Black Friday da Escravidão - a venda de escravos na costa africana | Conto | Fantástica Cultural

Artigo Black Friday da Escravidão - a venda de escravos na costa africana | Conto

Black Friday da Escravidão - a venda de escravos na costa africana | Conto

Por Paulo Nunes ⋅ 28 abr. 2023
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- Ei, ei, amigo portuga! Quer comprar uns escravos?

John Boyega no papel do Rei Ghezo de Daomé - cena do filme A Mulher Rei (2022)
John Boyega no papel do Rei Ghezo de Daomé - cena do filme A Mulher Rei (2022)

A África tem das suas. Quando os europeus tentaram pôr pé na costa africana pela primeira vez, os habitantes locais reconheceram de imediato que ali chegava encrenca. Os primeiros contatos foram, digamos, um tanto turbulentos. Marinheiros eram escorraçados a lanças e flechas, correndo em desespero de volta aos navios. Alguns capturados eram lançados aos leões. O aviso era bastante claro.

É verdade que estes primeiros encontros foram pouco produtivos, mas o homem branco persistiu, no nobre intuito de formar alianças pacíficas com os povos locais e conhecer, apenas por curiosidade, os tesouros da África. Ou talvez as razões fossem outras. Que sei eu?

Assim, em certa ocasião o homem branco aportou no Reino de Daomé, que mais tarde viria a se chamar Benim. Ali, estranhamente, descobriu-se que os europeus eram sempre bem recebidos. De fato, os reis locais mostravam-se amistosos com todos os estrangeiros de além-mar. Em pouco tempo, os europeus começaram a fazer comércio com Daomé.

Foi numa dessas ocasiões, logo nos primeiros anos de proveitosas trocas mercantis, que um comerciante português foi abordado por um tal de Koffi, amigo e conselheiro do rei de Daomé.

— Ei, ei, amigo branquelo! Quer comprar uns escravos?

— Perdão... O que disse?

— Quer comprar uns escravos? Fazemos um bom preço.

— Escravos? Confesso, não fazia ideia da existência de escravos por estas bandas.

— Ah, mas temos muitos! O que acha, senhorzinho? O que acha daqueles ali? — perguntou, apontando para um grupo de homens e mulheres aprisionados em um cerco de estacas. — São bem fortes. E as moças, que acha? Muito, muito formosas! E temos crianças também.

— Amigo, não sei o que lhe dizer...

— Ora, não seja mão de vaca, seu portuga! O senhor tem muitas fortunas, homem de grande prestígio! Sem dúvida merece esse luxo.

escravos acorrentados

— Não se trata de dinheiro. É que não temos mais esse costume na Europa há algum tempo... Alguns bárbaros e piratas, talvez, mas... Não sei se seria apropriado...

— Ah, senhorzinho, que vergonha, que vergonha! Ouvi falar muito dos grandes reis da Europa, das Ibérias, da grande nobreza dos brancos! Como pode ser que neguem este luxo? Aqui em Daomé todo homem de classe tem seus escravos, é o mínimo de que um aristocrata precisa! Você quer o quê, limpar o próprio chão? Não me diga que coloca sua nobre esposa a cozinhar para você, como uma mucama?

— Nós temos serviçais para isso. Assalariados.

— Bobagem! O serviçal que trabalho por dinheiro pode ir embora quando quiser, é sempre ingrato e desobediente. Sempre pedindo mais. Acha que é o chefe. O escravo não, o escravo é fiel. O bom escravo, você me entende. Mas é só saber como educá-los.

— Pode ser. Pode ser mesmo. É fato que os serviçais muitas vezes são insolentes. E alguns são desleais, trabalham para você durante anos, vivem às suas custas durante anos, e depois abandonam a família para trabalhar para alguém mais rico, ou pior, para o seu concorrente. Todo um investimento para nada.

— Exato, meu amigo! Exato!

— Mas... Veja, como cristão, não me parece certo privar um ser humano de liberdade.

— Ora, você não estaria fazendo tal coisa, meu senhor. Quem faz isso somos nós, você apenas compra. Nós somos cristãos, por acaso?

— Não, mas mesmo assim...

— Bobagem, bobagem! Esses homens e mulheres foram capturados, são propriedade agora. Você apenas compra o que já é produto. Que mal há nisso? Bom negócio para o branco, bom negócio para Daomé.

— Bem, sem dúvida seria um excelente negócio. Especialmente se eu os colocar para trabalhar nas plantações, nas terras de Brasil... Seria muito lucrativo.

— Oh, isso eu garanto! É o que fazemos aqui.

— Mas me intriga muito... Não lhe pesa a consciência capturar essa pobre gente? Famílias inteiras...

— Nem um pouco, amigo. De forma alguma. Apenas torturamos os que não se conformam, aqueles irritadinhos que ficam causando problemas. De resto, é uma vida tranquilo. Você trabalha para seu mestre, é alimentado, e não precisa se preocupar com nada!

— E as mulheres? Não costumam ser violadas?

— Ora, amigo! Não seja ingênuo! Elas certamente apreciam a atenção de seus mestres, eles são todos nobres e ricos senhores. De que outra forma atrairiam tão elevados companheiros?

— Não sei o que lhe dizer... Ainda acho algo desumano. Pense, por exemplo: você gostaria de estar no lugar deles? Caso tivesse nascido fora de Daomé?

— Que é isso, amigo? Que pensamento absurdo. Veja, eles não somos nós. Portanto, podemos fazer o que quisermos com eles, porque nós não estamos fazendo nada contra nós mesmos. É perfeitamente lógico.

escravidao na africa

— Sim, mas Daomé é um povo africano, e essa pobre gente... eles são outros povos africanos, exatamente como você.

— Mas eles não somos nós.

— Sim, mas... Se isso fosse feito a você, você não iria gostar.

— Claro que eu não iria gostar! Eu não sou idiota! Mas já lhe disse, senhorzinho, eu não sou eles. Os outros, nós podemos escravizar, porque eles não somos nós. Qual parte o senhor não entende?

— Eu acho que entendo...

— Branquelos são muito estranhos. Pensam estranho.

— Talvez. Mas se eu começar a comprar escravos para trabalhar nas plantações, logo Daomé não terá como suprir a demanda. Meu negócio via explodir. E logo virão outros comprar também, para competir comigo.

— Assim espero! Quanto dinheiro o branco tem?

— Eu tenho apenas uma pequena fortuna. Mas como disse, se eu comprar escravos, vou baratear minha produção, e os concorrentes farão o mesmo. Logo você terá milhares de clientes aqui vindos do mundo todo.

— E todos seremos mil vezes mais ricos! Fique tranquilo, amigo pálido! A mãe África tem infinitos escravos para colhermos. Os árabes de tempos em tempos aparecem querendo homens fortes e mulheres vultosas para comprar. Nós pedimos um prazo, coletamos os espécimes e vendemos em pacotes muito lucrativos. Excelente negócio. Se o branco aparecer precisando de cem, capturamos cem. Se precisar de mil, capturamos mil. E não banque o bobo: em grandes quantidades, podemos negociar descontos inacreditáveis!

— Certo, você tem uma proposta tentadora... Vou pensar no caso. Seria muito lucrativo, de fato. Mas confesso que, no quesito moral, estou em dúvida ainda. Pretendo consultar a opinião do bispo a esse respeito.

— Claro, meu amigo, fique à vontade! Como quiser! Mas tenho um pressentimento aqui cá comigo que seus curandeiros da cruz não farão oposição.

Em poucos anos, o tráfico negreiro para o Brasil iria de vento em popa para os nobilíssimos empreendedores portugueses e brasileiros, com o aval do próprio papa para a escravização exclusiva de pessoas da raça negra. Por alguma razão, o papa entendeu por bem que o teor de melanina era critério importante e legítimo na determinação dos direitos civis. Muita melanina, por óbvio, removia os direitos de uma pessoa. Por alguma razão ainda a ser determinada.

E enquanto os empresários brasileiros (e o governo, através dos impostos) enriqueciam com o trabalho escravo, assim como outras tantos em outros países, a excelentíssima aristocracia do Reino de Daomé ordenava a seu exército que caçasse famílias inteiras pelas redondezas africanas, acorrentando os rendidos, para vender, e assassinando os que se recusassem à submissão.

Os escravocratas africanos contemplavam com deleite as colinas de ouro acumuladas com seus negócios transcontinentais, fruto do abastecimento de capital humano aos europeus, americanos e muçulmanos, enquanto suas escravas lhes abanavam com folhas de palmeira e, ocasionalmente, atendiam a suas justíssimas demandas sexuais.

O negócio permaneceu lucrativo por séculos. As tribos africanas mais vulneráveis, com menos recursos, eram as melhores presas: fonte confiável de riqueza e lucro para o glorioso Reino de Daomé, em em seguida para seus fiéis clientes. E lá se iam homens, mulheres e crianças nos navios do terror, a cruzar o Atlântico.

E esta é a história de uma das primeiras alianças entre os brancos e os negros: o mercado escravocrata.


trafico negreiro

foto do autor

Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador




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