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Por que os Artistas são Tarados pelo Socialismo?
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O P I N I Ã O Ideologia & Política

Por que os Artistas são Tarados pelo Socialismo?

Paulo Nunes ⋅ 21 ago. 2021
Será que os autodenominados representantes da alta cultura sabem o que é melhor para a humanidade?
hipter homem afeminado

Não sei se você já reparou, mas grande parte dos artistas é tarada por um socialismo. Já se perguntou por quê?

A resposta dos próprios artistas é a mais conveniente possível: eles são boa gente, são pessoas do bem, e para elas, o socialismo também é isso: uma ideologia para maximizar o bem da humanidade. Logo, se você se julga do bem, você precisa ser socialista.

Como é que cantava John Lennon? Imagine todos os povos vivendo em paz... Quando um político discursa sobre coisas boas, a gente já sabe que é só papo furado para obter votos, e que sua profissão consiste em dizer o que o público que ouvir. Mas quando o artista faz a mesma coisa, estranhamente, as pessoas acreditam ser algo sincero e congruente com o caráter do artista, e não um artifício para obter popularidade e dinheiro.

E no entanto, os artistas em geral acreditam na própria mentira. Pelo menos é o que me parece. Muitos artistas são de esquerda, mas nem toda esquerda é socialista — os socialistas de verdade concordam literalmente com o Imagine de John Lennon: imagine que não exista propriedade (isto é, abolição da propriedade privada, ideal máximo do comunismo), imagine que não existam nações (uniformização global da humanidade, outra máxima comunista)...

john lennon e empregada domestica Em sua mansão, o milionário John Lennon explica à sua empregada doméstica sobre um mundo de igualdade econômica em que não existe propriedade privada e tudo é de todos.

Apesar de Lennon imaginar esses "sonhos" sendo realizados voluntariamente, em uma festa global de hippies cirandeiros, na prática política só é possível fazê-lo pela violência totalitária. Os artistas, porém, não estão prontos a aceitar o fracasso e o banho de sangue como consequências inevitáveis do socialista aplicado (podemos chamar isso de negacionismo histórico?).

A paixão dos artistas pelo socialismo parece ter causa muito mais simples, na verdade. É muito menos ideologia, e muito mais uma adaptação psicológica frente a uma realidade que não lhes favorece: a maior parte deles não tem talento, e o público em geral não quer pagar pela arte que eles produzem.

No livre mercado, as pessoas são livres para consumir o que querem. Quando o artista-socialista vê sua produção desprezada, portanto, ele vê a própria liberdade do público em consumir o que quer como o problema. São evidentes o narcisismo e o autointeresse egoísta.

Se um marceneiro produz cadeiras de seis pernas e descobre que ninguém quer comprá-las, ele entende que seu produto não é útil ou não é desejável pela clientela em geral, e passa a produzir algo diferente. Na lógica do livre mercado, quem produz ou presta serviços está servindo à comunidade, voluntariamente, entregando às pessoas algo que elas precisam ou desejam.

autorretrato de edith sitwell Autorretrato de Edith Sitwell

Mas o artista-socialista é incapaz de aceitar essa realidade. Ao ter sua arte rejeitada, ele bate o pé e se convence de que alguém deve pagar pelo seu trabalho. Daí a solução mágica (aparente) do comunismo: o artista poderá fazer o que bem entender, e será pago por isso.

É claro que, na prática, os Estados comunistas nunca têm condições econômicas de bancar cidadãos inúteis, pelo que acabam os forçando a trabalhar em fábricas, plantações, etc., para garantir os insumos básicos da população. Os poucos artistas de carreira em Estados comunistas são aqueles permitidos e aprovados pelo Estado — e obviamente, são os que cooperam com a propaganda pró-Estado, e produzem arte em favor dos líderes ou em consonância com os valores e objetivos do Partido (vide história da arte na União Soviética).

autorretrato de stanley spencer Autorretrato de Stanley Spencer

Portanto, não se iluda. O que o artista-socialista quer é dinheiro, sem se importar com o real valor que seu trabalho está trazendo à sociedade. Devido ao seu narcisismo (em alguns casos, até megalomania), ele crê que qualquer coisa que produza é arte de grande valor. Ele crê que merece ser pago apenas por "ser um gênio". Quem conhece bacharéis em Artes provavelmente sabe do que estou falando. É o ethos da classe artística pelo mundo todo. Grande parte deles crê ser alguma forma especial de ser humano, quem sabe o próximo Salvador Dali ou Marcel Duchamp.

Ah, e não pense que isso só se aplica aos artistas menores, ou aos malsucedidos. Basta ver o quanto os grandes nomes da música, do teatro, da literatura e do audiovisual no Brasil são custeados por programas do governo, na lógica de que o trabalhador comum não precisa de subsídio, mas o artista, esta figura sobre-humana que veio dos céus para iluminar a humanidade com sua genialidade cultural, este precisa ser patrocinado com dinheiro público (ainda que o público não queira consumir ou pagar pelo seu trabalho).

Parte desse elitismo é o que motiva a diferenciação entre artistas e ilustradores, por exemplo. Artistas plásticos são considerados representantes da "verdadeira arte": demandam lugar nos museus e preços exorbitantes por peças de arte esdrúxulas (cuja criatividade geralmente se encontra apenas em uma balela conceitual, uma explicação da ideia da obra que só impressiona quem não conhece o ramo e as saladas de palavra dos artistas). Já os ilustradores são vistos como praticantes de uma classe inferior de arte: uma arte comercial, capitalista, em que qualquer um pode ser cliente, e que portanto não é especial.

arte contemporanea A peça de arte pode não ser genial, mas conseguir expô-la em um museu e vendê-la para algum milionário talvez seja.

Ironicamente, quem sustenta os artistas plásticos bem-sucedidos são os milionários, o chamado 1%. Isso cria certa dissonância lógica para os artistas plásticos socialistas: sua carreira inteira depende da existência de uma severa desigualdade econômica. A única alternativa ao financiamento dos milionários, para eles, é o financiamento estatal (isto é, via extorsão, pois 99% da população não deseja pagar nem consumir seus produtos, mas é forçada via imposto).

Enquanto isso, ilustradores, designers e artistas conceituais tendem a enxergar o livre mercado como natural e positivo, pois é através dele que se tornam bem-sucedidos, com base em talento e esforço. Estes profissionais buscam unir aquilo de que gostam àquilo que seus clientes precisam, e como essa estratégia funciona, o socialismo não lhes é nada interessante. E por buscarem agradar (servir) ao grande público, tendem a ser imensamente mais populares.

E cá entre nós: boa parte deles é de ignorantes, em termos de cultura. Conhecem pouco, entendem ainda menos, mas estão convencidos de que podem contribuir artisticamente — não por meio de esforço, trabalho duro, estudo constante, compreensão dos interesses do público; não, o desejo é de obter fama e dinheiro por meio da ocasional produção de uma peça de arte que, por ser sua, deve ser vista como genial e proporcionalmente compensada. Traduzindo: o artista, em geral, crê que é superior ao cidadão comum, e que merece mais fazendo menos.

Exceções existem, é claro. Muitas, inclusive. Mas a tentação para os artistas é muito grande: é difícil resistir à mentalidade coletiva da classe, à narrativa do gênio incompreendido, às possibilidades de subsídio estatal para "levar cultura à sociedade".

Parabéns aos que resistem.

artista cranio fome pincel

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador

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