Espiritismo: 12 Dúvidas Comuns sobre o Evangelho dos Espíritos de Allan Kardec | Fantástica Cultural
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Espiritismo: 12 Dúvidas Comuns sobre o Evangelho dos Espíritos de Allan Kardec

Victor Lisboa
⋅ 29 abr. 2026
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Os espíritas procuram respostas para as grandes questões da vida e do universo em O Evangelho segundo o Espiritismo, nas demais obras de Allan Kardec e nos Testamentos da Bíblia. Mas muitas dúvidas ainda persistem e ninguém sabe como respondê-las.

T odo espírita conhece os fundamentos básicos da doutrina dos espíritos, ou doutrina kardequiana: a vida humana nunca termina. Ela passa por incontáveis encarnações, buscando o aperfeiçoamento moral. Os ensinamentos da Bíblia são parte do guia moral, mas para o espiritismo, eles devem ser interpretados à luz dos escritos de Allan Kardec. Durante meados do século XIX, Kardec publicou diversos livros sobre a reencarnação e o progresso da espécie humana, atribuindo aos espíritos os conhecimentos que compartilhou.

Apesar da imensa quantidade de livros espíritas publicados, ainda restam diversas dúvidas na doutrina dos espíritos, como veremos a seguir.

1. É preciso rejeitar partes da Bíblia?

Se o espírita crê que a Bíblia é uma obra sagrada que contém a verdade, talvez note que o livro do Apocalipse contém contradições diretas ao espiritismo.

O espiritismo afirma veementemente que Deus não pune ninguém, e todos têm uma chance de evoluir e alcançar seu lugar ao lado do Criador. Na Bíblia, lê-se:

A morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte... e, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo (Apocalipse 20:14-15).

Punição semelhante aparece em Apocalipse 14:9-11: os que não creem em Deus serão atormentados com fogo e enxofre na presença do Cordeiro, sem descanso, com a fumaça do seu tormento subindo eternamente. Em Apocalipse 20:10, diz-se que as pessoas "serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos".

Além disso, a ideia de reencarnação é rejeitada em Hebreus 9:27:

aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo.

E também se afirma que nem toda pessoa terá a chance de alcançar seu lugar ao lado de Deus (Mateus 7:21-23):

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus...

Como conciliar a fé nessas duas doutrinas que se contradizem?

2. Por que a promessa de expansão falhou?

Allan Kardec afirmava, há 170 anos, que o espiritismo se expandiria pelo mundo, porque apresentava a verdade sobre a vida e oferecia um guia moral para o futuro. E, conforme Kardec, esta previsão de mudança global não é dele, mas dos espíritos.

Quase dois séculos depois, menos de 0,2% da população mundial se declara espírita kardecista. Além disso, não há nenhum sinal de crescimento relevante ainda hoje.

Analisando a situação real, percebe-se que é uma doutrina quase à beira da extinção. Os espíritos estavam errados em suas previsões?

3. Por que se pune o inocente?

No espiritismo, afirma-se que os males do mundo (por exemplo, todo tipo de sofrimento) são provas e expiações derivadas de erros de vidas passadas. A pessoa reencarnada é colocada à prova, com sua memória temporariamente apagada, para ter a chance de evoluir moralmente.

Assim, o indivíduo que reencarna sem nenhuma lembrança do que fez em outras vidas é basicamente uma pessoa nova. O plano de provas e expiações apenas a faz sofrer por coisas que não lembra de ter feito.

Como aprender uma lição sobre fazer a coisa certa quando a pessoa não lembra de ter feito a coisa errada? Como evoluir moralmente sem trazer consigo a sabedoria acumulada nas vidas passadas e a memória dos erros cometidos? A pessoa estaria condenada a cometer os mesmos erros, já que para aprender com erros é preciso lembrar deles.

Em outras palavras, é como lobotomizar uma pessoa, apagando tudo o que ela sabe, e esperar que ela dê o próximo passo em sua evolução... quando o apagamento da memória a fez retornar à estaca zero.

4. Fé raciocinada, mas sem vontade de trazer provas?

Ao contrário de outras religiões, o espiritismo afirma que sua fé é raciocinada — ou seja, que não é mera crença cega, mas bem embasada. Desde Allan Kardec, alega-se no espiritismo que a ciência positivista é uma aliada da fé e que deve ser usada para provar os fenômenos espirituais e ajudar a humanidade a evoluir com esse conhecimento.

E durante a vida de Allan Kardec, muitos fenômenos espirituais foram reportados para que as pessoas de fato acreditassem.

Hoje, porém, como já mencionado, menos de 0,2% da população mundial crê nos espíritos. Se os espíritos quisessem, poderiam sem dificuldade convencer o mundo inteiro sobre a verdade do espiritismo. Bastaria que se manifestassem para mais pessoas de forma explícita. Porém... não o fazem.

Essa escolha pode parecer um teste de fé (quem realmente acredita ou lê os livros merece evoluir, caso contrário merece ficar atrasado em seu processo evolutivo). Mas isso é incompatível com a ideia de fé raciocinada, pois demanda fé sem provas.

Assim, bilhões de pessoas são condenadas a sofrimentos desnecessários, geração após geração, devido à omissão dos espíritos.

Há 170 anos, os espíritos tentaram difundir sua doutrina pelas mãos de Kardec, e hoje falharam com 99,8% da humanidade. Por alguma razão desconhecida, não estão interessados em intervir.

5. Cirurgias espirituais arruínam planos reencarnatórios?

Os centros espíritas sempre marcam cirurgias espirituais quando alguém se queixa de doenças, dores, etc. Porém, não seria de se esperar que muitos casos de doença e sofrimento fazem parte do plano para a vida dessas pessoas?

No espiritismo, as pessoas são enviadas para a Terra após uma determinação de plano para sua evolução espiritual, que geralmente envolve desafios e sofrimentos, alguns abomináveis, como tortura, morte prematura, etc. Se assim é, não faria sentido que toda solicitação de cirurgia espiritual fosse atendida, pois isso arruinaria os planos reencarnatórios.

6. Era para acontecer ou precisa de intervenção?

Afirma-se, no espiritismo, que muitas coisas na vida de uma pessoa simplesmente eram para acontecer, porque foram planejadas. Assim, como se pode saber quando intervir e quando não intervir?

Certa pessoa tem câncer, por exemplo. Deve-se curar ou não? Não é possível lembrar qual é o plano encarnatório, portanto, ajudar a curar o câncer pode arruinar a missão reencarnatória e exigir que esta mesma situação ocorra novamente, como novo câncer em nova encarnação.

O mesmo vale para tudo. Deve-se chamar a polícia em um caso de violência doméstica? Ou isso é parte do plano, e precisa ocorrer para a evolução do espírito? Deve-se fazer caridade? Como saber se algumas pessoas encarnaram justamente para sofrer de fome, etc.? Pois está explícito na doutrina espírita que muitos reencarnam para sofrer.

E o mais intrigante: nenhum espírita parece se importar com esse dilema.

7. Animais aprendem lições morais?

O argumento mais forte do espiritismo, segundo os próprios espíritas, é que a doutrina explica por que sofremos. É tudo parte do plano para nosso aprimoramento moral. Mas por que animais sofrem?

Como um animal, incapaz de conceber moralidade, pode evoluir via sofrimento? Todas as criaturas com sistema nervoso sofrem no planeta Terra, às vezes em níveis inconcebíveis. Como isso pode ajudá-las a evoluir moralmente, quando nem sequer são capazes de conceber o bem e o mal? O que resta desse fenômeno (planejado por Deus) senão crueldade sem propósito?

8. Todos os serem reencarnam?

Também se afirma que todos os seres vivos evoluem. Tudo começa nos minerais, progredindo para os seres vivos mais primitivos e enfim alcançando os seres humanos e o que pode vir depois deles.

A evolução da rocha ao ser humano é também uma evolução moral.

Isso pode nos levar a estranhas perguntas. Os insetos reencarnam? E os micróbios e bactérias, eles reencarnam? Os vírus, eles reencarnam?

É interessante, também, pensar que toda bactéria é um ser vivo e que, segundo o espiritismo, cada uma delas tem sua alma. No entanto, seres complexos são formados por células — que são a forma evoluída das bactérias, adaptadas para viver em conjunto. Cada célula humana possui uma alma? Se sim, cada pessoa possui um espírito para o conjunto de suas células e um espírito para cada célula (cerca de 30 trilhões)?

9. Espíritos têm medo de câmeras?

Como é possível que, com cada pessoa levando consigo uma câmera, jamais na história do mundo tenha sido registrado e publicado sequer um fenômeno causado pelos espíritos?

As cadeiras dançavam na época de Kardec, quando não havia câmeras. Hoje, seria possível converter a maior parte das pessoas do mundo com evidências — e, a partir delas, passar para a instrução moral espírita, dando um salto na evolução da humanidade. Bastaria a boa vontade dos espíritos.

Estranhamente, nenhuma prova aceitável jamais é produzida, nem mesmo pelo bem da humanidade.

Mas... o que seria uma prova aceitável? Uma que seria aceita por um juiz, um júri, uma observação científica — isto é, o padrão mínimo aceitável para qualquer coisa que se leva a sério na sociedade. Simples.

E embora essas provas adequadas nunca surjam, outras tentativas de prova ocorrem a toda hora nos centros espíritas, como mensagens psicografas, comunicação com entes falecidos, etc. Com esses métodos, seria fácil elaborar uma forma de provar as alegações do espiritismo. Mas, ao que parece, os espíritos (ou os espíritas) não estão motivados a espalhar evidências sérias de sua crença pelo mundo. De que outra forma explicar isso tudo?

10. Escritores perdem talento após a morte?

Por que os livros psicografados de autores célebres, mas mortos, são tão ruins comparados com sua obra original?

Se a consciência e os aprendizados estão na alma, e ela é capaz de ditar um livro através de um médium, por que autores originalmente geniais perdem todo seu talento, a boa prosa, a caracterização cuidadosa dos personagens, os insights inteligentes, a estrutura de enredo bem planejada e os temas relevantes e intrigantes?

Autores clássicos como Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu, Oscar Wilde e até Shakespeare e Machado de Assis já ditaram livros depois de sua morte... mas se seu nome não tivesse sido colocado na capa do livro, ninguém jamais suspeitaria que se tratasse do mesmo autor. Por que será?

11. Por que a Bíblia evita o espiritismo?

Segundo os espíritas, existem passagens da Bíblia que, embora raras e indiretas, apontam para a reencarnação como fato real. Por exemplo:

Elias já veio, e não o reconheceram... Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista (Mateus 17:10-13).

Essa passagem indica que João Batista teria retornado à vida na forma de Elias, como também indica este trecho:

Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João [Batista]. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir (Mateus 11:13-14).

É evidente que Mateus fala de reencarnação. Mas aqui não há qualquer indicação de que todos os seres humanos reencarnam, nem que reencarnam sucessivamente. Elias é, como menciona o trecho, um profeta. O retorno de um profeta assemelha-se à ressurreição de Jesus Cristo, ou ao seu retorno no fim dos tempos: é algo destinado aos guias máximos perante Deus, não às pessoas comuns.

Em um livro que afirma a existência de dragões, serpentes falantes e a arca de Noé, não é surpresa que alguns relatos tratem de reencarnação — mas não nos termos do espiritismo.

Outro trecho que seria prova das verdades espíritas (João 3:1-7):

Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.

Aqui, pode-se ler o nascer de novo como o batismo, um ritual de passagem. Em culturas incontáveis ao redor do mundo, rituais de passagem (frequentemente religiosos) são entendidos como uma morte do indivíduo antigo e o nascimento de sua versão nova. A pessoa não morre de fato, mas sim sua identidade, que se transforma. Nos anos iniciais do cristianismo, este ritual de passagem era o batismo.

E um dos piores exemplos usados pelo espiritismo (João 9:1-3):

Quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?

A lógica aqui é que alguém teria nascido cego porque seus pais pecaram. Ou seja, punição derivada de pecado herdado.

Comicamente, a Bíblia inteira tem por base o pecado original, que teria sido cometido por Adão e Eva, e que seria passado de geração em geração, condenando todos os filhos pelos pecados dos primeiros pais. A ideia de que seria justo punir o filho pelos crimes dos pais era comum à época, razão pela qual é o fundamento do Velho Testamento.

Até mesmo a morte de Cristo, para redimir os pecados do ser humano, refere-se diretamente ao pecado original de Adão e Eva, que condenaria todos à punição até a redenção oferecida pelo messias.

Ou seja: a ideia de que os pecados são herdados não se relaciona de forma alguma com reencarnações, na Bíblia. Resta a dúvida: por que a Bíblia não confirmou de forma clara a existência das reencarnações, para que servisse de fundamento para os cristãos?

12. Criados imperfeitos para sofrer... de propósito?

Eis a pergunta final: por que Deus criou, de propósito, seres imperfeitos? Essa escolha é o que obriga, segundo o espiritismo, que os espíritos passem por incontáveis gerações de dor e sofrimento.

A explicação do espiritismo é que os seres precisam sofrer para evoluir espiritualmente.

Porém, quem os criou moralmente deficientes? E por quê?

Será que Deus precisou sofrer infinitas gerações de agonia, morte e renascimento até se tornar um ser perfeito? Não, ele é perfeito desde o início. Assim, é justo questionar: Por que Deus não criou os seres humanos moralmente perfeitos desde o início? Se algo o impediu... isso não significaria que ele não é onipotente?

Para um ser todo-poderoso, seria perfeitamente possível criar espíritos não defeituosos, moralmente puros, desde o início, impedindo que trilhões de vidas existam sofrendo, agonizando e morrendo por bilhões de anos. Bastaria uma simples escolha de Deus, e não haveria dor no universo.

Nesse ponto, muitos usam o argumento do livre-arbítrio. Segundo esse argumento, se as pessoas fossem criadas perfeitas, não seriam livres. Isso significa que Deus, sendo perfeito, não tem livre-arbítrio? Isso significa, então, que quando os espíritos atingirem a perfeição, perderão seu livre-arbítrio?

Como defender tal escolha (a de criar seres imperfeitos de propósito e os condenar a sofrer pela ignorância que lhes foi programada intencionalmente pelo criador) e manter a hipótese de que Deus é de fato onipotente, ou que é um Deus bom?

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