Negros Olhos D’Água - Conto | Fantástica Cultural
CONTO

Negros Olhos D’Água - Conto

Victor Valente
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Lágrimas que libertam. Lágrimas que sepultam.

Retrato de um Choro - Pintura de Ramy Salah Hefny
Retrato de um Choro - Pintura de Ramy Salah Hefny

E u nunca chorava. Isso, ao que parece, é algo extraordinário, considerando tudo pelo que passeio. Minha vida nunca fora fácil. Não sei se sofri mais ou menos do que as outras mulheres da minha família. Fato é que os horrores, desgraças e injustiças pelos quais passei dariam um longo, longo livro. Uma obra das mais deprimentes, e sobre isso nada quero falar. Tampouco chorar.

Quero falar de minha viagem até os olhos d’água de Irrgång. Pois é onde me encontro agora.

Quando me aproximei da região, mesmo de muito longe, os olhos de Irrgång já estão voltados para nós, sempre abertos, sempre atentos. Ou assim me pareceu. São, na verdade, poços naturais espalhados por uma vasta planície de rocha vulcânica, transbordando água de quando em quando como se chorassem.

Sempre quis visitá-los. Chamavam-nos de vattenöga na língua local, ou seja, os olhos quem choram, ou olhos d’água. Parte de mim esperava que aquele choro da natureza curasse a secura eterna de minhas lágrimas.

Mas o que me chamava, talvez de forma espiritual — embora eu nada saiba dessas coisas do além —, eram os svart vattenöga, ou negros olhos d’água. Eram fossas sem fundo, e quem as observava por tempo demais, rezava a lenda, acabava por enlouquecer. Conforme o folclore local, centenas de pessoas, ao longo dos séculos, haviam se colocado a contemplar a própria imagem nas águas escuras, às vezes por horas, dias, antes de desaparecem ser deixar qualquer vestígio.

Foi assim que cheguei a Irrgång, procurando respostas sobre mim. Mas me perguntei: para quem seriam as respostas? Confesso que, de minha parte, nunca tive problemas em não chorar. Mas outros pensavam diferente.

Havia algo de profundamente errado comigo. Ou era o que me diziam. Diante de minha calma, acusavam-me de frieza, de indiferença. Enquanto minhas amigas, irmãs, tias, mãe e avós desfaziam-se em prantos, eu resguardava minha calma sem esforço, buscando consolá-las. Isso as enfurecia. Vezes sem conta compararam-me aos homens, que, explicaram-me, reprimiam seus sentimentos para manter uma fachada artificial.

Tinha para mim que se tratava de alguma vergonha velada que elas sentiam em relação aos homens. Elas pareciam entender o choro como fraqueza, e, a julgar pelo que diziam, concluí que todas as pessoas deveriam chorar também para que elas não se sentissem frágeis e delicadas.

Uma terapeuta que procurei disse-me que concordava com elas. O problema era eu.

Quis, portanto, encontrar aquela parte de mim que me juraram viver enterrada em meu coração, implorando por liberdade. Afastei-me do grupo de turistas, aventurando-me pelo infindável labirinto de olhos d’água, até encontrar os svart vattenöga.

Ali parei, sozinha, e me coloquei a observar um dos negros poços d’água, sentada bem à sua frente.

De fato, não se via o fundo. Abaixo da superfície d’água, imperava a mais absoluta escuridão. Mirando-a, porém, vi meu reflexo. Mas não um reflexo qualquer: notei que se refletia para mim das profundezas, como se me olhasse dezenas de metros abaixo da superfície. Primeiro lembrei de Narciso, a ocupar-se de sua própria imagem por tanto tempo que se desfez como indivíduo, restando em seu lugar apenas uma flor.

Aos poucos, contudo, passei a pensar em Nietzsche e seu alerta sobre o olhar para os abismos. Não me senti, como Narciso, exultante ao contemplar meu reflexo. Pelo contrário: minha própria imagem, aprisionada nas trevas do abismo, assustava-me, urgindo-me a me afastar.

Mas tive pena. Sem qualquer lógica, tive pena da mulher no fundo do poço, e olhei-a nos olhos, de longe. Penso não ter desviado o rosto por mais de uma hora. Embora ela fosse em tudo idêntica a mim… eu entendi que ela jamais escaparia do fosso, da eternidade das sombras. Aquela versão de mim mesma não dispunha de qualquer controle sobre sua própria vida. E seria aquilo vida?

Mais algumas horas se passaram. Em dado momento, chorei.

Chorei, e minhas lágrimas juntaram-se às do olho d’água. Mas eu não chorava por mim, ou pelos sofrimentos do meu passado. Chorei pela outra versão de mim que existia para além de um espelho d’água. Ela era uma vítima, refém de meus movimentos, marionete dos reflexos, incapaz de agir sem minha permissão.

Ao começar a chorar, um efluxo inexplicável de tristeza, solidão e agonia preencheu meu corpo, algo pelo que jamais havia passado. A dor paralisou-me, e o frio penetrou minha carne até os ossos. Descobri-me enxarcada.

Nada mais me restava senão a total impotência. Continuei olhando para cima, para mim mesma. Eu tinha pena de mim, e ela, lá em cima, também o sentia. Tenho certeza que sentia.

Com o anoitecer, contudo, ela olhou para mim uma última vez e se afastou do olho d’água, retornando ao grupo da expedição. Penso que nunca tenha voltado a chorar.

Aos poucos, vi o céu enegrecer pela abertura do poço, sem lua ou estrelas. Não enxerguei mais nada. As águas esfriaram ainda mais, e tudo o que me restou foi tremer.

Chorar e tremer.

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