
R esposta: porque não existe incentivo, não existe talento e não existe paixão. É muito mais simples do que parece, e em poucos instantes você vai entender (e lamentar) a situação do cinema brasileiro, que tem pouco de cinema e talvez menos ainda de brasileiro.
O fato mais evidente no mercado de filmes brasileiro é a completa desconexão entre quem produz filmes e quem assiste. Os filmes aqui não são feitos para o brasileiro médio. A maior parte das pessoas, com ou sem ensino superior (porque grau de educação é fator relevante nesse caso), assiste a filmes estrangeiros, em sua maioria norte-americanos. E por que isso ocorre?
O cineasta brasileiro faz filme para si mesmo e para a elite intelectual no país. (Sim, elite intelectual. Cada país tem os intelectuais que merece, e o Brasil jogou pedra na cruz).
Mas como o cineasta brasileiro consegue verba?
Como o governo, obviamente. O dinheiro é dos outros; é você quem paga. Resta saber: por que o governo custeia filmes (ou abate impostos para custear filmes) que, sabidamente, o povo brasileiro não vai assistir?

A máquina do Estado nada produz que não seja com o dinheiro que extrai da sociedade. Como ela extrai o quanto lhe convém, à base da força, sua irresponsabilidade ao lidar com a verba pública é notória em todos os países do mundo, desde o início dos tempos. São os incentivos naturais: o que é obtido sem esforço, a mando de lei, é tratado com absoluto descaso.
Como o objetivo principal do Estado é subsidiar as elites que se alimentam de seus privilégios, qualquer produção artística financiada direta ou indiretamente pelo Estado corre o risco de ser propaganda ideológica. Sabe-se que é assim na China totalitária de hoje, assim como nos casos mais escrachados, como na União Soviética, na Itália fascista e na Alemanha hitlerista. Mas nas democracias dá-se o mesmo. Aqui, o nome é Lei Rouanet.
Quem recebe financiamento? Uma comissão decide. Ela não é neutra, tampouco se preocupa com arte e cultura. Ela tem favorecidos... e tem inimigos. Soa familiar?
Assim, os filmes brasileiros celebrados pelos intelectuais são os ideologicamente comprometidos. Os que põem a doutrina acima da história; os que bebem da crença de que o político tem precedência sobre o humano.

Enquanto Shakespeare tratava na natureza humana e de suas dinâmicas sociais, assim como tantos outros mestres da literatura e da arte narrativa, como Machado de Assis, com suas críticas sociológicas com que qualquer um pode concordar, um cineasta ativista não se interessa pela humanidade das pessoas, e sim pela luta pelo poder, em termos francamente marxistas: opressores e oprimidos.
E enquanto algumas produções são ideologicamente socialistas, mas com mensagem mais sutil (como Aquarius e Casa Grande, por exemplo), outras são mais óbvias e diretas. Seus temas preferidos são a ditadura militar e a miséria do povo.
No caso da ditadura, temos pérolas incontáveis, como Marighella, O Agente Secreto, Ainda Estou Aqui, Araguaya — A Conspiração do Silêncio, produções recentes cujo objetivo político é evidente: fazer propaganda política associando políticos e partidos contemporâneos com o período ditatorial. O tema alegra os intelectuais, e os aspirantes a intelectuais (estudantes, jovens "conscientizados"), pois os faz crer que são heróis em uma batalha contra o mal — o fascismo está chegando, Voldemort na liderança, e a Grifinória precisa lutar bravamente.

Será que se faz necessário lembrar que os revolucionários comunistas do período militar, inspirados e movidos pelo modelo soviético, desejavam implantar um regime totalitário infinitamente mais opressor do que a bananada incompetente dos ditadores brasileiros?
Sim, imagino que sim. Então vamos lá: os "heróis" guerrilheiros queriam implantar no Brasil um modelo stalinista, leninista ou trotskista, a depender da denominação do meliante. Se tivessem obtido sucesso, o país teria ido de péssimo para infernal.

O segundo ponto é a tara dos intelectuais pela pobreza. Cidade de Deus, Carandiru, Terra em Transe, Bacurau — a estética da absoluta miséria humana tem um apelo grotesco entre o público "socialmente consciente", como se testemunhar desgraça os tornasse pessoas mais virtuosas. São os socialistas de champanhe: em seus apartamentos decorados, no conforto do ar-condicionado, derramam lágrimas pelo povo oprimido, bebericando seu latte com leite de soja e um toque de menta, e protestam no X contra pessoas mais ricas que eles.
Mas há as incontáveis exceções.
De quando em quando algo bom, original e voltado para o grande público é lançado, como O Auto da Compadecida, por exemplo. Até mesmo o primeiro Tropa de Elite, apesar de seus temas sociais brutais, é um filme interessado na realidade humana dos personagens, em seus pontos de vista diversos e suas ações extremas, sem pregar ideologias.

E existem as banalidades de baixa verba: filmes não politizados, um tanto apelativos, que o público brasileiro às vezes se convence de que gosta, mas que não teriam chance no mercado internacional — porque são filmes fracos, e seu valor para o brasileiro é tão somente o fato de se passarem no Brasil, com celebridades nacionais.
Houve um tempo em que se tentou criar uma indústria de filmes de entretenimento, artísticos ou não, no Brasil. Os filmes dos Trapalhões vêm à mente. Mas a economia brasileira é um desgraça para produtoras sem verba pública, e a concorrência internacional é imbatível. Restam produções da Globo, com suas fórmulas há décadas desgastadas, e outras tentativas despretensiosas de acumular alguma bilheteria.
O resultado, hoje, é que ninguém que realmente ama cinema, que tenha paixão pela criação de filmes, poderá ter sucesso em uma carreira de cineasta no Brasil.
Em seu lugar, são diretores e roteiristas de talento duvidoso, mais preocupados com política do que com arte, que têm seus projetos realizados. É por isso que os gêneros de filmes brasileiros são tão limitados: os ideológicos, geralmente financiados pelo governo, configuram-se em drama social, biografia distorcida ou drama histórico falsificado. De resto, tem-se comédias, romances e dramas de baixíssima qualidade, sem substância, de que ninguém se lembra porque nada contribuem ou acrescentam à cultura. Exceções à parte, a regra infelizmente é essa.
Enquanto isso, outros países angariam filmes de sucesso internacional, competindo com o mercado norte-americano da única forma possível: com histórias que as pessoas querem de fato assistir.
Porém…

Em sites como o IMDb, que agregam a avaliação do público para filmes, podemos nos deparar com uma nota 7,3 para O Agente Secreto, 8,1 para Ainda Estou Aqui e 7,1 para Marighella. Certamente, são filmes maravilhosos, não?
Não. Quem vota nesses filmes é quem assiste; e a maioria das pessoas não assiste. Enquanto uma produção difícil de ignorar como o mais recente A Branca de Neve recebe review bombing (votos negativos em massa, porque todos conhecem o personagem da história e muita gente detesta as escolhas criativas atuais da Disney), filmes de drama politizados nem sequer chegam ao conhecimento do grande público, não causam impressão alguma, e por isso não são escrutinados pelo público em geral. Quem vê essas produções e se presta a votar é um grupo seleto, o que já está predisposto a dar nota alta para o filme meramente pelo tema. É como dar 10 para um filme que você nunca assistiu porque a história critica o nazismo. Todo o resto — elogios, críticas entusiasmadas, premiações — é como um teatro de marionetes onde cada boneco elogia o outro, porque são todos controlados pelo mesmo ventríloquo.

E apesar dos tantos exemplos mencionados acima, o filme como propaganda não tem um único lado político — nem esquerda, nem direita. No Brasil, predomina este primeiro, mas logo teremos Dark Horse (O Azarão), sobre a vida de Bolsonaro, e é razoável imaginar que se trata de uma produção dolorosamente enviesada, assim como o abominável Melania, literalmente um longa metragem de marketing idealizado para celebrar a existência pouco notável da esposa de Donald Trump. Não à toa, o filme recebeu nota 1,4 no IMDb. Nem os mais fanáticos trumpistas conseguiram engolir.
O mesmo ocorre com filmes religiosos, quando seu objetivo principal é pregar. Mesmo quando fazem sucesso, é apenas porque foram apoiados ideologicamente.
Em conclusão…
A ideologia dos filmes brasileiros, ou pelo menos a dos mais celebrados entre as elites intelectuais e a mídia, não é a do povo. O que se retrata não é o brasileiro real, mas a versão estereotípica tão cara aos ativistas, a que lhes serve de munição política.
E quando um filme é, na verdade, uma peça de propaganda, em que as artes da cinematografia, do enredo, do storytelling, são secundárias ou apenas acessórias, o que temos não é cinema.
Há algum tempo, disse o diretor Martin Scorsese sobre os filmes da Marvel:
Isso não é cinema. … São parques temáticos. Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas para outro ser humano.
Filmes-propaganda caem em vala similar. Em vez de cinema, são marketing político, panfletagem de partido. Certamente não são seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas ao público. O que querem transmitir é o que pensar, como agir, em quem votar, e a quem você deve odiar.
Infelizmente, o aspirante a cineasta ou roteirista que queira contar suas histórias sem um papagaio do governo em seu ombro, que queira falar sobre situações humanas em vez de restringir-se sempre a tópicos bairristas brasileiros, que só fazem sentido ao chauvinista brasileiro (aquele que odeia tudo o que venha do chamado Norte Global, com sua "supremacia branca" a ser decolonizada das Américas)... este não tem chance no Brasil. Se sua história pode mudar vidas, causar encanto, trazer insights sobre a humanidade, mas não incluir ativismo ou fórmulas melodramáticas ou pastelão... este não é o país para você.
