Edgar Allan Poe, da Personalidade Excêntrica à Obra Sombria - Texto de Charles Baudelaire | Fantástica Cultural

Artigo Edgar Allan Poe, da Personalidade Excêntrica à Obra Sombria - Texto de Charles Baudelaire
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Edgar Allan Poe, da Personalidade Excêntrica à Obra Sombria - Texto de Charles Baudelaire

Autores Selecionados ⋅ 1 jul. 2023
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O estranho gênio por trás da literatura.

Texto de Charles Baudelaire*


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É um prazer bem grande e bem útil comparar os traços fisionômicos de um grande homem com suas obras. As biografias, as notas sobre os costumes, os hábitos, o físico dos artistas e dos escritores sempre suscitaram uma curiosidade bem legítima.

Edgar Allan Poe era de estatura um pouco abaixo da média, mas todo o seu corpo era solidamente constituído. Tinha pés e mãos pequenos. Antes de vir a ter sua compleição combalida pela doença, era capaz de maravilhosas proezas de força. Dir-se-ia que a Natureza, e creio que isso já foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura àqueles de quem deseja extrair grandes coisas.

Na mocidade, Poe distinguira-se bastante em todos os exercícios de destreza e de força; isto condizia um pouco com seu talento: cálculos e problemas. Um dia apostou que partiria de um dos cais de Richmond, que subiria a nado umas sete milhas o rio James e voltaria a pé no mesmo dia. E o fez. Era um dia ardente de verão. Nem por isso passou lá tão mal.

Aspecto, gestos, marcha, posição da cabeça, tudo o assinalava, quando se achava ele nos seus bons dias, como um homem de alta distinção. Você também pode gostar: Leia os Contos de Horror e Mistério de Edgar Allan Poe Era marcado pela Natureza como essas pessoas que, num grupo, no café, na rua, atraem o olhar do observador e o preocupam.

Se jamais a palavra "estranho", de que tanto se abusou nas descrições modernas, se aplicou bem a alguma coisa, foi certamente ao gênero de beleza de Poe. Suas feições não eram vultosas, mas bastante regulares, a tez dum moreno-claro, a fisionomia triste e distraída. A cabeça não apresentava um conjunto agradável e harmonioso. Vista de lado, feria e dominava a atenção pela expressão dominadora e inquisitorial da fronte, mas de perfil revelava certas deficiências.

Suas maneiras eram perfeitas, muito polidas e cheias de segurança. Mas sua conversação merece menção especial. A primeira vez que interroguei um americano a esse respeito, respondeu-me ele, rindo muito: "Oh! oh! ele tinha uma conversa que não era lá muito consecutiva!"

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Depois de algumas explicações, compreendi que Poe dava longas viajadas no mundo das ideias, como um matemático que fizesse uma demonstração diante de alunos já bem fortes em matemática, e que ele monologava muito.

Na verdade, era uma conversa essencialmente nutritiva. Não era um "bom falar", e aliás sua palavra, como seus escritos, tinha horror à convenção; mas um vasto saber, o conhecimento de várias línguas, sólidos estudos, ideias colhidas em vários países, faziam dessa palavra um ensinamento incomparável.

Enfim, era um homem para ser frequentado pelas pessoas que medem sua amizade pelo ganho espiritual que podem auferir de uma convivência. Mas parece que Poe tenha sido pouco severo na escolha de seu auditório. Que seus auditores fossem capazes de compreender suas abstrações sutis, ou admirar as gloriosas concepções, que rasgavam continuamente com seus clarões o céu sombrio de seu cérebro, era coisa que não lhe causava preocupação.

As Faces da Obra de Poe

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Vou procurar dar uma ideia do caráter geral, que domina as obras de Edgar Allan Poe.

Poe se apresenta sob três aspectos: crítico, poeta e romancista; e mais, no romancista há um filósofo.

Quando foi chamado para dirigir o Mensageiro Literário (Southern Literary Messenger), ficou estipulado que ganharia 2.500 francos por ano. Em troca de tão medíocres honorários, deveria encarregar-se da leitura e escolha dos trechos destinados à composição do número do mês, e da redação da parte chamada editorial, isto é, da análise de todas as obras. Além disso, contribuiria muitas vezes com um conto ou uma poesia. Graças à sua ativa direção e à originalidade de sua crítica, o Mensageiro Literário atraiu dentro em pouco todas as atenções.

Se Poe atraiu fortemente as atenções sobre si, arranjou também numerosas inimigos. Profundamente penetrado por suas convicções, fez guerra infatigável aos falsos raciocínios, às imitações bobas, aos barbarismos e a todos os delitos literários, que se cometem diariamente nos jornais e nos livros. Desse lado, nada havia a reprovar-lhe. Pregava com o exemplo.

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Poe é sempre correto. Fato bastante assinalável é que um homem de imaginação tão erradia e tão ambiciosa sei a ao mesmo tempo tão amoroso das regras, e capaz de análises estudiosas e de pacientes pesquisas. Dir-se-ia uma antítese feita carne. Sua glória de crítico prejudicou bastante sua fortuna literária. Muitos se quiseram vingar. Não houve censuras que não lhe lançassem mais tarde em rosto, à medida que sua obra se avolumava. Toda a gente conhece esta longa e banal ladainha [de acusações]: imoralidade, falta de ternura, ausência de conclusões, extravagância, literatura inútil.

Como poeta, Edgar Allan Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma joia de cristal. Edgar Allan Poe amava os ritmos complicados, e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda.

Como novelista e romancista, Edgar Allan Poe é único no seu gênero. Forma tudo um total de 72 trabalhos, mais ou menos. Há ali fanfarronices violentas, puro grotesco, aspirações desenfreadas para o infinito e uma grande preocupação pelo magnetismo.

O Espírito Literário de Poe

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Nele é atraente toda entrada em um assunto, sem violência, como um turbilhão. Sua solenidade surpreende e mantém o espírito alerta. Sente-se, desde o princípio, que se trata de algo grave. E lentamente, pouco a pouco, se desenrola uma história, cujo interesse inteiro repousa sobre um imperceptível desvio do intelecto, sobre uma hipótese audaciosa, sobre uma dosagem imprudente da Natureza no amálgama das faculdades.

O leitor, tomado de vertigem, é constrangido a seguir o autor em suas arrebatadoras deduções.

Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza; os ardores de curiosidade da convalescença; o morrer das estações sobrecarregadas de esplendores enervantes, os climas quentes, úmidos e brumosos, em que o vento do sul amolece e distende os nervos, como as cordas de um instrumento; a alucinação deixando, a princípio, lugar à dúvida, para em breve se tornar convencida e razoadora como um livro; o absurdo se instalando na inteligência e governando-a com uma lógica espantosa; a histeria usurpando o lugar da vontade, a contradição estabelecida entre os nervos e o espírito; e o homem descontrolado, a ponto de exprimir a dor por meio do riso.

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Analisa o que há de mais fugitivo, pondera o imponderável e descreve, com essa maneira minuciosa e científica, cujos efeitos são terríveis, todo esse imaginário que flutua em torno do homem nervoso e o impele para a ruína.

Geralmente, Edgar Allan Poe suprime as coisas acessórias, ou pelo menos não lhes dá senão um valor mínimo. Graças a esta sobriedade cruel, a ideia principal se torna mais visível e o assunto se recorta ardentemente, sobre esses segundos planos nus.

Quanto a seu método de narração, é simples. Abusa do eu com uma cínica monotonia. Dir-se-ia que está tão certo de interessar, que pouco se preocupa em variar seus meios. Seus contos são quase sempre narrativas ou manuscritos do personagem principal.

Quanto ao ardor com que trabalha muitas vezes no que é horrível, observei em muitos homens que isso se deve a uma imensa energia vital sem exercício, por vezes a uma castidade obstinada e também a uma profunda sensibilidade recalcada. A volúpia sobrenatural, que o homem pode experimentar em ver correr seu próprio sangue, os movimentos bruscos e inúteis, os grandes gritos lançados ao ar quase involuntariamente, são fenômenos análogos. A dor é um alívio para a dor, a ação repousa do repouso.

Poe, o Amor e as Mulheres

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Nos contos de Poe jamais se encontra amor. Talvez acreditasse ele que a prosa não é uma linguagem à altura desse estranho e quase intraduzível sentimento; porque suas poesias, em compensação, estão fortemente saturadas de amor. A divina paixão nelas aparece magnífica, constelada, e sempre velada por uma irremediável melancolia.

Nos seus artigos, fala algumas vezes de amor, como de uma coisa cujo nome faz a pena estremecer. No Domínio de Arnheim, afirmará que as quatro condições elementares da felicidade são: a vida ao ar livre, o amor de uma mulher, o desprendimento de qualquer ambição e a criação de um Belo novo.

O que corrobora a ideia da Sra. Frances Olsgood, referente ao respeito cavalheiresco de Poe pelas mulheres, é que, malgrado seu prodigioso talento para o grotesco e para o horrível, não há em toda a sua obra uma única passagem que se refira à lubricidade ou mesmo aos prazeres sensuais. Seus retratos de mulheres são, por assim dizer, aureolados; brilham em meio a um vapor sobrenatural e são pintados à maneira enfática de um adorador.

Em Edgar Allan Poe, não há choraminguices enervantes, mas por toda a parte, incessantemente, o ardor infatigável pelo ideal. Dir-se-ia que procura aplicar à literatura os processos da filosofia, e à filosofia o método da álgebra.

corvo caveira horror gotico

Nessa incessante ascensão para o infinito, perde-se um pouco o fôlego. Poe parece querer arrancar a palavra aos profetas e atribuir-se o monopólio da explicação racional. Assim, as paisagens que servem por vezes de fundo a suas ficções febris são pálidas como fantasmas. Poe, que não partilhava das paixões dos outros homens, desenha árvores e nuvens que se assemelham a sonhos de nuvens e de árvores, ou antes, que se assemelham a seus estranhos personagens, agitadas como eles, por um calafrio sobrenatural e galvânico.

Os personagens de Poe, ou melhor, o personagem de Poe, o homem de faculdades superagudas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, aquele cujo olhar está ajustado, com a rigidez duma espada, sobre objetos que crescem, à medida que ele os contempla — é o próprio Poe.

E suas mulheres, todas luminosas e doentes, morrendo de doenças estranhas e falando com uma voz que parece uma música, são ele ainda; ou pelo menos, por suas aspirações estranhas, por seu saber, por sua melancolia incurável, participam fortemente da natureza de seu criador.

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* Obs.: Alguns trechos da versão original foram editados, e a segunda parte (contendo a análise de alguns poemas de Poe) foi omitida.

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