
E ste texto não é partidário. Ao contrário, trata-se de dar alguns passos atrás e observar, com certa distância e melhor perspectiva, o que é, afinal, esquerda e direita, e onde de fato encontramos o conservadorismo e o progressismo, antes de fazermos qualquer julgamento.
O que descobrimos, ao assim proceder, pode gerar confusão, revolta e negação: a esquerda é uma invenção histórica recente, e quase todos os povos e civilizações foram, ou ainda são, socialmente conservadores.
Essa noção tende a ser aceita ou rejeitada por intelectuais de esquerda a depender do contexto e das implicações.
Por exemplo: no pensamento progressista, é consenso que a era vitoriana foi ultraconservadora e que isso é algo repreensível, devido à castração das liberdades individuais e às rígidas normas e punições. Quando se fala em opressão patriarcal, escutamos outros exemplos em outros períodos históricos, mas quase nunca de culturas não europeias.
A imposição das tradições, porém, ocorre em quase todas as culturas do mundo durante a história. Isso inclui normas sociais restritas de gênero e de classe social.
Em sociedades menos complexas, como as tribos — dos nativos das Américas às comunidades tradicionais africanas —, a separação de classe quase inexiste, mas a divisão de papéis entre homens e mulheres é estrutural e fundamenta a próprio funcionalidade e sobrevivência desses grupos. E as exceções que podem ser citadas confirmam a regra: nessas sociedades, impera o conservadorismo.
O mesmo pode ser dito das culturas árabes e dos povos asiáticos em geral. Apesar de variações nas normas (por exemplo, família nuclear vs. poligamia masculina), o que define o conservadorismo é o imperativo da tradição coletiva sobre os desvios de preferências individuais.
Nesses contextos, todos são oprimidos — para usar o termo progressista — pela estrutura social. Como o próprio feminismo, ora ou outra, preocupa-se em salientar, também o homem pode sofrer sob uma ordem social patriarcal e restritiva.
Eis o problema: boa parte das pessoas se adequa bem às imposições sociais conservadoras, e encontra nelas benefícios, como posicionamento claro na comunidade (maior robustez na construção da identidade, ainda que dependente de modelos prontos), valor reconhecido pelo papel desempenhado, menor ambiguidade nas escolhas de vida, participação comunitária pró-social e senso de propósito comum. Mas outra parte dos indivíduos não se adapta, ou é forçada a se adaptar à força — uma fricção permanente nas sociedades humanas.
No passado, e ainda hoje diversos contextos, o desvio das expectativas sociais precisava ser mascarado sob a aparência de conformidade. Exemplos bem conhecidos incluem homens homossexuais que se casavam com mulheres, devido à pressão social; clérigos e até papas envolvidos em práticas sexuais, incluindo orgias, mas buscando mantê-las em segredo; ou pensadores com ideias ou descobertas heréticas, que se autocensuravam para evitar punições.
Todo ser humano tem impulsos individualistas, contrários às expectativas do coletivo, e valores morais compartilhados com o grupo, que deseja ver impostos sobre transgressores. Há um lado conservador e um lado progressista em toda pessoa.
Até mesmo o mais progressista dos intelectuais apresenta crenças e comportamentos conservadores em diversos aspectos de sua vida, recusando-se a romper tradições (para ele, métodos bem conhecidos) e aceitar ideias que desviem demais de sua experiência. E até o mais conservador dos pastores pode dissolver sua família e divorciar-se para casar com uma mulher mais jovem e mais bonita, contrariando os princípios que prega diariamente.
O que é notável é que, até a Revolução Francesa, a organização política de quase todas as sociedades era conservadora, relegando os desvios ao indivíduo, às sombras e às margens.
A entrada do progressismo, isto é, da esquerda, na arena política foi consequência direta das ideias iluministas, em especial a crença de que poderíamos recriar o mundo e redesenhar a sociedade conforme nossas preferências, desafiando a ordem natural tomada até então como invencível (de forma geral, é claro; Platão já idealizava sua bizarra República na Antiguidade).
A partir da invenção da engenharia social, originaram-se as três vertentes ideológicas mais influentes dos últimos cento e tantos anos: a democracia liberal, o socialismo/comunismo e o fascismo.
O que essas três correntes têm em comum, além da teorização e implementação de uma "sociedade ideal" para seus idealizadores, é o fator disruptivo: tanto comunistas quanto fascistas buscavam uma transformação radical da sociedade, prontos a lançar ao lixo da história qualquer tradição (ou conservadorismo) que não lhes servisse. A democracia liberal também facilita o desmantelamento das tradições e dos valores conservadores, mas sem o uso de métodos extremos.
Portanto, a associação comum entre conservadorismo e fascismo é politicamente miópica: o conservadorismo pode ser tirânico, como o fascismo, mas muitas vezes não o é; ao mesmo tempo, outros sistemas políticos como o comunismo operam na base da violência ou ameaça de violência, impondo valores e comportamentos altamente restritivos, ainda que se declarem anticonservadores.
Uma vez livre dos óculos ideológicos que distorcem a realidade, é possível observar que as tribos indígenas são conservadoras; as tribos africanas são conservadoras; os muçulmanos são conservadores; os budistas são conservadores — mas seu conservadorismo quase nunca é alvo de crítica, frequentemente sendo celebrado pela esquerda.
Uma sociedade saudável mantém sempre um pé atrás, firme no passado e pronto para sustentar o corpo inteiro, e um pé para frente, arriscando um novo passo à procura de um bom caminho para o futuro da humanidade. E cada pé entende e respeita o papel do outro, cada qual seguindo sua vocação.
Há momentos para parar e aguardar; e há momentos para seguir em frente. Alguns caminhos são prodigiosos; outros catastróficos.
Quando os pés decidem lutar, porém, cada qual buscando a aniquilação do outro, toda a civilização entra em crise. A democracia falha e a sociedade colapsa em guerras civis ou em totalitarismo.
E pelo jeito, estamos caminhando para lá.