The Batman: As Desventuras Góticas de um Vingador Terrivelmente Depressivo | Fantástica Cultural

The Batman: As Desventuras Góticas de um Vingador Terrivelmente Depressivo
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The Batman: As Desventuras Góticas de um Vingador Terrivelmente Depressivo

Paulo Nunes ⋅ 4 mar. 2022
É uma das histórias mais antigas dos quadrinhos: um milionário com fantasia de morcego ronda pelas ruas espancando meliantes e atormentando a polícia. Velha premissa, mas tão importante quanto a história é o modo como se conta a história. O que há, afinal, de original nesta nova versão do Batman?
the batman 2022

Em The Batman, um filme de detetive gótico neo-noir, um milionário com fantasia de morcego ronda pelas ruas à noite espancando meliantes e atormentando a polícia, perambulando pela cena de crimes e remexendo nas evidências. Além disso, The Batman também passa por filme de super-herói.

Assim como Coringa (2019), um dos pontos positivos de The Batman é transcender a barreira de gênero. E não estou falando de teoria queer. Ambos os filmes podem ser apreciados também por quem não é fã de super-heróis — uma das estratégias recentes da DC. Coringa é um vilão de quadrinhos, mas também pode ser visto como um pária da sociedade que enlouquece e se revolta contra toda a civilização: em parte, sua história é um drama psicológico, e pode ser representada como tal, incluindo o comentário social. Um pouco disso temos em The Batman.

the batman 2022 silhueta fogo

Mas como esta nova encarnação do personagem se compara às anteriores?

Como tem insistido o crítico de cinema e youtuber Jeremy Jahns, Batman tem três facetas: o bilionário Bruce Wayne, que posa para a sociedade de Gotham como apenas mais um membro da elite; o justiceiro Batman, que persegue criminosos e tenta restaurar a justiça em Gotham; e o verdadeiro Bruce Wayne, aquele que pode integrar suas duas personas, e a que quase ninguém tem acesso (Alfred sendo uma das exceções). Em The Batman, porém, temos apenas uma das personalidades: a do justiceiro sombrio.

É este um problema? Não necessariamente: parte da graça em continuar fazendo filmes sobre os mesmos personagens é mostrá-los de formas diferentes. Mas o fato é que, nesta versão, Bruce Wayne vive em constante depressão. Ao contrário das outras versões de Batman, este quase não possui um lado bem-humorado; ele não flerta, e proíbe-se de qualquer tipo de prazer. Batman nunca foi tão sombrio.

De fato, o tormento psicológico do personagem nunca esteve tão evidente. Sua obsessão justiceira toma todo o seu tempo e todas as suas energias, não por razões ideológicas, mas pela pulsão visceral à vingança — que, aliás, é o tema principal do filme.

the batman 2022 poster

Assim como Batman busca a vingança contra os bandidos de baixo, das ruas, neste seu início de carreira (motivado pelo trauma do assassinato de seus pais), o antagonista, Charada, procura vingar-se dos bandidos de cima, como políticos corruptos e os chefes de máfia que os controlam. O tema, portanto, é a corrupção humana na metrópole Gotham, que abre as portas da injustiça e da violência, e a indignação tanto do herói quanto do vilão, que os leva ambos ao desejo de vingança.

Quanto ao enredo, temos um mistério de detetive. Batman intromete-se na investigação da polícia e atormenta os policiais, todos na caçada pelo sociopata e serial killer Charada. Para alinhar-se ao enredo, o visual do filme ganha um tom melancólico, de fato gótico, e literalmente sombrio, em que alguns espectadores talvez não consigam enxergar muita bem. Aqui, Gotham assemelha-se à metrópole de Blade Runner, suja e caótica, apenas com um deslocamento na paleta de cores — do azul de Blade Runner para um marrom-ferrugem nauseante. A melancolia visual só é quebrada nas cenas de ação, quando o vermelho escarlate (cor-tema do filme), vermelho de vingança, explode na tela em toda sua glória, em contraste com a escuridão. E a trilha sonora acompanha com um novo tema: três notas dramáticas, e você sabe que a vingança chegou — a pancadaria vai começar.

batman fantasia

E como um adulto fantasiado de super-herói é algo ridículo, em especial se o tema da fantasia for um animal (mesmo que os espectadores finjam não concordar), vemos este Batman ser ridicularizado várias vezes por sua escolha de vestimenta, a todo momento chamado de freak ("aberração"). Batman não dá a mínima.

No quesito cenas de ação, não há muito que reclamar aqui: as coreografias são claras, sem cortes desnecessários, todas realistas. Talvez realistas demais: porrada de verdade, quando filmada, não parece tão impressionante quanto nos filmes, nem soa como nos filmes; aqui, temos uma mescla de realismo e fantasia, e Batman nem sempre parece um semideus nas lutas, como geralmente é o caso com super-heróis. Ainda assim, fica evidente suas habilidades sobre-humanas em pôr meliantes para dormir.

Agora, e quanto à polêmica de Robert Pattinson como Batman?

Para este filme, a escolha de elenco parece ideal. Digo isso pelo que mencionei antes: nesta versão, não temos um Bruce Wayne ricaço posando de celebridade, nem um Bruce Wayne mentalmente ajustado que consegue separar a luta justiceira do resto de sua vida. Em The Batman, o personagem é 100% gótico, e Pattinson atua dessa forma em todos os momentos do filme. Funciona? Sim, neste filme sim.

the batman 2022 mulher gato

Quanto ao elenco em geral, temos atores talentosos, mas acredito que nenhum personagem desta versão vai se tornar um favorito dos fãs. Talvez Colin Farrell como Pinguim seja o mais próximo que temos de uma performance que entretém por si mesma, embora você dificilmente irá reconhecê-lo por trás das aplicações faciais de silicone e de toda a maquiagem. Mulher-Gato (Zoë Kravitz) tem uma presença marcante, mas nem o script, nem a atuação da atriz conseguem alcançar um nível icônico: temos uma performance competente, mas quando pensamos num encarnação cinematográfica da Mulher-Gato, o mais próximo ainda é a versão de Michelle Pfeiffer.

E para não deixar de mencionar Paul Dano como Charada: excelente escolha, e excelente atuação como lunático — mas, infelizmente, muito pouco tempo de aparição.

Em suas três horas de duração, The Batman não peca por entregar muito pouco ao público. Em dado momento, é possível que você se pergunte se o filme algum dia irá acabar — você passa a viver dentro dele, e mesmo quando certos aspectos do enredo são resolvidos, a história continua, e continua. Talvez o corte final seja um pouco longo demais, mas quem entra numa sessão do Batman provavelmente está esperando para ver o máximo possível de Batman.

Então, vale o ticket?

Não sou eu quem vai lhe dizer, mas no momento, parece unanimidade entre críticos e audiência que o filme é excelente. O hype tende a diminuir depois das primeiras semanas de cartaz, mas o sucesso de bilheteria de The Batma já está garantido.

E para concluir na nota correta, creio apropriado ecoar a mensagem-tema do filme — algo importante principalmente em tempos sombrios:

A vingança nunca é plena. Mata a alma, e a envenena.

the batman 2022 logo morcego

Título: The Batman
Diretor: Matt Reeves
Ano: 2022
País: Estados Unidos

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador

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