O Pior Conto do Mundo | Fantástica Cultural
CONTO

O Pior Conto do Mundo

Victor Valente
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Neste caso, não há controvérsias.

O Pior Conto do Mundo

E ra uma vez. Jorge acordou muito cedo pela manhã, com o nascer do sol, durante a aurora e logo após a alvorada. Anteriormente a seu despertar, Jorge havia dormido. Aquele era um hábito seu. Ao despertar, Jorge abriu os olhos. Já era dia. De forma mais precisa, poderíamos dizer, tratava-se do turno matinal. Mas aquele dia não seria como os outros.

Em todos os demais dias, algo ou alguma coisa acontecia. Daquela vez, seria o contrário. Seria o avesso.

Jorge nada fez, e nada sucedeu até o período noturno. Na cama ele ficou, paralisado, sem pensar coisa alguma. Curiosamente, fora o dia mais peculiar de sua vida: o único que vivenciara, desde o início dos tempos, sem qualquer evento transcorrer. Exceto um.

Com o chegar da meia-noite, às badaladas de um relógio antigo que já não existia, Jorge morreu. Assim de súbito: morreu, o desgraçado.

Dizem alguns que pereceu de tédio. Outros, de má literatura. E há quem ponha a culpa no escritor. E Jorge, ainda que falecido, escutara tais comentários. Juntando isso ao famoso caso de Dom Casmurro, célebre personagem brasileiro que não cessara de escrever mesmo de dentro do caixão, Jorge decidiu se pronunciar.

Queria Jorge um sentido para sua existência ficcional. Não pedia muito: se quisessem lhe dar apenas um papel de coadjuvante, aceitaria; se fosse delegado a personagem humorístico, que assim fosse. Sabia que muitas figuras ficcionais proporcionavam aos leitores profundas reflexões filosóficas, psicológicas e sociais; mas não fazia questão de tanto. Bastava-lhe uma história divertida, que entretece os leitores. Se agradasse a um leitor sequer, já estaria satisfeito.

Tudo isso soava razoável, é verdade. Mas Jorge estava morto àquelas alturas, e aqui nós mantemos os mortos calados. Sua história havia terminado de forma menos que inglória — ela findara na mais absoluta irrelevância, crime imperdoável contra um ser ficcional.

O conto de Jorge não dizia nada, não significa nada, e não narrava nada. Não possuía nenhum objetivo, e terminava de forma abrupta, de maneira anticlimática e em completa indiferença. Nem sequer buscava subverter as normas da literatura... era, de fato, uma antiliteratura. O pior conto do mundo.

Fim.

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