurei não fazer qualquer ruído.

Nos primeiros momentos, para meu espanto, nada compreendi do que falavam... Gradualmente distingui algumas palavras conhecidas, entre outras que eu jamais ouvira pronunciadas: termos de livros. "A universalidade de...", "o sentido abstrato que...". É preciso saber que eu nunca assistira a palestras onde o assunto não versasse sobre "coisas" e "histórias". Eu mesma, com pouca imaginação e pouca inteligência, não pensava senão de acordo com minha estreita realidade.

Suas palavras deslizavam sobre mim, sem me penetrar. No entanto, adivinhei, singularmente incomodada, elas escondiam uma harmonia própria que eu não conseguia captar... Tentava não me distrair para não perder da conversa mágica.

— As realizações matam o desejo — disse Daniel.

"As realizações matam o desejo, as realizações matam o desejo", repetia-me eu, um pouco deslumbrada.

Perdia-me deles e quando voltava a prestar atenção já outra frase misteriosa e brilhante nascera, perturbando-me.

Agora Daniel falava de si mesmo.

— O que me interessava sobretudo é sentir, acumular desejos, encher-me de mim mesmo. A realização abre-me, deixa-me vazio e saciado.

— Não há saciedade — disse o outro, entre as baforadas de seu cigarro. — Há de novo a insatisfação, criando outro desejo que um homem normal procuraria realizar. Você justifica sua inutilidade com uma teoria qualquer. "O que importa é sentir e não fazer..." Desculpa. Você fracassou e só consegue se afirmar por meio da imaginação...

Eu os escutava, estarrecida. Surpreendia-me não só a conversa, como o plano em que ela se apoiava, qualquer coisa longe da verdade de todos os dias, mas misteriosamente melódica, tocando, adivinhava, em outras verdades desconhecidas para mim. E surpreendia-me também vê-los se atacarem com palavras pouco amáveis que ofenderiam qualquer outra pessoa mas que eram por eles recebidas sem atenção, como se... como se não soubessem o que significava "honra", por exemplo.

E, sobretudo, pela primeira vez eu, até então profundamente adormecida, vislumbrava as ideias.

A inquietação que as primeiras conversas com Daniel me produziram nascia como de uma certeza de perigo. Um dia cheguei a explicar-lhe que ao pensamento desse perigo se ligavam expressões lidas em livros com a pouca atenção que eu geralmente concedia a tudo e que agora me luziam na memória: "fruto do mal"... Quando Daniel disse-me que eu falava da Bíblia, tomei-me do terror de Deus, mesclado no entanto a uma curiosidade forte e vergonhosa como a de um vício.

Por isso tudo, a minha história é difícil de ser elucidada, separada em seus elementos. Até onde foi o meu sentimento por Daniel (uso esse termo geral por não saber exatamente qual era o seu conteúdo) e onde começava o meu despertar para o mundo? Tudo se entrelaçou, confundiu-se dentro de mim e eu não saberia precisar se meu desassossego era o desejo de Daniel ou a ânsia de procurar o novo mundo descoberto. Porque despertei simultaneamente mulher e humana.

Talvez Daniel tenha agido apenas como instrumento, talvez meu destino fosse mesmo o que segui, o destino dos soltos na terra, dos que não medem suas ações pelo Bem e pelo Mal, talvez eu, mesmo sem ele, me descobrisse um dia, talvez, mesmo sem ele, fugisse de Jaime e de sua terra. Que sei eu?

Escutei-os, cerca de duas horas. Meus olhos fixos doíam e minhas pernas, na imobilidade, ficaram dormentes. Quando Daniel olhou-me. Disse-me mais tarde que a gargalhada que deu e que tanto me feriu, a ponto de me fazer chorar, fora causada pela exaltação em que se achava há dias e sobretudo pelo meu lamentável aspecto. Minha boca estupidamente aberta, "meus olhos tolos, atestando minha ingenuidade de animal"... Era assim que Daniel falava comigo. Arranhando-me com frases que lhe saíam fáceis e incolores mas que em mim se cravavam, rápidas e agudas, para sempre.

E assim conheci Daniel. Não me recordo dos detalhes que nos aproximaram. Sei apenas que fui eu que o procurei. E sei que Daniel se apoderou progressivamente de mim. Ele me considerava com indiferença e, eu o imaginava, jamais teria se inclinado à minha pessoa se não me achasse curiosa e divertida. Minha atitude de humildade diante dele era o meu agradecimento ao seu favor... Como eu o admirava. Quanto mais sofria o seu desprezo, tanto mais eu o considerava superior, tanto mais o separava dos "outros".

Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse.

Conheci mais tarde o verdadeiro Daniel, o doente, o que só existia, embora em perpétuo clarão, dentro de si próprio. Quando se voltava para o mundo, já tateante e apagado, percebia-se sem apoio e, amargo, perplexo, descobria que apenas sabia pensar. Dos que possuem a terra num segundo, os olhos fechados. Aquele seu poder de esgotar as coisas antes de tê-las, aquela sua previsão clara do "depois"... Antes de iniciar o primeiro passo para a ação, já degustava a saturação e a tristeza que seguem as vitórias...

E, como a se compensar dessa impossibilidade de realizar, ele, cuja alma tanto ansiava por se expandir, inventara outro caminho onde sua inatividade coubesse, onde pudesse estender-se e justificar-se. Realizar-se, repetia, eis o mais alto e nobre objetivo humano. Realizar-se seria abandonar a posse e a realização de coisas para possuir-se a si mesmo, desenvolver seus próprios elementos, crescer dentro de seus contornos. Fazer sua música e ele mesmo ouvi-la...

Como se necessitasse de tal programa... Tudo nele atingia naturalmente o máximo, não na objetivação, mas num estado de capacidade, de exaltação de forças, de que ninguém se beneficiava e que era por todos, além dele, ignorado. E esse estado era o seu auge. Assemelhava-se ao que precederia uma realização e ele ardia por alcançá-lo, sentindo-se, quanto mais sofria, mais vivo, mais castigado, quase satisfeito. Era a dor da criação, sem a criação embora.

Porque quando tudo se diluía, apenas na sua memória restava algum vestígio.

Nunca se concedia longo repouso, apesar da esterilidade dessa luta e por mais extenuante que fosse. Em breve de novo girava em torno de si mesmo, farejando seus desejos nascentes, adensando-os até elevá-los a um ponto de crise. Quando o conseguia, vibrava no ódio, na beleza ou no amor, e sentia-se quase pago.

Tudo servia-lhe de partida. Um pássaro que voava, lhe lembrava terras desconhecidas, fazia respirar seu velho sonho de fuga. De pensamento a pensamento, inconscientemente dirigido para o mesmo fim, chegava à noção de sua covardia, revelada não só nesse constante desejo de fugir, de não se unir às coisas para não lutar por elas, como na incapacidade de realizá-lo, já que o concebia, espedaçando sem piedade o humilhante bom senso que lhe prendia o voo. Esse dueto consigo mesmo era o reflexo de sua essência, descobria, e por isso continuaria por toda a sua vida... Daí fácil tornava-se esboçar o futuro, longo, arquejante, trôpego, até o fim implacável — a morte. Só isso e atingira aquilo a que sua tendência o guiava: o sofrimento.

Parece louco. No entanto, também Daniel tinha sua lógica. Sofrer, para ele, o contemplativo, constituía o único meio de viver intensamente... E afinal só por isso ardia Daniel: por viver. Apenas, seus caminhos eram estranhos.

De tal modo entregava-se ao sentimento criado e de tal modo este se tornava forte que ele chegava a esquecer a sua origem provocada e alimentada. Esquecia que ele próprio o forjara, nele se embebia e dele vivia como de uma realidade.

Por vezes a crise, sem nenhuma evasão, tomava aspecto tão dolorosamente denso que ele, nela afundado, esgotando-a, ansiava enfim por se libertar. Criava então, para salvar-se, um desejo oposto que a destruísse.

Porque nesses momentos receava a loucura, sentia-se doente, longe de todos os humanos, longe daquele homem ideal que seria um sereno ser animalizado, de uma inteligência fácil e confortável. Desse homem que ele nunca atingiria, a quem não podia deixar de desprezar, com aquela altivez alcançada pelos que sofrem.

Desse homem a quem invejava, no entanto. Quando seu padecimento se avolumava demais, lançava os olhos em socorro para esse tipo que, por contraste com sua própria miséria, parecia-lhe belo e perfeito, cheio duma simplicidade que para ele, Daniel, seria heroica.

Cansado da tortura, procurava-o, imitava-o, numa súbita sede de paz. Era sempre esta a força oposta que apresentava a si mesmo quando atingia o extremo doloroso de sua crise. Permitia-se um pouco de equilíbrio como uma trégua, mas que o tédio logo invadia. Até que, na vontade mórbida de novamente sofrer, adensava esse tédio, transformava-o em angústia.

Vivia neste ciclo. Talvez tivesse permitido minha aproximação num desses momentos em que precisava da "força oposta". Eu, parece-me que já o disse, possuía boa aparência de saúde, com meus gestos medidos e meu corpo reto. E, agora sei, tanto procurou me esmagar e humilhar-me, porque me invejava. Desejou acordar-me, porque desejava que também eu sofresse, como um leproso que secretamente ambiciona transmitir sua lepra aos sãos.

No entanto, ingênua, nele me ofuscava exatamente sua tortura. Mesmo o seu egoísmo, mesmo a sua maldade assemelhavam-no a um deus destronado — a um gênio. E além disso, eu já o amava.

Hoje, tenho pena de Daniel. Depois de ter me sentido desamparada, sem saber o que fazer de mim, não desejando continuar o mesmo passado de calma e de morte, e não conseguindo, o hábito do conforto, dominar um futuro diferente — agora percebo quanto Daniel era livre e quanto era infeliz. Pelo seu passado — obscuro, cheio de sonhos frustrados — não conseguira situar-se no mundo conformado, meio a meio feliz, da média.

Quanto ao futuro, temia-o demasiado porque conhecia bem seus próprios limites. E porque, apesar de conhecê-los, não se resignara a abandonar aquela ambição enorme, indefinida, que, depois já inumana, dirigia-se para além das coisas da terra. Falhando na realização do que se lhe apresentava aos olhos, voltara-se para o que ninguém, adivinhava-o, poderia realizar.

Estranho que pareça, sofria pelo desconhecido, por aquilo que, "por uma conspiração da natureza", jamais tocaria um instante sequer com os sentidos, "ao menos para saber de sua matéria, de sua cor, de seu sexo". "De sua qualificação no mundo das percepções e das sensações", disse-me uma vez, na minha volta à sua companhia. E o maior mal que Daniel me fez foi despertar em mim mesma esse desejo que em todos nós existe latente. Em alguns acorda e envenena apenas, como no meu caso e no de Daniel. A outros conduz a laboratórios, viagens, experiências absurdas, à aventura. À loucura.

Sei agora qualquer coisa sobre os que procuram sentir para se saberem vivos. Caminhei também nessa viagem perigosa, tão pobre para nossa terrível ansiedade. E quase sempre decepcionante. Aprendi a fazer minha alma vibrar e sei que, enquanto isso, no mais profundo do próprio ser, pode-se permanecer vigilante e frio, apenas observando o espetáculo que a si mesmo se proporcionou. E quantas vezes quase com tédio...

Agora eu o compreenderia. Mas então apenas via o Daniel sem fraquezas, soberano e distante, que me hipnotizava. Pouco sei sobre o amor. Apenas lembro-me que o temia e o procurava.

Fez-me contar minha vida, ao que obedeci, medrosa, rebuscando as palavras para não lhe parecer muito estúpida. Porque ele não hesitava em falar sobre minha falta de inteligência, com as expressões mais cruéis. Contava-lhe, obediente, pequenos fatos passados. Ele ouvia, o cigarro nos lábios, os olhos distraídos. E terminava por dizer, com aquele ar só seu, mistura de desejo contido de rir, de cansaço, de desdém benevolente:

— Muito bem, bastante feliz...

Eu me ruborizava, não sei por que cheia de raiva, ferida. Mas nada lhe retrucava.

Um dia falei-lhe sobre Jaime e ele disse:

— Interessante, muito normal.

Oh, as palavras são comuns, mas o modo pelo qual eram pronunciadas. Revolucionavam-me, envergonhavam-me no que eu tinha de mais oculto.

— Cristina, você sabe que vive?

— Cristina, é bom ser inconsciente?

— Cristina, você nada quer, não é mesmo?

Eu chorava depois, mas voltava a procurá-lo, porque começava a concordar com ele e secretamente esperava que se dignasse iniciar-me no seu mundo. E como sabia humilhar-me. Chegou a estender suas garras a Jaime, a todos os meus amigos amassando-os como algo desprezível. Não sei o que, desde o início, impediu minha revolta. Não sei. Apenas recordo-me de que para o seu egoísmo era um prazer dominar e que eu fui fácil.

Um dia, vi-o animar-se subitamente, como se a inspiração lhe parecesse a um tempo feliz e cômica:

— Cristina, você quer que eu a acorde?

E, antes que eu pudesse rir, já me observava a balançar com a cabeça, concordando.

Começaram então os passeios estranhos e reveladores, aqueles dias que me marcaram para sempre.

Ele mal concederia olhar-me, fazia-me perceber, se não tivesse resolvido me transformar. Louco quanto pareça, ele repetia várias vezes: queria transformar-me, "soprar no meu corpo um pouco de veneno, do bom e terrível veneno"...

Iniciou-se minha educação.

Ele falava, eu ouvia. Soube de vidas negras e belas, soube do sofrimento e do êxtase dos "privilegiados pela loucura".

— Medite sobre eles, você, com o seu feliz meio-termo.

E eu pensava. Horrorizava-me o mundo novo que a voz persuasiva de Daniel fazia-me vislumbrar, a mim que sempre fora uma quieta ovelha. Horrorizava-me, porém já me atraía com a força aspirante de uma queda...

— Prepare-se para sentir comigo. Ouça esse trecho com a cabeça jogada para trás, os olhos entrefechados, os lábios abertos...

Eu fingia rir, fingia obedecer por brincadeira, como a desculpar-me perante os amigos de outrora. Perante os meus próprios olhos, por admitir tamanho jugo. Nada, porém, era mais sério para mim.

Ele, impassível, retocando-me como para um ritual, insistia, grave:

— Mais langor no olhar... As narinas mais leves, prontas para absorver profundamente...

Eu obedecia. E sobretudo obedecia procurando não descontentá-lo em coisa alguma, entregando-me às suas mãos e pedindo perdão por não lhe dar mais. E porque nada me pedia, nada do que eu não mais hesitaria em lhe oferecer, ainda mais caía na certeza de minha inferioridade e de nossa distância.

— Mais abandono. Deixe que minha voz seja o seu pensamento.

Eu ouvia. "Para os que jazem encarcerados (não apenas nas prisões, interrompia Daniel) as lágrimas formam parte da experiência cotidiana; dia sem lágrimas é dia em que o coração está endurecido, não um dia em que o coração é feliz"... "visto que o segredo da vida é sofrer. Esta verdade está contida em todas as coisas."

E aos poucos, realmente, eu entendia... Aquela voz lenta terminou por arder na minha alma, revolvendo-a profundamente. Caminhara longos anos pelas grutas e de repente descobria a radiosa saída para o mar... Sim, gritei-lhe uma vez mal respirando, eu sentia! Ele apenas sorriu, ainda não contente.

No entanto era a verdade. Eu, tão simples e primitiva, que jamais desejara qualquer coisa com intensidade. Eu, inconsciente e alegre, "porque possuía um corpo alegre"... De repente despertava: que vida escura tivera até então. Agora... Agora eu renascia. Vivamente, na dor, nessa dor que dormia quieta e cega no fundo de mim mesma.

Tornei-me nervosa, agitada, mas inteligente. Os olhos sempre inquietos. Quase não dormia.

Jaime veio me visitar, passar dois dias comigo. Ao receber seu telegrama, empalideci. Andei como tonta, pensando num meio de não deixar Daniel vê-lo. Eu tinha vergonha de Jaime.

Sob o pretexto de que desejava experimentar um hotel, reservei num deles um quarto. Jaime não desconfiou do motivo real, como era de esperar. E isso mais me aproximou de Daniel. Ansiava longinquamente que meu marido reagisse por mim, me retirasse daquelas mãos loucas. Receava não sei o quê.

Foram dois dias horríveis. Odiava-me porque me envergonhava de Jaime e no entanto fazia o possível para com ele esconder-me nos lugares onde Daniel não nos visse...

Quando ele partiu, finalmente, entre aliviada e desamparada, concedi-me uma hora de descanso, antes de voltar para Daniel. Tratava de adiar o perigo, mas nunca me ocorrera fugir.


* * *


Confiava em que antes de minha partida Daniel me quisesse.

No entanto, a notícia de que mamãe estava doente veio me chamar para o Rio antes desse dia. Eu devia partir.

Falei com Daniel.

— Mais uma tarde e talvez nunca mais nos vejamos — arrisquei medrosa. Ele riu baixinho.

— Certamente você voltará.

Tive a nítida impressão de que ele tentava sugerir-me a volta, como uma ordem. Dissera-me um dia: "As almas fracas como você são facilmente levadas a qualquer loucura com um olhar apenas por almas fortes como a minha." No entanto, cega que estava, alegrei-me com este pensamento. E, esquecendo que ele próprio já afirmara sua indiferença por mim, agarrei-me a essa possibilidade: "Se me sugere que eu o procure um dia... não é porque me quer?"

Perguntei-lhe, tentando sorrir:

— Voltar? Por quê?

— Sua educação... Ainda não está completa.

Caí em mim mesma, num desânimo pesado que me deixou lassa e vazia por uns momentos. Sim, era forçoso reconhecer, ele jamais se perturbara sequer com minha presença. Mas, de novo, aquela sua frieza como que me excitava, engrandecia-o aos meus olhos. Numa daquelas exaltações súbitas que haviam se tornado frequentes em mim, desejei ajoelhar-me perto dele, rebaixar-me, adorá-lo. Nunca mais, nunca mais, pensei assustada. Temi não suportar a dor de perdê-lo.

— Daniel — disse-lhe baixo.

Ele ergueu os olhos e, diante de meu rosto angustiado, entrefechou-os, analisando-me, compreendendo-me. Houve um longo minuto de silêncio. Eu esperava e tremia. Sabia que esse instante era o primeiro realmente vivo entre nós, o primeiro que nos ligava diretamente. Aquele momento me separava de súbito de todo o meu passado e numa singular previsão adivinhei que ele se destacaria como um ponto vermelho sobre todo o decorrer de minha vida.

Eu esperava e na expectativa, todos os sentidos aguçados, eu desejaria imobilizar todo o universo, temendo que uma folha se movesse, que alguém nos interrompesse, que minha respiração, um gesto qualquer quebrasse o feitiço do momento, desvanecesse-o e fizesse-nos cair novamente na distância e no vácuo das palavras. O sangue latejava-me surdamente nos pulsos, no peito, na testa. As mãos geladas e úmidas, quase insensíveis.

Minha ansiedade deixava-me numa tensão extrema, como pronta para me atirar num sorvedouro, como pronta para enlouquecer. A um pequeno movimento de Daniel, explodi quase num grito, como se ele me tivesse sacudido com violência:

— E se eu voltar?

Recebeu a frase com desagrado, como sempre em que "minha intensidade de animal o chocava". Fixou os olhos em mim e progressivamente seus traços se transformaram. Enrubesci. A constante preocupação de atingir seus pensamentos não me concedera o poder de penetrar nos mais importantes, mas adestrara minha intuição quanto aos menores. Eu sabia que para Daniel se apiedar de mim, eu deveria estar ridícula. Nem a fome nem a miséria de alguém comoviam-no mais do que a falta de estética. Os cabelos soltos, úmidos de suor, caíam-me sobre o rosto afogueado e a dor, a que minha fisionomia, durante longos anos calma, ainda não se habituara, deveria torcer minhas feições, emprestar-lhes alguma nota grotesca. No momento mais grave de minha vida eu estava ridícula, dizia-me o olhar penalizado de Daniel.

Ficou em silêncio. E, como após uma longa explicação, acrescentou, a voz lenta e serena:

— E além disso, você me conhece mais do que seria preciso para viver comigo. Já falei muito. — Pausa. Acendeu o cigarro sem pressa. Olhou-me bem no fundo dos olhos e num meio sorriso concluiu: — Eu a odiaria no dia em que nada mais tivesse a lhe dizer.

Fora já bastante pisada para não me sentir ferida. Era a primeira vez, porém, que ele me recusava claramente, a mim, meu corpo, tudo o que eu possuía e que lhe oferecia de olhos fechados.

Aterrorizada com minhas próprias palavras que me arrastavam independentes de mim, prossegui com humildade, tentando agradá-lo.

— Responderá ao menos às minhas cartas?

Ele teve um imperceptível movimento de impaciência. Mas respondeu-me, a voz controlada, amenizada:

— Não. O que não impede que você me escreva.

Antes de me retirar, beijou-me. Beijou-me nos lábios, sem que minha inquietação se apaziguasse. Porque fazia-o por mim. E o meu desejo era que ele sentisse prazer, que se humanizasse, se humilhasse.


* * *


Mamãe curou-se depressa. E eu voltara para Jaime, definitivamente.

Retomei a vida anterior. No entanto movia-me como uma cega, numa espécie de sonolência que apenas se sacudia de mim enquanto eu escrevia a Daniel. Nunca recebi palavra sua. Nada aguardava mais. E continuava a escrever.

Às vezes meu estado se agravava e cada instante tornava-se doloroso como uma pequena flecha que se cravasse no meu corpo. Pensava em fugir, em correr para Daniel. Caía numa febre de movimentos que em vão procurava disciplinar em trabalhos caseiros para não despertar a atenção de Jaime e da criada.

Seguia-se um estado de lassidão em que sofria menos. Mas, mesmo nesse período, não sossegava inteiramente. Perscrutava-me atenta: "aquilo voltaria?" Referia-me à tortura com palavras vagas, como se deste modo a afastasse.

Em momentos de maior lucidez, lembrava-me de que ele me dissera um dia:

— É preciso saber sentir, mas também saber como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a encantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao "abre-te, Sésamo". Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos, nada há de melhor que expô-lo ao sol.

Tentara pensar no que acontecera com nitidez e objetividade para reduzir meus sentimentos a um esquema, sem perfume, sem entrelinhas. Vagamente parecia-me uma traição. A Daniel, a mim mesma. Tentara, embora. Simplificando minha história em duas ou três palavras, expondo-a ao sol, parecia-me realmente irrisória, mas não me contagiava a frieza de meus pensamentos e antes imaginava tratar do caso de uma mulher desconhecida com um homem desconhecido. Oh, eles nada tinham a ver com a opressão que me esmagava, com aquela saudade dolorosa que me esgazeava os olhos e atordoava a mente... E mesmo, descobrira, eu temia libertar-me. "Aquilo" crescera demais dentro de mim, deixava-me plena. Ficaria desamparada se me curasse. Afinal, o que era eu agora, sentia, senão um reflexo? Se abolisse Daniel, seria um espelho branco.

Tornara-me vibrátil, estranhamente sensível. Não suportava mais aquelas amenas tardes em família que outrora tanto haviam me distraído.

— Está calor, hein, Cristina? — dizia Jaime.

— Há duas semanas que estou tentando esse ponto e nada consigo — dizia mamãe. Jaime atalhava, espreguiçando-se:

— Imagine, fazer crochê com um tempo desses.

— O diabo não é fazer crochê, é ficar quebrando a cabeça para arranjar o tal ponto — retrucava papai. Pausa.

— Mercedes ainda terminará por ficar noiva daquele rapaz — informava mamãe.

— Mesmo feia como é — respondia papai distraído, virando a folha do jornal. Pausa.

— O chefão resolveu agora usar o sistema de envio da...

Eu disfarçava a angústia e inventava um pretexto para me retirar por uns momentos. No quarto mordia o lenço, sufocando os gritos de desespero que ameaçavam minha garganta. Caía na cama, o rosto afundado no travesseiro, esperando que alguma coisa acontecesse e me salvasse. Começava a odiá-los, a todos. E desejava abandoná-los, fugir daquele sentimento que se desenvolvia a cada minuto, mesclado a uma insuportável piedade deles e de mim mesma. Como se juntos fôssemos vítimas da mesma e irremediável ameaça.

Tentava reconstituir a imagem de Daniel, traço por traço. Parecia-me que se o relembrasse nitidamente teria uma espécie de poder sobre ele. Retinha a respiração, retesava-me, apertava os lábios. Um momento... Um momento mais e tê-lo-ia, gesto por gesto... Sua figura já se formava, nebulosa... E finalmente, pouco a pouco, desolada, eu a percebia desvanecer-se. Tinha a impressão de que Daniel fugia de mim, sorrindo. No entanto, sua presença não me abandonava. Uma vez, estando com Jaime, eu a sentira e me ruborizara. Imaginara-o a olhar-nos, com seu sorriso calmo e irônico:

— Bem, vejamos, um casal feliz...

Estremecera de vergonha e durante vários dias mal conseguira suportar a sombra de Jaime. Pensava em Daniel, com maior intensidade ainda. Frases suas rodavam dentro de mim em turbilhão. Uma ou outra se destacava e me perseguia horas e horas. "A única atitude digna de um homem é a tristeza, a única atitude digna de um homem é a tristeza, a única..."

Longe dele, começava a compreendê-lo melhor. Lembrava-me de que Daniel não sabia mesmo rir. Às vezes, quando eu dizia qualquer coisa engraçada e se o surpreendia distraído, via seu rosto como que se partir, numa careta que contrariava aquelas rugas nascidas apenas da dor e da meditação. Um ar a um tempo infantil e cínico, indecente quase, como se ele estivesse fazendo algo proibido, como se estivesse enganando, furtando-se a alguém.

Eu não suportava olhá-lo, nesses raros instantes. Abaixava a cabeça, vexada, cheia de uma piedade que me fazia mal. Realmente ele não sabia ser feliz. Talvez nunca lho tivesse ensinado, quem sabe? Sempre tão sozinho, desde a adolescência, tão longe de qualquer gesto amigo. Hoje, sem ódio, sem amor, com indiferença apenas, de quanta bondade eu seria capaz.

Mas naquele tempo... Temia-o? Sentia apenas que se ele surgisse a qualquer momento, um gesto seu faria com que o seguisse para sempre. Sonhava com esse instante, imaginava que, ao seu lado, libertar-me-ia dele. Amor? Desejava acompanhá-lo, para estar do lado mais forte, para que ele me poupasse, como quem se aninha nos braços do inimigo para estar longe de suas flechas. Era diferente de amor, descobria: eu o queria como quem tem sede e deseja a água, sem sentimentos, sem mesmo vontade de felicidade.

Concedia-me às vezes outro sonho, sabendo-o mais impossível ainda: ele me amaria e eu me vingaria, sentindo-me... Não, não superior, mas igual a ele... Porque, se me quisesse, estaria destruída aquela sua poderosa frieza, seu desdém irônico e inabalável que tanto me fascinava. Enquanto isso eu nunca poderia ser feliz. Ele me perseguia.

Oh, sei que me repito, que erro, confundo fatos e pensamentos nesta curta narrativa. No entanto, mesmo assim, com que esforço reúno seus elementos e lanço-os sobre o papel. Já disse que não sou inteligente, nem culta. E sofrer apenas não basta.

Sem falar, os olhos fechados, há qualquer coisa abaixo do meu pensamento, mais profundo e mais forte, que pretende o que se passou e que, em fugidio instante, vejo com nitidez. Mas meu cérebro é fraco e não consigo transformar esse minuto vivo em reflexão.

Tudo é verdade, no entanto. E devo reconhecer outros sentimentos ainda, igualmente verdadeiros. Muitas vezes, nele pensando, numa transição lenta, via-me servindo-o como uma escrava. Sim, admitia, trêmula e assustada: eu, com um passado estável, convencional, nascida na civilização, sentia um prazer doloroso em imaginar-me a seus pés, escrava... Não, não era amor. Horrorizava-me: era o aviltamento, aviltamento...

Surpreendia-me a olhar para o espelho buscando no rosto algum novo traço, nascido da dor, de minha vileza, e que pudesse conduzir minha razão aos instintos em tumulto que eu ainda não queria aceitar. Procurava aliviar minha alma, mortificando-me, sussurrando entre os dentes apertados: "Vil... desprezível..." Respondia-me, pusilânime: "Mas, meu deus (letra minúscula, como ele me ensinara), eu não sou culpada, eu não sou culpada..." De quê? Eu não o definia. Qualquer coisa horrível e forte crescia dentro de mim, qualquer coisa que me estarrecia de medo. Era apenas isso o que eu sabia.

E confusamente, diante de sua recordação, encolhia-me, unia-me a Jaime, aconchegando-o a mim, no desejo de proteger-nos, a ambos, contra ele, contra sua força, contra seu sorriso. Porque, sabendo-o longe embora, imaginava-o assistindo meus dias e sorrindo a algum pensamento secreto, daqueles de que eu apenas adivinhava a existência, sem jamais conseguir penetrar o sentido. Procurava, depois de tanto tempo, mais de um ano, como que justificar-me, a Jaime e à nossa vida burguesa, de tal modo ele se apoderara de minha alma.

Aquelas longas conversas em que eu apenas ouvia, aquela chama que acendia nos meus olhos, aquele olhar lento, pesado de conhecimento, sob as pálpebras grossas, haviam me fascinado, acordado em mim sentimentos obscuros, o desejo doloroso de me aprofundar em não sei quê, para atingir não sei que coisa... E sobretudo haviam despertado em mim a sensação de que palpitava em meu corpo e em meu espírito uma vida mais profunda e mais intensa do que a que eu vivia.

De noite, sem dormir, como se falasse a alguém invisível, dizia-me baixinho, vencida: "Concordo, concordo que minha vida é confortável e medíocre, concordo, é pequeno tudo que tenho." Sentia-o balançar a cabeça benevolente. "Não posso, não posso!", gritava comigo mesma, abrangendo nesse lamento minha impossibilidade de deixar de querê-lo, de continuar naquele estado, de, principalmente, seguir os caminhos grandiosos que ele começara a mostrar-me e onde eu me perdia, minúscula e desamparada.

Soubera de vidas ardentes, mas voltara à minha própria, banal. Ele me deixara entrever o sublime e exigira que também eu queimasse no fogo sagrado. Eu me debatia, sem forças. Tudo o que aprendera com Daniel fazia-me apenas enxergar a pequenez do meu cotidiano e execrá-lo. Minha educação não terminara, ele bem o dissera.

Sentia-me sem apoio, tentava evadir-me em lágrimas. Porém minha atitude diante do sofrimento era ainda de perplexidade.

Como tive forças para destruir tudo o que eu fora, para ferir Jaime, tornar infelizes papai e mamãe, já velhos e cansados?

No período que antecedeu minha resolução, como nos que precedem a morte, em certas doenças, tive momentos de trégua.

Naquele dia, Dora, uma amiga, viera à minha casa ver se me distraía de uma das dores de cabeça que eu pretextava para abandonar-me livremente à melancolia, sem ser inquietada. Foi uma frase sua, se bem me lembro, que me lançou para Daniel por outros caminhos.

— Meu bem, você precisava ouvir Armando falar sobre música. Você diria que ele fala do prato mais gostoso do mundo ou da mulher mais "não sei quê". Com uma volubilidade, como se mastigasse cada notinha e jogasse fora os ossos...

Pensei em Daniel que, pelo contrário, tudo imaterializava. Mesmo no seu único beijo, eu imaginara recebê-lo sem lábios. Estremeci: não empobrecer sua memória. Mas outro pensamento continuou lúcido e imperturbável: ele dizia que o corpo era um acessório. Não, não. Um dia olhara com repugnância e censura para minha blusa que palpitava depois da corrida para pegar o ônibus. Repugnância, não! Ele me dissera, continuava o outro pensamento frio: "Você come chocolate como se fosse a coisa mais importante do mundo. Você tem um horrível gosto pelas coisas." Ele comia como quem amarrota um pedaço de papel.

Subitamente, tive consciência de que muita gente sorriria de Daniel, com um daqueles sorrisos orgulhosos e ambíguos que os homens votam uns aos outros. Talvez eu mesma o desprezasse se não estivesse doente... A esse pensamento, qualquer coisa revoltou-se dentro de mim, estranhamente: Daniel...

Sentia-me repentinamente exausta, já sem forças para continuar. Quando o telefone tocou. Jaime, pensei.

Era como se eu fugisse de Daniel... Ah, um apoio. Atendi, sôfrega.

— Alô, Jaime!

— Como sabias que era eu? — falou sua voz fanhosa e risonha.

Como se me tivessem passado água fresca sobre o rosto. Jaime. Meus nervos se relaxaram. Jaime, tu existes.

És real. Tuas mãos são fortes, elas me aceitam. Tu também gostas de chocolate.

— Demoras?

— Não, filha. Telefonei para saber se queres alguma coisa da cidade.

Lutei ainda um instante para não analisar sua frase distraída. Porque ultimamente tudo eu comparava ao que de belo e profundo me dissera Daniel. E apenas sossegava, quando concordava com o Daniel invisível: sim, ele é banal, mediocremente, incrivelmente feliz...

— Não quero nada. Mas vem já, sim? (Já, querido, antes que Daniel venha, antes que eu mude, já!) Alô! Alô!

Escuta, se quiseres trazer alguma coisa, compra bombons... chocolate... Sim, sim. Até logo.

Quando Dora se despediu, pus-me diante do espelho e ajeitei-me como há meses não o fazia. Mas a ansiedade tirava-me a paciência, deixava-me os olhos brilhantes, os movimentos rápidos. Seria uma prova, a prova final.

Quando ele apareceu, cessou de súbito minha inquietação. Sim, pensei profundamente aliviada, estava calma, feliz quase: Daniel não surgira. Ele notou-me a mudança no penteado, as unhas. Beijou-me despreocupado. Segurei-lhe as mãos, passei-as pelas minhas faces, pela testa.

— Que tens, Cristina? O que aconteceu?

Não respondi, mas milhares de campainhas se chocaram dentro de mim. Meu pensamento vibrou como um grito agudo: "Só isso, só isso: vou me libertar! Estou livre!"

Sentamo-nos no sofá. E no silêncio da sala, senti a paz. Nada pensava e apoiava-me em Jaime com serenidade.

— Não poderíamos ficar assim a vida inteira? Ele riu. Alisou minhas mãos.

— Sabes? Gosto mais de ti sem verniz nas unhas...

— Deferido o pedido, meu senhor.

— Mas não foi um pedido: foi uma ordem...

Depois de novo o silêncio, ventando-me os ouvidos, os olhos, tirando-me a força. Estava bom, suavemente bom. Ele passou as mãos pelos meus cabelos.

Então, como se uma lança tivesse me trespassado as costas, entesei-me subitamente no sofá, abri os olhos, fitei-os, dilatados, no ar...

— Que foi? — perguntou-me Jaime inquieto.

Seus cabelos... Sim, sim, pensei com um ligeiro sorriso de triunfo, seus cabelos eram negros... Os olhos...

Um momento... Os olhos... pretos também?


* * *


Nessa mesma noite, resolvi ir embora.

E de repente, não pensei mais no assunto, despreocupei-me, tornei agradável o serão de Jaime. Deitei-me serena e dormi até o dia seguinte, como não o fizera há muito.

Esperei que Jaime fosse ao trabalho. Mandei a criada para casa, em folga. Arrumei uma pequena mala com o essencial.

Antes de sair, no entanto, evolou-se subitamente minha serenidade. Movimentos inúteis, repetidos, pensamentos rápidos e atropelados. Parecia-me que Daniel estava junto de mim, sua presença quase palpável: "Estes teus olhos desenhados à flor do rosto, com um pincel fino, pouca tinta. Minuciosos, claros, incapazes de fazer bem ou mal..."

Numa inspiração súbita, resolvi deixar um bilhete a Jaime, um bilhete que o ferisse como Daniel o feriria! Que o deixasse perturbado, esmagado. E, apenas com o orgulho de mostrar a Daniel que eu era "forte", sem nenhum remorso, escrevi deliberadamente, tentando fazer-me longínqua e inatingível: "Vou embora. Estou cansada de viver contigo. Se não consegues compreender-me pelo menos confia em mim: digo-te que mereço ser perdoada. Se fosses mais inteligente, eu te diria: não me julgues, não perdoes, ninguém é capaz de fazê-lo. No entanto, para tua paz, perdoa-me."


* * *


Tomei silenciosamente meu lugar junto a Daniel.

Gradualmente apoderei-me de sua vida diária, substituí-o, como uma enfermeira, em seus movimentos.

Cuidei de seus livros, de suas roupas, tornei mais claro o seu ambiente.

Ele não mo agradecia. Aceitava simplesmente, como aceitara minha companhia.

Quanto a mim, desde o instante em que saltando do trem aproximei-me de Daniel sem ser repelida, minha atitude foi uma só. Nem de contentamento por ele, nem de remorsos por Jaime. Nem propriamente de alívio. Era como se voltasse à minha fonte. Como se anteriormente me tivessem cortado de uma rocha, lançado à vida como mulher e eu depois retornasse à minha verdadeira matriz, como um último suspiro, os olhos fechados, serena, imobilizando-me para a eternidade.

Não refletia sobre a situação, mas quando a analisava alguma vez era sempre do mesmo modo: vivo com ele e é tudo. Permanecia junto do poderoso, do que sabia, isso me bastava.

Por que não durou sempre aquela morte ideal? Um pouco de clarividência, em certos momentos, advertia-me de que a paz só poderia ser passageira. Adivinhava que nem sempre me bastaria viver Daniel. E mais afundava na inexistência, concedendo-me tréguas, adiando o momento em que eu própria buscaria a vida, para descobrir sozinha, através de meu próprio sofrimento.

Por enquanto assistia-o apenas e repousava.


* * *


Os dias correram, os meses tombaram uns sobre os outros.

O hábito instalou-se na minha existência e já guiada por ele é que me ocupava minuto por minuto com Daniel. Já não o ouvia fremente, exaltada, como outrora. Eu nele entrara. Nada mais me surpreendia.

Nunca sorria, desaprendera da alegria. No entanto não me afastaria de sua vida nem para ser feliz. Eu não o era, nem infeliz embora. De tal modo eu me incorporara à situação que dela não mais recebia estímulos e sensações que me permitissem tonalizá-la.

Apenas um receio perturbava minha estranha paz: o de que Daniel me mandasse embora. Às vezes, cosendo silenciosamente suas roupas ao seu lado, pressentia que ele ia falar. Abandonava a costura sobre o regaço, empalidecia e esperava sua ordem:

— Pode ir.

E quando, afinal, ouvia-o dizer-me qualquer coisa ou rir de mim por algum motivo, retomava o pano e continuava o trabalho, os dedos trêmulos por alguns instantes.

O fim, no entanto, estava próximo.

Um dia em que saí cedo, por um acidente numa das estradas, demorei-me demais fora de casa. Quando voltei ao quarto, encontrei-o irritado, os olhos fixos em qualquer ponto, mudo ao meu boa-noite. Ainda não jantara e como eu, cheia de remorsos, lhe pedisse para comer alguma coisa, guardou um longo silêncio proposital e finalmente informou, perscrutando com certo prazer minha inquietação: não almoçara igualmente. Corri a fazer café, enquanto ele conservava o mesmo ar casmurro, um pouco infantil, observando de soslaio meus movimentos apressados ao preparar a mesa.

De repente abri os olhos, espantada. Pela primeira vez descobria que Daniel precisava de mim! Eu me tornara necessária ao tirano... Ele, sabia agora, não me despediria...

Lembro-me de que parei com a cafeteira na mão, desnorteada. Daniel continuava sombrio, numa queixa muda contra meu desleixo involuntário. Sorri, um pouco tímida. Então... ele precisava de mim? Não sentia alegria, mas como um desapontamento: bem, pensei, terminou minha função. Assustei-me àquela reflexão inopinada e involuntária.

Servira já o meu tempo de escrava. Talvez continuasse a sê-lo, sem revolta, até o fim da vida. Mas servia a um deus... E Daniel fraquejara, desencantara-se. Precisava de mim! repeti mil vezes depois, com a sensação de ter recebido um belo e enorme presente, grande demais para meus braços e para meu desejo. E o mais estranho é que acompanhava esta impressão uma outra, absurdamente nova e forte. Estava livre, descobri afinal...

Como entender-me? Por que de início aquela cega integração? E depois, a quase alegria da libertação? De que matéria sou feita onde se entrelaçam mas não se fundem os elementos e a base de mil outras vidas? Sigo todos os caminhos e nenhum deles é ainda o meu. Fui moldada em tantas estátuas e não me imobilizei...

Daí em diante, sem que o deliberasse, descuidei imperceptivelmente de Daniel. E já agora não aceitava seu domínio. Resignava-me apenas.

Para que narrar pequenos fatos que demonstrem minha progressiva caminhada para a intolerância e para o ódio? Sabe-se bem quanto basta para transformar a atmosfera em que vivem duas pessoas. Um pequeno gesto, um sorriso prendem-se como um anzol a um dos sentimentos que repousam enovelados no fundo das águas sossegadas e leva-o à tona, fá-lo gritar acima dos outros.

Continuamos a viver. E agora eu degustava, dia a dia, a princípio mesclado ao sabor do triunfo, o poder de olhar de frente para o ídolo.

Ele percebeu minha transformação e, se de início retraiu-se surpreso com minha coragem, retornou ao jugo antigo com mais violência, pronto a não deixar-me escapar. Encontraria porém minha própria violência.

Armamo-nos e éramos duas forças.

Respirávamos mal no quarto. Movíamo-nos como que dentro do perigo, à espera de que ele se concretizasse e nos caísse em cima, pelas costas. Tornamo-nos astuciosos, procurando mil intenções ocultas em cada palavra proferida. Feríamo-nos a cada momento e estabelecemos a vitória e a derrota. Tornei-me cruel. Ele tornou-se fraco, mostrou-se como realmente era. Havia ocasiões em que por um triz não me pedia apoio, confessando o isolamento em que minha libertação o deixara e que, depois de mim, não sabia mais suportar. Eu mesma, num rápido desfalecimento de forças, desejava às vezes estender-lhe a mão. No entanto avançáramos demasiado longe e, orgulhosos, não poderíamos recuar. Sustentava-nos, agora, a luta. Como uma criança doente, mostrava-se cada vez mais caprichoso. Qualquer palavra minha era o início de ríspida discussão. Descobrimos mais tarde outro recurso ainda: o silêncio. Mal nos falávamos.

E por que então não nos separávamos, uma vez que nenhum laço sério nos prendia? Ele não mo propunha porque se habituara à minha ajuda e igualmente não conseguiria mais viver sem alguém sobre quem exercesse poder, para quem fosse rei, desde que não o era em parte alguma. E talvez mesmo já amasse minha companhia, ele que sempre fora tão solitário. Quanto a mim — sentia prazer em odiá-lo.

Até as novas relações foram invadidas pelo hábito. (Vivi com Daniel perto de dois anos.) Já agora nem mesmo o ódio. Estávamos cansados.

Uma vez, após uma semana de chuva que nos aprisionara durante dias juntos no quarto, esgotando ao limite os nossos nervos — uma vez deu-se a conclusão.

Era um fim de tarde, precocemente sombrio. A chuva gotejava monotonamente lá fora. Pouco faláramos durante o dia. Daniel, o rosto branco sobre a "echarpe" escura do pescoço, olhava pela janela. A água embaciara os vidros; puxou o lenço e, atentamente, como se de súbito o fato crescesse de importância, pôs-se a limpá-los, os movimentos minuciosos e cuidados, traindo o esforço que lhe custava conter o enervamento. Eu o observava, de pé, junto ao sofá. O tique-taque do relógio latejava dentro do quarto, arquejante.

Então, como se continuasse uma discussão, falei para minha própria surpresa:

— Mas isto não pode continuar...

Voltou-se e deparei com seus olhos frios, talvez curiosos, certamente irônicos. Toda minha raiva se concentrou neste momento e pesou-me no peito como uma pedra.

— De que te ris? Perguntei.

Ele continuou a fitar-me e tornou a limpar os vidros da janela. De repente, lembrou-se e respondeu:

— De ti.

Assustei-me. Como era corajoso. Senti medo da audácia com que me desafiava. Retornei pausadamente:

— Por quê?

Ele inclinou-se um pouco e seus dentes brilharam na meia escuridão. Achei-o terrivelmente belo, sem que me comovesse a descoberta.

— Por quê? Ah, porque... É que tu e eu... indiferentes ou com ódio... Essa discussão que não se liga propriamente a nós, que não nos faz vibrar... Uma desilusão.

— Mas por que de mim, então? — Continuei obstinada. — Não somos dois?

Limpou uma gotinha que escorrera pelo parapeito.

— Não. Estás só. Sempre estiveste só.

Seria apenas um meio de me ferir? Surpreendi-me entretanto, assustei-me como se tivesse sido roubada.

Meu Deus, então... nenhum dos dois acreditava mais naquilo que nos prendia?

— Tens medo da verdade? Nem sentimos ódio um pelo outro. Assim seríamos quase felizes. Seres de conteúdo forte. Queres uma prova? Não me matarias, porque depois não sentirias nem prazer nem dor. Apenas isso: pra quê?

Eu não podia deixar de notar a inteligência com que ele penetrava a verdade. Mas como as coisas se precipitaram, como se precipitaram! pensava.

Fez-se silêncio. O relógio bateu seis horas. De novo o silêncio. Respirei com força, profundamente. Minha voz saiu baixa e pesada:

— Vou embora.

Tivemos os dois um pequeno movimento rápido, como se uma luta devesse começar. Depois encaramo-nos surpresos. Estava dito! Estava dito!

Repeti triunfante, trêmula:

— Vou embora, Daniel. — Aproximei-me e, sobre a palidez de seu rosto fino, os cabelos pareciam excessivamente negros. — Daniel — sacudi-o pelo braço —, vou embora!

Ele não se moveu. Tive então consciência de que minha mão agarrava seu braço. A minha frase abrira tal distância entre nós que eu não suportava sequer seu contato. Retirei-a com um movimento tão brusco e súbito que o cinzeiro voou longe, espedaçou-se no chão.

Fiquei um tempo olhando os cacos. Levantei depois a cabeça, subitamente serenada. Também ele imobilizara-se, como fascinado pela rapidez da cena, esquecido de qualquer máscara. Encaramo-nos um momento, sem cólera, os olhos desarmados, procurando, cheios agora de curiosidade quase amiga, o fundo de nossas almas, o nosso mistério que deveria ser o mesmo. Desviamos o olhar ao mesmo tempo, perturbados.

— Os encarcerados — disse Daniel tentando emprestar um tom ligeiro e desdenhoso às palavras. Foi o último instante de simpatia que tivemos juntos.

Houve longuíssima pausa, daquelas que nos mergulham na eternidade. Tudo parara ao redor de nós. Com um novo suspiro, retornei à vida.

— Vou embora.

Ele não teve um gesto.

Caminhei para a porta e na soleira estaquei novamente. Via-lhe as costas, a cabeça escura erguida, como se ele olhasse para a frente. Repeti, a voz singularmente oca:

— Vou embora, Daniel.


* * *


Minha mãe morrera de um ataque de coração, ocasionado pela minha partida. Papai refugiara-se junto ao meu tio, no interior do Estado.

Jaime aceitou-me de volta.

Nunca me fez muitas perguntas. Ele desejava sobretudo a paz. Regressamos à antiga vida, embora ele nunca mais se aproximasse inteiramente de mim. Adivinhava-me diferente dele e o meu "deslize" atemorizava-o, fazia-o respeitar-me.

Quanto a mim, continuo.

Já agora sozinha. Para sempre sozinha.

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