O Estado não irá nos salvar: o que Capitalismo e Comunismo têm em comum? | Fantástica Cultural

Artigo O Estado não irá nos salvar: o que Capitalismo e Comunismo têm em comum?

O Estado não irá nos salvar: o que Capitalismo e Comunismo têm em comum?

Por Paulo Nunes ⋅ 16 ago. 2022
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Quem será que está nos oprimindo? A natureza, o capitalismo ou o Estado?

piramide das opressoes capitalismo comunismo 2

As pessoas são engraçadas. Em algum momento na história recente, surgiu a ideia de que a única forma de vida aceitável para o ser humano seria aquela absolutamente livre de sofrimento.

Popularizou-se, da mesma forma, a estranha crença de que é papel do Estado erradicar toda e qualquer inconveniência na vida do cidadão, como se tal milagre não exigisse as capacidades de um Deus supremo. E nessa mesma linha de pensamento, tornou-se comum acreditar que qualquer obstáculo à felicidade humana é culpa de alguém — do governo, dos adversários políticos, do sistema econômico.

Essas ideias parecem ter se difundido a partir do Iluminismo, provenientes de uma aplicação torta do racionalismo: se os iluministas defendiam que o ser humano pode e deve alterar a realidade para melhorar suas condições de vida e maximizar a justiça na sociedade, muitos passaram a crer que tudo no mundo é passível de transformação pelo homem, como se todo aspecto da natureza fosse resultado de uma decisão racional e política. E a consequência disso, como vemos hoje, é a politização de tudo.

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É especialmente entre os radicais de esquerda, progressistas ou marxistas, que se observa a politização absoluta da vida. "Meu corpo é político", "o amor é político", "o sexo é político", "ser mulher é um ato político", etc. De um ponto de vista psicológico, é fácil notar que se trata de um pensamento fixo, doentio, típico de fanáticos religiosos, extremistas ideológicos e outros dogmatistas.

Frente à complexidade irredutível da realidade, enxergar tudo pelas lentes de uma disputa político-ideológica é, sem dúvida, uma visão de cabresto. É uma simplificação grosseira da realidade. Diante das inumeráveis dimensões da natureza que determinam a vida humana (todas as leis físicas do universo, conhecidas ou não; os bilhões de anos de evolução das espécies, que conectam o homem a todas as formas de vida do planeta, desde sua constituição biológica fundamental; as profundezas ainda incompreensíveis da consciência e das capacidades cognitivas), limitar o entendimento do mundo à agenda político-ideológico da década atual e de nossa nação é um sinal de profunda ignorância. É estar diante de uma paisagem, e não enxergar nada para além de um metro.

A política é apenas um dos aspectos da realidade humana. Por definição, política é a tomada de decisões coletivas, via negociação ou imposição. O que o homem não pode controlar, portanto, está além do escopo político. Proibir que chova, por exemplo, tende a não dar resultados.

manifesto comunista dinheiro

Mas, como dito há pouco, tornou-se comum acreditar que todos (ou quase todos) os aspectos negativos da vida humana estão conectados à política, e que são culpa de alguém. Assim, qualquer sociedade que não garanta satisfação absoluta a todos os cidadãos poderá ser rotulada de injusta ou opressora.

O índio, em seu modo de vida original, não acredita que caçar para comer é uma obrigação imposta pelo sistema econômico opressor da tribo. Não, ele sabe que, como todo ser vivo, precisa empregar esforço para sua sobrevivência. E só existe um meio de o ser humano viver sem empregar esforço: extraindo os benefícios do esforço de terceiros. Como no caso da escravidão.

Com a disseminação das teorias marxistas e de suas variantes, entretanto, a mera ideia de trabalhar passou a ser associada a opressão (o que, por necessidade, implica a existência de um opressor). Há inclusive um movimento denominado antiwork (antitrabalho). Karl Marx não era de forma alguma contrário ao trabalho, na verdade: em sua concepção da sociedade ideal, todos precisariam trabalhar para manter a prosperidade coletiva. Assim, não é surpresa que em regimes comunistas o cidadão que se recusa a servir ao coletivo é visto como parasita. Este servir, é claro, dá-se na forma de trabalho compulsório.

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Tweet: "Qual será seu emprego na comuna esquerdista? Eu conduzirei discussões teóricas alguns dias, farei roupas com trapos outros dias, e farei café com leite a qualquer hora que precisar." Veja os destaques mais absurdos deste trending do Twitter.

Estranhamente, grande parte dos socialistas de hoje sonham com um comunismo muito diferente daquele concebido por Marx. Nas fantasias desses indivíduos, eles poderão trabalhar quando quiserem e na atividade que preferirem. Essa ideia é por si só anticoletivista (isto é, individualista), e antimarxista: no coletivismo, é obrigação do cidadão servir ao coletivo trabalhando naquilo que o coletivo precisa, e não segundo suas preferências e caprichos.

Por exemplo: se falta gente para produzir martelos, ou para plantar batatas, é para aí que o indivíduo será deslocado, e as horas de trabalho necessárias serão tantas quantas o coletivo precisar. E não é assim apenas na teoria. Nos países que se declararam comunistas, como a União Soviética ou Cuba, esta é a regra observada.

Isso porque, na prática, os regimes de esquerda não são capazes de implantar a utopia da prosperidade sem trabalho duro. É claro que, nos países democráticos, os partidos de esquerda muitas vezes rotulam o trabalho como exploração; mas nos Estados ditos comunistas, a única maneira de evitar o colapso total da sociedade é forçando a população ao trabalho — agora explorada pelo governo, em nome do coletivo.

Não há como escapar da realidade: o ser humano precisa comer, e a obtenção de alimento requer trabalho. O mesmo vale para todas as necessidades que temos: tudo requer esforço. O sistema econômico (capitalismo, comunismo, ou qualquer outro) não alterará essa necessidade básica. Alguém precisará plantar; alguém precisará trabalhar na fábrica; alguém precisará ligar os fios e consertar os canos. E se todas essas funções forem transferidas para as máquinas, alguém precisará supervisionar a construção dos robôs; alguém precisará programá-los; alguém precisará lidar com o financeiro.

O indivíduo, assim, não pode escapar do trabalho (exceto se parasitar outros indivíduos). O máximo que poderá escolher (se puder escolher) é o tipo de relações laborais de sua preferência:

1) Autossustento:

esquimo

A pessoa trabalha na produção direta daquilo de que necessita (como um fazendeiro que come o que planta, por exemplo). Esta opção é a que permite maior independência, pois vários dos serviços e insumos consumidos pelo indivíduo estão sob seu controle. Apesar da autonomia, o autossustento tende a limitar as opções de vida de alguns indivíduos, devido ao imperativo de ocupar seu tempo com funções de sobrevivência básica. A acumulação de riqueza é bastante dificultada, em geral, pois o foco na produção para consumo direto é incompatível com as técnicas de produção eficiente e geração massiva de benefícios.

2) Comunismo:

fabrica de armas sovietica

A pessoa trabalha servindo ao Estado, sendo direcionada para as tarefas que lhe forem designadas, em funções mais ou menos especializadas. Este arranjo coloca o indivíduo em maior dependência do coletivo, ou mais especificamente, das decisões de Estado, e reduz suas opções de vida, exigindo-lhe subserviência inegociável. Para alguns indivíduos, a redução da autonomia e o dirigismo estatal podem proporcionar maior conforto e a sensação de segurança por "ser cuidado", ainda que isso os deixe indefesos no caso de falha do sistema. A possibilidade de acumulação de riqueza é inexistente (esforço pessoal, escolhas inteligentes e circunstâncias fortuitas não interferem na prosperidade das pessoas), exceto para membros do partido no poder.

3) Livre mercado:

feira mercado

A pessoa trabalha por conta própria, como empreendedora, ou em parceria com empresas, como funcionário, em funções mais ou menos especializadas. Neste caso, a independência é relativa, pois os indivíduos precisam agir em coordenação coletiva. No mercado, são as relações voluntárias, negociadas, que proporcionam prosperidade. O empregado aceita uma subserviência negociada ao patrão, assim como a empresa ou o trabalhar autônomo aceitam a subserviência negociada ao cliente. Este arranjo é o que garante maior liberdade e mais opções, com o maior potencial de acumulação de riqueza (devido a esforço pessoal, escolhas inteligentes e circunstâncias fortuitas).

Obviamente, outros arranjos econômicos são possíveis, mas esses três são hoje os mais relevantes. Note que as acusações contra o capitalismo feitas pela esquerda política apontam para fatores encontrados em qualquer sistema político-econômico:

  • Imperativo de trabalhar (para alguém). Quem não trabalha de forma autossuficiente, para si mesmo, trabalha para o Estado, para um patrão ou para um cliente.
  • Falibilidade do sistema. Nenhuma sociedade é imune a crises, fome, guerras, pandemias, etc.
  • Desigualdade na acumulação de capital. Nenhum sistema político-econômico no mundo real foi capaz de solucionar a desigualdade financeira (e de privilégios) entre a classe governante e as demais.
  • Limitações à liberdade. O indivíduo sempre precisa limitar-se em alguma medida — seja para ser aceito em sociedade, adequando-se às expectativas dos outros, seja para adaptar-se à natureza.
  • Competição. Havendo humanos, sempre há algum tipo de disputa, seja pelos melhores cargos, seja pelas boas graças dos superiores, por mais riqueza, por status, por parceiros, etc. Crianças desde os primeiros anos já competem entre si, meninos e meninas, e pelas mais diversas razões. Até mesmo em um regime comunista, há competição pela distribuição dos recursos públicos: cada setor de uma instituição, por exemplo, pode competir com os demais para obter verba.
  • Hierarquia. Assim como nem todo indivíduo desempenha a mesma função, em qualquer modelo econômico, também é natural que nem todos irão liderar, visto ser esta apenas uma das funções possíveis. Ao contrário do que almejam os anarcocomunistas, nenhum empreendimento ou instituição funciona adequadamente sem uma hierarquia. E, por óbvio, nenhum país que tentou o comunismo alcançou a "fase final" idealizada por Marx, em que "o Estado desapareceria".
  • Classe social dominante. Sejam os políticos, seja a aristocracia, sejam as corporações, o Exército, o partido, há sempre um grupo com mais poder de barganha política do que os demais. Esta assimetria de poder é a causa de incontáveis injustiças, mas o fato é que nenhum arranjo político-ideológico logrou superar tal fenômeno.
  • Corrupção, ganância, egoísmo e falhas da Justiça. Por óbvio, toda sociedade é composta por humanos, criaturas falhas e muitas vezes antiéticas. Assim, nenhum sistema político-econômico está livre de injustiças e imoralidades.
  • Violência e repressão estatal. A violência é outro fator inevitável entre os seres humanos em todas as épocas e culturas, jamais tendo sido erradicada em nenhuma sociedade. E não existe Estado que não precise, em algum momento, usar de seu monopólio da violência para fazer valer suas leis.

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Península coreana vista à noite: a Coreia do Norte, de governo totalitário comunista, e a Coreia do Sul, de orientação mais liberal e capitalista.

E ainda assim, não se pode argumentar contra preferências. Há quem preferiria viver sob total controle do Estado, para maximizar a igualdade. Há quem aceitaria que toda a população vivesse apenas um palmo acima do limite da pobreza, se isso garantisse uniformidade de renda. Há quem, se pudesse escolher, teria nascido em plena União Soviética.

Mas para além das preferências, está na hora de aposentar o raciocínio infantilizado de que toda inconveniência da vida é produto do sistema político-econômico. O homem é falho e limitado, e o Estado ainda mais. Muito se ganharia se, em vez de esperarmos por soluções estatais, paridas lentamente pela burocracia da máquina pública e deformadas pelos interesses da classe política e seus financiadores, transferíssemos a expectativa de mudanças para nós mesmos, concretizando na trajetória de nossas vidas o progresso civilizacional que almejamos (na medida da capacidade de cada um).

E não se engane: quando tentamos definir o capitalismo, percebemos que todos os seus componentes são naturais à liberdade humana, e resultado inevitável das interações livres entre as pessoas, estando presente em todas as civilizações que ultrapassaram a fase de caçadores-coletores.

Duvida? Vejamos as propriedades do capitalismo: livre mercado com comércio e empreendedorismo; propriedade privada; propriedade de terras; livre associação de trabalhadores, empresários e clientes; presença de dinheiro; práticas visando ao lucro; atuação de bancos; e acumulação de capital. Agora veja como são princípios universais em todas as civilizações:

vendedor de carpete arabe

O comércio — isto é, a associação livre entre quem quer produzir, trabalhar, comprar — existe desde a pré-história, florescendo na medida em que a propriedade privada dos indivíduos é respeitada. A propriedade privada, por sua vez, é uma noção inata ao ser humano ("isto é meu", "aquilo é seu"), sendo observável inclusive entre animais — de forma instintiva, não racional. E até mesmo animais operam dentro dos pressupostos da propriedade de terras, protegendo seus territórios. Já o empreendedorismo, com ou sem este nome, sempre andou lado a lado com o comércio, quando as pessoas percebiam que podiam acumular riqueza e produzir lucro. As práticas bancárias, embora pareçam algo à parte, não são mais do que outra forma de empreendimento, em que as partes operam em livre acordo para benefício mútuo, não sendo ninguém obrigado a nada — para não mencionar que os bancos já existiam desde a Idade Média, quando, em tese, não deveria haver capitalismo. O dinheiro, naturalmente, existe desde a Antiguidade, não sendo mais do que um facilitador na transferência de capital. E o capital, cujo termo serve de raiz para "capitalismo", também sempre existiu: capital nada mais é do que um recurso em potencial, que pode ser mobilizado (por exemplo: capital financeiro, capital humano, capital intelectual, capital de reputação, capital imobiliário, etc.). Capital, portanto, é algo tão antigo quanto a espécie humana.

Assim, quase todas as características do que se decidiu chamar de "capitalismo" são propriedades da própria humanidade — fenômenos que irrompem na medida em que as civilizações evoluem, e que só podem ser evitados pela força coercitiva do Estado. Não é à toa que, hoje, a única maneira de prevenir as práticas capitalistas no mundo é a repressão.

E isso torna todo anticapitalista um defensor do autoritarismo, e um inimigo da liberdade natural humana.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador



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