Dia após Dia - Clarice Lispector | Conto Completo | Fantástica Cultural

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Dia após Dia - Clarice Lispector | Conto Completo

Autores Selecionados ⋅ 25 nov. 2023
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Hoje é dia 13 de maio. É dia da libertação dos escravos. Segunda-feira. É dia de feira livre.

Este conto é parte do livro A Via Crucis do Corpo.


Hoje é dia 13 de maio. É dia da libertação dos escravos. Segunda-feira. É dia de feira livre. Liguei o rádio de pilha e tocavam Danúbio Azul. Fiquei radiante. Vesti-me, desci, comprei flores em nome daquele que morreu ontem. Cravos vermelhos e brancos. Como eu tenho repetido à exaustão, um dia se morre. E morre-se em vermelho e branco. Você também pode gostar: Leia na Fantástica os Melhores Contos de Clarice Lispector O homem que morreu era um puro: trabalhava em prol da humanidade, avisando que a comida no mundo ia acabar. Restou Laura, sua mulher. Mulher forte, mulher vidente, de cabelos pretos e olhos pretos. Daqui a dias vou visitá-la. Ou pelo menos falar com ela ao telefone.

Ontem, dia 12 de maio, Dia das Mães, não vieram as pessoas que tinham dito que vinham. Mas veio um casal amigo e saímos para jantar fora. Melhor assim. Não quero mais depender de ninguém. Quero é Danúbio Azul. E não Valsa Triste de Sibellius, se é que é assim que se escreve o seu nome.

Desci de novo, fui ao botequim de seu Manuel para trocar as pilhas de meu rádio. Falei assim para ele:

— O senhor se lembra do homem que estava tocando gaita no sábado? Ele era um grande escritor.

— Lembro sim. É uma tristeza. É neurose de guerra. Ele bebe em toda a parte. Fui embora.

Quando cheguei em casa uma pessoa me telefonou para dizer-me: pense bem antes de escrever um livro pornográfico, pense se isto vai acrescentar alguma coisa à sua obra. Respondi:

— Já pedi licença a meu filho, disse-lhe que não lesse meu livro. Eu lhe contei um pouco as histórias que havia escrito. Ele ouviu e disse: está bem. Contei-lhe que meu primeiro conto se chamava "Miss Algrave". Ele disse: "grave" é túmulo. Então lhe contei do telefonema da moça chorando que o pai morrera. Meu filho disse como consolo: ele viveu muito. Eu disse: viveu bem.

Mas a pessoa que me telefonou zangou-se, eu me zanguei, ela desligou o telefone, eu liguei de novo, ela não quis falar e desligou de novo.

Se este livro for publicado com mala suerte estou perdida. Mas a gente está perdida de qualquer jeito. Não há escapatória. Todos nós sofremos de neurose de guerra.

Lembrei-me de uma coisa engraçada. Uma amiga que tenho veio um dia fazer a feira aqui defronte de minha casa. Mas estava de short. E um feirante gritou-lhe:

— Mas que coxas! que saúde!

Minha amiga ficou danada da vida e disse-lhe:

— Vá dizer isso para aquela que o pariu! O homem riu, o desgraçado.

Pois é. Sei lá se este livro vai acrescentar alguma coisa à minha obra. Minha obra que se dane. Não sei por que as pessoas dão tanta importância à literatura. E quanto ao meu nome? que se dane, tenho mais em que pensar.

Penso por exemplo na amiga que teve um quisto no seio direito e curtiu sozinha o medo até que, quase nas vésperas da operação, me disse. Ficamos assustadas. A palavra proibida: câncer. Rezei muito. Ela rezou. E felizmente era benigno, o marido dela me telefonou dizendo. No dia seguinte ela me telefonou contando que não passara de uma "bolsa de água". Eu lhe disse que de outra vez arranjasse uma bolsa de couro, era mais alegre.

Com a compra das flores e a troca de pilhas, estou sem um cruzeiro em casa. Mas daqui a pouco telefono para a farmácia, onde me conhecem, e peço que me troquem um cheque de cem cruzeiros. Assim se pode fazer a feira.

Mas sou sagitário e escorpião, tendo como ascendente Aquário. E sou rancorosa. Um dia um casal me convidou para almoçar no domingo. E no sábado de tarde, assim, à última hora, me avisaram que o almoço não podia ser porque tinham que almoçar com um homem estrangeiro muito importante. Por que não me convidaram também? por que me deixaram sozinha no domingo? Então me vinguei. Não sou boazinha. Não os procurei mais. E não aceitarei mais convite deles. Pão pão, queijo queijo.

Lembrei-me que numa bolsa eu tinha cem cruzeiros. Então não preciso mais telefonar para a farmácia.

Detesto pedir favor. Não telefono para mais ninguém. Quem quiser que me procure. E vou me fazer de rogada. Agora acabou-se a brincadeira.

Vou daqui a duas semanas a Brasília. Pronunciar uma conferência. Mas — quando me telefonarem para marcar a data — vou pedir uma coisa: que não me festejem. Que tudo seja simples. Vou me hospedar num hotel porque assim me sinto à vontade. O ruim é que, quando leio uma conferência, fico tão nervosa que leio depressa demais e ninguém entende. Uma vez fui a Campos de táxi-aéreo e fiz uma conferência na universidade de lá. Antes me mostraram livros meus traduzidos para Braille. Fiquei sem jeito. E na audiência havia cegos. Fiquei nervosa. Depois havia um jantar em minha homenagem. Mas não aguentei, pedi licença e fui dormir. De manhã me deram um doce chamado chuvisco que é feito de ovos e açúcar. Comemos em casa chuvisco durante vários dias. Gosto de receber presente. E de dar. É bom. Yolanda me deu chocolates. Marly me deu uma sacola de compras que é linda. Eu dei para a filha de Marly uma medalhinha de santo de ouro. A menina é esperta e fala francês.

Agora vou contar umas histórias de uma menina chamada Nicole. Nicole disse para o seu irmão mais velho, chamado Marco: você com esse cabelo comprido parece uma mulher. Marco reagiu com um violento pontapé porque ele é homenzinho mesmo. Então Nicole disse depressa:

— Não se incomode, porque Deus é mulher!

E, baixinho, sussurrou para a mãe: sei que Deus é homem, mas não quero apanhar!

Nicole disse para a prima, que estava fazendo bagunça na casa da avó: não faça isso, porque uma vez eu fiz e vovó me deu um soco que eu desmaiei. A mãe de Nicole soube disso, repreendeu-a. E contou a história para Marco. Marco disse:

— Isso não é nada. Uma vez Adriana fez bagunça na casa da vovó e eu lhe disse: não faça isso porque eu fiz isso uma vez e vovó me bateu tanto que dormi cem anos.

Eu não disse que hoje era dia de Danúbio Azul? Estou feliz, apesar da morte do homem bom, apesar de Cláudio Brito, apesar do telefonema sobre a minha desgraçada obra literária. Vou tomar café de novo.

E Coca-Cola. Como disse Cláudio Brito, tenho mania de Coca-Cola e de café.

Meu cachorro está coçando a orelha e com tanto gosto que chega a gemer. Sou mãe dele. E preciso de dinheiro. Mas que Danúbio Azul é lindo, é mesmo.

Viva a feira livre! Viva Cláudio Brito! (Mudei o nome, é claro. Qualquer semelhança é mera coincidência).

Viva eu! que ainda estou viva.

E agora acabei.

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