O Tarn - Conto de Horror de Hugh Walpole | Fantástica Cultural

Artigo O Tarn - Conto de Horror de Hugh Walpole
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O Tarn - Conto de Horror de Hugh Walpole

Autores Selecionados ⋅ 30 mar. 2024
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É na paisagem acidentada da Cumbria, com seus picos gelados, que se encontra o tarn, um lago muito profundo entre as montanhas. E é nele que Fenwick, escritor atormentado, esconde seus sentimentos mais violentos, motivados pela inveja e pelo fracasso.

o tarn ilustracao de horror de hugh walpole

Enquanto Foster se movia distraído pela sala, virava-se para a estante e lá ficava, levemente inclinado para diante, escolhendo com os olhos ora um livro, ora outro, seu anfitrião observava os músculos da nuca estreita, magra, que saía do colarinho baixo de flanela, e pensava na facilidade com que apertaria aquela garganta e no prazer, um prazer triunfante e voluptuoso, que teria com aquilo.

A sala baixa, de paredes e teto brancos, estava inundada pelo sol ameno e agradável de Lakeland. Outubro é um mês maravilhoso nos Lagos ingleses; dourado, generoso e perfumado, o sol preguiçoso desliza no céu cor de damasco para um rubro e glorioso entardecer; em seguida as sombras se espessam sobre aquele belo lugar em manchas violáceas, em longos motivos que lembram redes de gaze prateada, em densos borrões de cinza e âmbar. As nuvens passam pelas montanhas como galeões, ora velando, ora revelando, depois descem como exércitos fantasmagóricos para a superfície da planície, e de repente se elevam até o mais suave dos céus azuis até se esfiaparem num tom lânguido e preguiçoso.

A casa de Fenwick estava voltada para o Low Fells; na diagonal, à direita, dava para ver, pelas janelas laterais, as colinas que se estendiam acima do Derventwater.

Fenwick olhou para as costas de Foster e sentiu-se subitamente enjoado, tão enjoado que se sentou, cobrindo os olhos com a mão por um momento. Foster viera até ali, de Londres, para explicar. Era tão Foster aquilo de querer explicar, de querer acertar as coisas. Quantos anos fazia que ele conhecia Foster? O quê? Pelo menos vinte, e durante todos aqueles anos Foster estivera sempre determinado a endireitar as coisas com todo mundo. Não suportava não ser apreciado; odiava que alguém pensasse mal dele; queria que todos fossem seus amigos. Essa talvez tivesse sido uma das razões para Foster ter se dado tão bem, para que ele tivesse avançado em sua carreira, e também uma razão para Fenwick não ter conseguido o mesmo.

Porque Fenwick era o oposto de Foster nessas coisas. Ele não queria amigos, e, com certeza, não ligava se as pessoas gostavam dele — quer dizer, as pessoas por quem sentia desprezo por uma razão ou outra — , e desprezava muitas pessoas.

Fenwick olhou para aquelas costas inclinadas, compridas e estreitas, e sentiu os joelhos tremerem. Dali a pouco Foster se viraria e aquela voz alta e esganiçada flautearia alguma coisa sobre os livros. "Cada livro fantástico, Fenwick!" Quantas e quantas vezes, nas longas vigílias noturnas em que não conseguia dormir, Fenwick ouvira aquela voz de flautim soando muito perto — ali mesmo, na sombra da sua cama! E quantas vezes Fenwick respondera: "Eu odeio você! Você é o culpado do fracasso da minha vida! Você sempre esteve no meu caminho. Sempre, sempre, sempre! Com ares condescendentes e fingidos mas, na verdade, querendo mostrar para os outros que eu era um pobre coitado, um grande fracasso, um bobo convencido! Eu sei. Você não consegue esconder nada de mim. Eu percebo tudo!".

Fazia vinte anos que Foster se metia constantemente no caminho de Fenwick. Houvera aquela história, muito tempo antes, quando Robins precisara de um subeditor para sua revista, a ótima Parthenon, e Fenwick fora até lá e os dois tiveram uma conversa esplêndida. Como Fenwick falara magnificamente naquele dia, com que entusiasmo expusera a Robins (que de todo modo estava cego pela própria vaidade) que tipo de publicação a Parthenon poderia vir a ser, como Robins se contagiara com seu entusiasmo, como fora abrindo caminho pela sala com seu corpanzil, exclamando: "É isso, é isso, Fenwick — isso é bom! Isso é muito bom, de verdade!", e como, depois de tudo aquilo, Foster é que conseguira o emprego.

A publicação sobrevivera só mais um ano e pouco, é verdade, mas a revista projetara o nome de Foster, do mesmo modo que teria projetado o de Fenwick.



Depois, cinco anos mais tarde, saiu o romance de Fenwick, O aloé amargo — o romance pelo qual ele passara três anos suando sangue —, e aí, na mesma semana do lançamento, Foster aparece com O circo, romance que lhe dera fama, embora, o céu é testemunha, o negócio não passasse de lixo sentimental. Talvez você ache que um livro não pode matar outro — mas será que não pode, mesmo? Se O circo não tivesse sido lançado, aquele grupinho de londrinos sabe-tudo — aquele bando de convencidos, limitados, ignorantes, presunçosos que, apesar de tudo isso, consegue, com sua falação, decidir a sorte ou o azar de um livro — talvez tivesse falado de O aloé amargo, e isso teria facilitado seu caminho para a fama. Do jeito que foi, o livro acabou natimorto enquanto O circo seguia lépido seu caminho para o sucesso.

Depois disso, em várias ocasiões — algumas pequenas, algumas grandes de um jeito ou de outro, o corpo seco e magro de Foster aparecia para atrapalhar a felicidade de Fenwick.

A coisa se tornara uma obsessão para Fenwick, óbvio. Escondido lá no coração dos Lagos, sem amigos, quase sem companhia e com pouquíssimo dinheiro, ele cultivava em demasia o hábito de ruminar seu fracasso. Ele era um fracasso, e não por culpa sua. Como a culpa poderia ser sua, com todo o seu talento e todo o seu brilhantismo? A culpa era da vida moderna, com sua falta de cultura, a culpa era do material confuso e estúpido de que era feita a inteligência dos seres humanos — e a culpa era do Foster.

Fenwick sempre esperava que Foster se mantivesse longe dele. Não sabia o que faria se visse aquele homem. E aí, um dia, para seu espanto, recebeu um telegrama: "Vou passar pelos seus lados. Posso me hospedar com você na segunda e na terça? Giles Foster".

Fenwick mal acreditava no que seus olhos estavam lendo e então — por curiosidade, por desprezo cínico, por algum outro motivo mais misterioso e profundo que nem se atrevia a analisar — telegrafou: "Venha".

E ali estava o homem. E viera — dá para acreditar? — para "acertar as coisas". Ficara sabendo por Hamlin Eddis que "Fenwick estava magoado com ele, que alimentava alguma espécie de queixa".

— Não gostei do que senti, meu velho, e por isso resolvi passar por aqui e resolver o assunto de uma vez por todas, descobrir do que se tratava e acertar as coisas.

Na noite anterior, depois do jantar, Foster tentara acertar as coisas. Ansiosamente, com os olhos parecendo os de um cachorro bonzinho pedindo um osso que sabe perfeitamente que merece, estendera a mão para Fenwick e lhe pedira que dissesse "o que estava acontecendo".

Fenwick dissera simplesmente que não estava acontecendo nada; Hamlin Eddis era um cretino.

— Que bom ouvir isso! — Foster falou, pulando da cadeira e apoiando a mão no ombro de Fenwick. — Estou contente, meu caro. Não aguentaria não ser mais seu amigo. Somos amigos há tanto tempo.

Deus! Como Fenwick o odiara naquele instante!



— Cada livro fantástico! — Foster se virou e olhou para Fenwick com gratidão ansiosa. — Todos os livros aqui são interessantes! Gosto da sua arrumação, e essas estantes... Sempre achei uma pena fechar os livros atrás de vidros!

Foster se aproximou e sentou-se bem ao lado do anfitrião. Inclusive inclinou-se em sua direção e descansou a mão no joelho de Fenwick. "Veja bem, vou falar pela última vez — mesmo! Mas quero deixar bem claro. Não há nada de errado entre nós, certo, meu caro? Sei que você me garantiu isso ontem à noite, mas só quero..."

Fenwick olhou para ele e, ao examiná-lo, sentiu de repente um raro deleite na aversão. Gostou do toque da mão do homem em seu joelho; inclinou-se um pouco para a frente e pensou em como seria agradável enterrar até o fundo os olhos de Foster, bem no fundo da cabeça, estralando, esmagando até o fim, as órbitas olhando para o vazio, sangrentas, e disse:

— Que nada. Claro que não. Já falei ontem à noite. O que poderia haver?

A mão apertou o joelho um pouco mais forte.

— Estou tão contente! Isso é esplêndido! Esplêndido! Espero que você não me ache ridículo, mas sempre senti muita estima por você. Sempre quis conhecê-lo melhor. Sempre admirei muito seu talento. Aquele seu romance... aquele... o... aquele sobre o aloé...

— O aloé amargo?

— Ah, é, isso mesmo. É um livro esplêndido, aquele. Pessimista, claro, mas ainda assim ótimo. Deveria ter feito mais sucesso. Lembro-me de ter pensado isso na época.

— É, deveria ter feito mais sucesso.

— Mas sua vez vai chegar. É o que eu sempre digo: trabalho bom sempre acaba aparecendo.

— É, minha vez vai chegar.

A voz fina, de flautim, continuou:

— E eu tive mais sucesso do que merecia. Sério. Não posso negar. Não é falsa modéstia. Acho mesmo. Tenho algum talento, claro, mas não tanto quanto dizem. E você! Você tem muito mais do que eles admitem. Verdade, meu caro. Tem mesmo. A única coisa, e espero que você me perdoe por dizer isso, é que talvez você não tenha progredido tanto quanto poderia ter progredido. Morando aqui, enclausurado, isolado por todas essas montanhas, neste tempo úmido (está sempre chovendo), ora, você fica por fora! Não vê ninguém, não conversa e não sabe o que está acontecendo. Olhe só para mim!

Fenwick se virou e olhou para ele.

— Bem, eu passo metade do ano em Londres, onde se pode ter o melhor de tudo, a melhor conversa, a melhor música, as melhores peças, depois passo três meses viajando para fora, Itália, Grécia, um lugar assim, daí três meses no campo. Esse é um esquema ideal. Dá para ter tudo desse jeito.

— Itália, Grécia, um lugar assim.

Alguma coisa remexeu no peito de Fenwick, apertando, apertando, apertando. Como ele quis, ah, como ele desejou ardentemente uma semana na Grécia, dois dias na Sicília! Às vezes, achava que teria dinheiro suficiente, mas na hora de contar os centavos... E agora aparecia aquela besta, aquele cretino, me tido, convencido, condescendente...

Levantou-se, olhando o sol dourado.

— O que você acha de dar uma volta? — sugeriu. — Ainda vamos ter sol por pelo menos uma hora.



Assim que as palavras saíram de seus lábios, teve a impressão de que outra pessoa havia falado por ele. Chegou a virar se um pouco para ver se tinha mais alguém ali. Desde a chegada de Foster na noite anterior, estava consciente da sensação. Uma volta? Por que levaria Foster para dar uma volta, para mostrar a ele sua terra amada, suas curvas, linhas e profundezas, o largo escudo argênteo do Derventwater, os morros cobertos de névoa lilás, curvados como cobertores nos joelhos de um gigante recostado? Por quê? Era como se ele tivesse se virado para ver alguém que vinha logo atrás, dizendo-lhe: "Você está com segundas intenções".

Os dois partiram. A estrada descia abruptamente para o lago, depois o caminho seguia entre árvores à beira da água. À superfície do lago, tons de uma luz amarela brilhante, cor de açafrão, dançavam sobre o azul. Os morros estavam escuros.

O próprio jeito de Foster andar revelava o homem. Ele sempre estava um pouco adiante de você, projetando o corpo comprido e seco com pequenos espasmos ansiosos, como se fosse perder alguma coisa que lhe traria grande vantagem, se não se apressasse. Falava jogando palavras para Fenwick por cima do ombro, como se jogam migalhas de pão para um passarinho.

— É claro que fiquei lisonjeado. Quem não ficaria? Afinal, é mais um prêmio. Eles concedem esse prêmio há apenas um ou dois anos, mas é gratificante, realmente gratificante, obtê-lo. Quando abri o envelope e vi o cheque... bom, você poderia ter me derrubado com uma pena. Verdade. Claro, cem libras não é muito. Mas a honra...

Para onde eles estavam indo? O rumo era tão certeiro que parecia que eles não tinham vontade própria. Vontade própria? Não há livre-arbítrio. Tudo é Destino. Fenwick riu em voz alta de repente.

Foster estacou.

— Quê? O que foi isso?

— Como, o quê?

— Você riu.

— Lembrei de uma coisa divertida.

Foster enganchou o braço no de Fenwick.

— É mesmo delicioso andarmos assim juntos, de braços dados, amigos. Sou um sentimental, não posso negar. Sempre digo que a vida é curta e que devemos amar nossos semelhantes. Se não for assim, o que nos resta? Você vive muito sozinho, meu caro. — Apertou o braço de Fenwick. — Essa é que é a verdade.

Era um tormento, um tormento estranho e delicioso. Era maravilhoso sentir aquele braço fino e ossudo encostado no seu. Quase dava para sentir as batidas do outro coração. Maravilhoso sentir aquele braço e a tentação de agarrá-lo com as duas mãos e dobrar e torcer e daí ouvir os ossos estalando... estalando... estalando... Maravilhoso sentir a tentação subir pelo corpo como água fervente, e no entanto não ceder a ela. Por um momento, a mão de Fenwick tocou a de Foster. Depois, se afastou.

— Chegamos ao povoado. Este é o hotel para o qual todos vêm no verão. Víramos à esquerda, aqui. Vou lhe mostrar meu tarn.


* * *


— Seu tarn? — perguntou Foster. — Perdoe minha ignorância, mas o que é exatamente um tarn?

Tarn é um lago em miniatura, um poço entre as montanhas. Muito quieto. Silencioso, lindo. Alguns são imensamente fundos.

— Gostaria de ver isso.

— Está um pouco longe. Temos que subir por uma trilha difícil. Sem problemas?"

— Nenhum. Tenho pernas compridas.

— Alguns são imensamente fundos... insondáveis... ninguém chegou ao fim do... mas tranquilos, como espelhos, só que com sombras...

— Você sabe, Fenwick, que sempre tive medo de água... nunca aprendi a nadar. Tenho medo de perder o pé. Tudo por causa da escola, há muitos anos, quando eu era menino e uns garotos maiores me agarraram e seguraram minha cabeça dentro da água e quase me afogaram. Na verdade eles me afogaram, foram mais longe do que pretendiam. Até hoje vejo as caras deles.

A imagem pulou na cabeça de Fenwick e ele a contemplou. Podia ver os garotos — uns caras grandes e fortes — e aquela coisinha magra como uma rã, as mãozonas no pescoço, as pernas como gravetos cinzentos, fora da água, chutando, as risadas, o súbito sentimento de que algo não ia bem, o corpo magrinho todo mole e quieto...

Respirou fundo.

Foster andava agora a seu lado, não adiante dele, como se estivesse com um pouco de medo e precisasse sentir-se seguro. De fato, a paisagem havia muda dó. A frente e atrás dos dois estendia-se a trilha que subia o morro, com pedras e cascalho espalhado. A direita, numa elevação ao sopé do morro, algumas pedreiras quase desertas pareciam ainda mais melancólicas ao entardecer porque ainda havia um pouco de movimento; sons longínquos vinham das chaminés sombrias, um filete de água escorria e despencava raivoso para o poço, abaixo, aqui e ali uma silhueta negra, como um ponto de interrogação, aparecia contra a montanha escurecida.

Tudo ali era um pouco íngreme, e Foster bufava e soprava.

Fenwick detestou-o ainda mais por causa daquilo. Tão esbelto e seco, e nem assim conseguia estar em forma. Os dois andavam tropeçando, mantendo-se abaixo da pedreira, à beira da água corrente, ora verde, ora de um cinza-sujo, escalando a encosta do morro.

Agora estavam bem na frente do Helvellyn. Ele rodeava o topo dos morros e depois se esparramava para a direita.

— Lá está o tarn! — exclamou Fenwick, e acrescentou: — O sol não vai durar tanto quanto eu imaginava. Já está escurecendo.

Foster tropeçou e se apoiou no braço de Fenwick.

— Este lusco-fusco deixa os morros estranhos... parecem pessoas. Quase não consigo enxergar o caminho.

— Estamos sozinhos aqui — respondeu Fenwick. — Você não sente a quietude? A esta hora os homens já foram embora da pedreira, voltaram para casa. Não há ninguém aqui além de nós. Se você prestar atenção, vai ver uma luz estranha, verde, descendo por sobre os morros. Dura só um momento, depois fica escuro.

"Ah, aqui está o tarn. Sabia que eu adoro este lugar, Foster? Tenho a sensação de que ele é meu, de que pertence só a mim, do mesmo modo como todo o seu trabalho, sua fama, seu sucesso, sua glória parecem pertencer a você. Tenho isto aqui, e você tem aquilo. Talvez a gente esteja empatado, afinal. É...

"Mas sinto que este pedaço de água é meu, e que eu sou dele, e é como se nunca devêssemos nos separar... É... Viu como ele é negro?

"Este é um dos bem profundos. Ninguém nunca explorou o fundo. Só o Helvellyn sabe, e fico esperando o dia em que ele também vai confiar em mim, sussurrar-me seus segredos... "

Foster espirrou.

— Muito interessante. Muito bonito, Fenwick. Gosto de seu tarn. Adorável. Agora vamos voltar. É uma caminhada dura, aquela ao lado da pedreira. Além disso, está um gelo.

— Você está vendo aquele pequeno molhe ali? — Fenwick conduzia Foster pelo braço. — Alguém construiu aquilo na água. Imagino que a pessoa devia ter um barco. Venha dar uma olhada. Ali da ponta do molhe o tarn parece muito profundo e as montanhas dão a impressão de se fecharem em torno dele.

Fenwick pegou o braço de Foster e levou o outro até a ponta do molhe. De fato, a água parecia muito profunda ali. Profunda e muito negra. Foster olhou para baixo com atenção, depois olhou para cima, para as montanhas, que de fato davam a impressão de terem se fechado num círculo. Espirrou de novo.

— Estou com medo de ter me resfriado. Vamos voltar para casa, Fenwick, senão a gente nunca mais vai achar o caminho de volta.

— Para casa, então — disse Fenwick, e suas mãos se fecharam em torno do pescoço magro e fino. Por um momento a cabeça girou para o lado e dois olhos arregalados e estranhamente infantis o encararam; depois, com um empurrão estupidamente simples, o corpo foi projetado para a frente, ouviu-se um grilo agudo, um tchibum, uma agitação de alguma coisa branca contra a escuridão que se adensava rapidamente, depois o fato se repetiu, depois uma vez mais, de pois houve ondulações se propagando para longe, e em seguida o silêncio.



O silêncio foi prolongado. Depois de envolver o tara, foi se espalhando como se cobrisse com o dedo os lábios dos morros já aquietados. Fenwick se fundiu àquele silêncio. Gozava o silêncio. Não se movia. Ficou ali olhando a água cor de tinta do tarn, braços cruzados, um homem perdido nos pensamentos mais intensos. Porém não estava pensando. Estava simplesmente consciente de um alívio voluptuoso e quente, de um sentimento sensual nada premeditado.

Foster se fora, aquela besta cansativa, metida, impertinente, convencida. Se fora para nunca mais voltar, era o que o tarn lhe garantia. Fenwick fitava o tarn, que lhe devolvia o olhar com aprovação, como se dissesse: "Você agiu bem — realizou um trabalho limpo e necessário. Nós dois o realizamos, eu e você. Estou orgulhoso de você".

Fenwick estava orgulhoso de si. Finalmente fizera uma coisa decisiva na vida. Pensamentos, pensamentos agitados e ansiosos, começavam a invadir seu cérebro. Durante anos perambulara por aquele lugar sem fazer nada além de cultivar mágoas, fraco, submisso... Agora, finalmente, tinha agido. Recompôs-se e olhou para as montanhas. Estava orgulhoso — e com frio. Tremia. Levantou o colarinho do casaco. Sim, lá estava a luz verde-clara que sempre se mantinha durante um curto instante nas sombras dos morros antes de a escuridão chegar. Estava ficando tarde. Era melhor voltar.

Tremendo, agora, a ponto de bater os dentes, Fenwick começou a descer pela trilha e nesse momento percebeu que não queria se afastar do tarn. O tarn era amigo; o único amigo que tinha no mundo. À medida que avançava no escuro aos tropeções, aumentava seu sentimento de solidão. Estava voltando para casa, mas era uma casa vazia. Na noite anterior era uma casa com um hóspede. Quem era, mesmo? Claro, Foster... Foster com sua risada boba e seus olhos amáveis e medíocres. Bem, Foster não estaria mais lá. Não, nunca mais estaria lá.

De repente, Fenwick começou a correr. Não sabia por quê, só sabia que, agora que se afastara do tarn, estava só. Gostaria de ter podido passar a noite toda lá, mas não podia porque estava com frio e agora, então, corria para poder chegar logo em casa, para chegar às luzes e à familiaridade dos móveis — e de todas as coisas que conhecia e que o tranquilizariam.

Correndo, espalhava o cascalho com os pés. As pedras rangiam debaixo de seu peso. Teve a sensação de que outra pessoa também corria. Parou e o outro corredor também parou. Tomou fôlego no silêncio. Agora sentia calor. O suor lhe escorria pelo rosto. Sentiu um pingo descer por suas costas, por dentro da camisa. Os joelhos latejavam. O coração batia aos trancos. E por toda parte ao seu redor os morros se mantinham incrivelmente silenciosos, pareciam massas de borracha que você pode esticar para qualquer lado, cinzentos contra o céu noturno de um violeta cristalino em cuja superfície, como o pisca-pisca dos barcos no mar, surgiam agora as estrelas.

Seus joelhos se firmaram, seu coração começou a bater com menos violência e ele voltou a correr. Fez uma curva e de repente estava ao lado do hotel. As luzes eram suaves e reconfortantes. Avançou tranquilamente pelo caminho à beira do lago e, não fosse a certeza de ter alguém em seus calcanhares, estaria se sentindo à vontade. Parou uma ou duas vezes para olhar para trás, e uma vez estacou e inquiriu: "Quem está aí?". A única resposta foi o murmúrio das árvores.

Teve uma ideia esquisitíssima — mas seu cérebro pulsava tão violentamente que ele não conseguia pensar — , de que era o tarn que o seguia, o tarn escorrendo e deslizando pela estrada, acompanhando-o para que não ficasse tão sozinho. Até podia sentir o tarn soprando em seu ouvido: "Fizemos aquilo juntos, por isso não vou deixar você assumir a responsabilidade sozinho. Vou ficar com você, assim você não se sente tão só".

Subiu pela estrada em direção a sua casa e lá estavam as luzes domésticas. Ouviu o portão fechar-se com um estalo, como se estivesse sendo trancado lá dentro. Foi até a sala de estar, iluminada e em ordem. Lá estavam os livros que Foster tanto admirara.

A senhora que cuidava da casa apareceu.

— O senhor vai querer seu chá?

— Não, obrigado, Annie.

— O outro cavalheiro vai querer?

— Não, o outro cavalheiro não vai passar a noite aqui.

— Então o jantar é apenas para um?

— Isso, apenas um para jantar.

Sentou-se no canto do sofá e caiu imediatamente num sono breve mas pesado.



Acordou quando a senhora tocou seu ombro e disse que o jantar estava sei vido. A sala estava escura, iluminada apenas pela luz bruxuleante de duas velas indecisas. Aqueles dois castiçais vermelhos em cima da toalha da mesa — como ele os detestava! Sempre detestara, e agora parecia que tinham algo da voz de Foster — aquele tom agudo, esganiçado, de flautim.

Esperava a todo instante que Foster entrasse, embora soubesse que isso não aconteceria. Virava a cabeça em direção à porta, mas estava tão escuro que não dava para enxergar nada. A sala inteira estava escura, com exceção dali, de perto da lareira, onde os dois castiçais continuavam gemendo sua miserável lamúria tremulante.

Foi até a sala de jantar e sentou-se para comer. Não conseguiu engolir na da. Era estranho — aquele lugar à mesa onde deveria estar a cadeira de Foster, Esquisito e vazio, qualquer um se sentiria solitário.

Levantou-se da mesa e foi até a janela, abriu-a e olhou para fora. Tentou ouvir alguma coisa. Um gotejar, como de água corrente, uma agitação no silêncio como se um poço profundo estivesse se enchendo até a borda. Um murmúrio nas árvores, talvez. Uma coruja piou. Bruscamente, como se alguém falasse inesperadamente às suas costas, fechou a janela e se virou para a sala com um olhar perscrutador sob as sobrancelhas escuras.

Mais tarde, subiu para dormir.



Já estaria dormindo, ou só jazia meio cochilando, meio preguiçando sem pensar em nada? Agora estava bem acordado, totalmente acordado, e seu coração batia apreensivo. Era como se alguém o tivesse chamado pelo nome. Ele sempre dormia com a janela entreaberta e a persiana levantada. Hoje a luz da lua fazia uma sombra doentia nos objetos de seu quarto. Não se tratava de um jorro de luz nem de uma mancha definida, de um quadrado ou de um círculo de prata, deixando o resto numa escuridão de ébano. A luz era difusa, esverdeada talvez, como a sombra que recobre os morros um pouco antes de escurecer.

Olhou para a janela e teve a impressão de ver alguma coisa se mexer. Dentro, ou melhor, contra a luz verde-acinzentada, alguma coisa prateada cintilava. Fenwick olhou. Parecia, precisamente, água escorrendo.

Água escorrendo! Ele escutou, erguendo a cabeça, e teve a impressão de que fora da janela podia distinguir movimento de água, não correndo, mas minando cada vez mais, gorgolejando satisfeita enquanto enchia e enchia.

Aprumou-se na cama e viu que de fato havia água escorrendo pelo papel de parede sob a janela. Podia vê-la atingindo a madeira do parapeito, parar um instante, depois escorrer parede abaixo. Estranho era que caísse assim tão silenciosamente.

Do lado de fora da janela havia aquele gorgolejar estranho, mas no quarto em si, só silêncio. De onde viria aquilo? Via o contorno prateado subir e descer, à medida que o fio de água da beirada da janela fluía e refluía.

Precisava levantar-se e fechar a janela. Puxou as pernas para fora dos lençóis e cobertores e olhou para baixo.

Soltou um grito. O assoalho estava coberto por uma película brilhante de água. Que estava subindo. Enquanto olhava, viu-a chegar até a metade das pernas curtas e atarracadas da cama. Subia sem um tremor, uma bolha, uma pausa. Por cima do parapeito da janela ela passava agora num fluxo contínuo, mas mudo. Fenwick encolheu-se na cama, cobertas até o pescoço, olhos piscando, pomo-de-adão pulsando como um pistão na garganta.

Mas precisava fazer alguma coisa, precisava acabar com aquilo. A água agora chegava à altura dos assentos das cadeiras, mas continuava muda. Se conseguisse alcançar a porta...

Pôs os pés nus para fora da cama e gritou novamente. A água estava um gelo. De repente, inclinando-se, fixando aquela superfície escura e ininterrupta, teve a impressão de que alguma coisa o puxava para a frente. Caiu. Sua cabeça, seu rosto estavam debaixo do líquido gelado; o líquido parecia viscoso, e no centro de seu frio gélido parecia quente como cera derretida. Fez força para conseguir ficar de pé. A água estava na altura do peito. Berrou e voltou a berrar. Conseguia ver o espelho, a fileira de livros, o quadro com o Cavalo, de Dürer, indiferentes e inatingíveis. Golpeou a água e parecia que flocos dela tinham se agarrado a ele como escamas de peixe, pegajosas ao toque. Com muito esforço, foi avançando na direção da porta.

A água já lhe chegava ao pescoço. Nisso, alguma coisa segurou seu torno zelo. Alguma coisa o impedia de sair do lugar. Lutou, gritando "Larga! Larga! Estou mandando você me soltar! Odeio você! Odeio você! Não vou me entregar a você! Não vou...".

A água cobriu sua boca. Teve a impressão de que alguém empurrava seus olhos para dentro com os nós dos dedos. Uma mão gelada se ergueu e agarrou sua coxa nua.



Pela manhã, a criada bateu e, sem resposta, entrou, como costumava fazei, com a água para que o amo fizesse a barba. Viu uma coisa que a fez sair gritando, em busca do jardineiro.

Levantaram o corpo com os olhos arregalados, saltados, a língua para fora dos dentes cerrados, e o deitaram na cama.

O único sinal de desordem era uma jarra de água virada. Uma pequena poça de água manchava o tapete.

Era uma linda manhã. Um galhinho de hera, na brisa suave, tamborilava na vidraça.


Tradução de Bia Abramo

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