A Lâmpada Mágica | Conto de Victor Valente | Fantástica Cultural
CONTO

A Lâmpada Mágica Conto de Victor Valente

Victor Valente
citar este artigo

Três desejos não são o bastante.

A Lâmpada Mágica | Conto de Victor Valente

S im, a lâmpada mágica existe. Não percamos tempo debatendo isso. Acredite quem quiser. Sei que a maioria não acreditará em nada do que digo, mas isso em nada me afeta. E tampouco afetará a história que vou contar, pois os fatos, mesmo como ficção, formam um caso fascinante. A lâmpada mágica existe, e está em minha gaveta.

Encontrei-a em um antiquário, em meio a tantos outros cacarecos antigos. À época, andava com minha namorada, e brincamos esfregando a lâmpada para conjurar o gênio. Naturalmente, não testemunhamos nenhuma mágica.

A lâmpada, porém, era de um metal pesado, espesso, do jeito que não se produz há muito tempo. Acabei não resistindo a seu charme e a comprei para decorar a casa.

O artefato permaneceu na estante da minha sala ainda por dois anos antes de minha descoberta. Acabara de romper com minha namorada e, tentando recobrar meu bom ânimo, peguei a lâmpada e a esfreguei, pedindo-lhe para curar meu ego ferido. Confesso que, na ocasião, encontrava-me um tanto bêbado — causa provável de eu ter balbuciado abracadabra para a lâmpada.

Acredite ou não, foi nesse momento que o gênio apareceu. Não era azul, nem sequer levitava. Na verdade, seria fácil confundi-lo com um anão contratado como extra para o live action de Aladdin. Surgiu do nada, em minha sala de estar, e olhou-o seriamente com os braços cruzados.

— Marabana! — disse o gênio. — Lad aik tarlat umniahat.

Eu não havia bebido tanto assim. O anão encontrava-se, sem dúvida, em minha sala de estar.

— O que é isso? Uma piada?

— Amntzir — retrucou, sacudindo a cabeça e dando-lhe algumas pancadas. — Tu falas português?

— Português brasileiro.

— Shaitan... Beleza, português brasileiro. Vamos começar de novo, então: Saudações! Você tem três desejos.

Talvez pelo efeito do álcool, gargalhei por quase um minuto. Estirei-me no sofá, contemplando a pequena figura de cima a baixo com suas vestes arábicas. Notei-lhe a extraordinária espessura das sobrancelhas.

— Quem está te pagando para essa palhaçada?

— Eu sou seu servo, meu senhor — disse o anão. — Pagamentos não são necessários.

— É mesmo? Ok, ok... O que posso pedir?

— Qualquer coisa, meu senhor.

Olhei para minha garrafa de vinho, quase vazia, e pedi ao anão que a enchesse novamente, apenas para ver como seu teatro continuaria.

— Pois não, meu senhor.

Eu ainda segurava a garrafa quando o fluxo de vinho, vindo sabe-se lá de onde, a preencheu quase até o gargalo. Abismado, analisei a garrafa por todos os lados, espiei ao redor à procura de algum indício de artimanha. Nada parecia explicar o ocorrido exceto... mágica.

— Não pode ser — protestei comigo mesmo. — Isso é ridículo. Estou alucinando? Diga-me que não estou alucinando.

— Esse é seu segundo desejo, senhor?

— Não! Não, é apenas uma cortesia.

— Entendido. Não, não creio que você esteja alucinando. Se está se referindo ao vinho, é real e de boa qualidade.

Larguei a garrafa e, se me recordo bem, posicionei-me no sofá na mesma posição da estátua O Pensador, matutando a situação. Meus desejos mais extravagantes começaram a pipocar em minha mente, implorando-me para acreditar na mágica da lâmpada — mas meu lado racional recusava-se a aceitar aquela fantasia escrachada.

Convencido de que se tratava de uma série de truques, declarei meu segundo desejo:

— Quero receber, agora, um bilhão de reais na minha conta corrente.

— Pois não — disse, estalando os dedos. — Feito.

A tranquilidade no rosto do anão me trouxe uma esperança inexplicável. Puxei meu celular do bolso e verifiquei meu saldo.

De tão longo, o número mal cabia na tela. A essas alturas, eu tremia. Não me parecia crível que alguém pudesse raquear minha conta bancária em segundos apenas para me pregar uma peça. Nesse instante, eu acreditei. A lâmpada era mágica — o gênio era mágico — e me restava apenas um desejo.

— Por que você não me avisou que era coisa séria? — disse, exasperado. — Desperdicei um pedido em uma garrafa de vinho!

— Perdão, meu senhor. Pensei que havia entendido.

— Pensou? — repeti, aborrecido. Mas logo comecei a assimilar que, dali em diante, eu seria um bilionário, e que não havia razão para reclamar de nada. — Bem, bem, não esquente com isso.

— Sem problemas, senhor. Gostaria de fazer seu último desejo?

O último desejo. Não, aquilo não soava bem. Depois dele, minha sorte estaria para sempre limitada às decisões tomadas àquela noite. Refleti uns instantes, e logo identifiquei uma escolha estrategicamente óbvia para qualquer cenário: eu deveria ser imortal. De que adiantaria ser bilionário e morrer em um acidente de carro no dia seguinte?

Mas... e se eu quiser trazer minha ex de volta? Ou melhor: e se eu quiser escolher qualquer mulher do mundo para se apaixonar por mim? E se eu quiser visitar Plutão, ou ver o futuro, ou assistir à construção das pirâmides? E se eu quiser ficar invisível e me teletransportar para as reuniões secretas dos líderes globais, para saber o que eles estão tramando.

Ou ainda: e se eu quiser saber a verdade sobre a vida após a morte, ou sobre a verdadeira natureza de Deus? E se eu quiser saber como a vida surgiu na Terra, ou como o que provocou o surgimento do universo? E se eu quiser fazer contato com alienígenas, ver os dinossauros, assistir ao naufrágio do Titanic a bordo do Titanic?

Não, um último desejo não bastaria.

— Diga-me, amigo... Posso lhe pedir mais desejos?

— Oh, não, infelizmente não. São apenas três.

— Certo... Posso lhe pedir que crie uma lâmpada mágica com um gênio que realize infinitos desejos?

— Thbaan! — trovejou de repente, perdendo a compostura por um instante. Logo aprumou-se outra vez e disse: — Sim, posso atender a esse desejo.

— Então este será meu terceiro desejo.

Uma segunda lâmpada materializou-se em meu colo. O gênio anão, contrariado, disse com certa má vontade:

— Foi um prazer servi-lo, senhor. Vou recolher-me à minha lâmpada.

Levantei-me para guardar a lâmpada original em uma gaveta, para não a confundir com a recém-criada — que era idêntica —, e esfreguei a nova lâmpada pronunciando abracadabra.

O anão que surgiu quase não diferia do anterior, mas parecia mais baixo, talvez provocado pelo recalque do gênio anterior.

— Marabana! — disse o gênio. — Lad aik ragabat lasr liha.

— Português brasileiro, por favor.

— Beleza! Minhas saudações, senhor. Você tem infinitos desejos.

— Ótimo. Desejo ser imortal.

— Excelente escolha, senhor — disse, estalando os dedos. — Feito.

— Feito? Mesmo, mesmo? E como faço para testar? — pensei por um momento, identificando alguns problemas. — Ok, o que você implementou, afinal? Eu sou indestrutível agora? Ou vou deixar de envelhecer, mas... posso ser morto em um acidente?

— Essa é uma dúvida muito comum, meu senhor. Em geral, esse pedido é atendido com imortalidade incondicional. Nada poderá destrui-lo. E você também não envelhecerá.

— Veja só... É perfeito. Perfeito! E quanto à dor? Desejo nunca mais sentir dor.

— Pois não — disse, estalando os dedos. — Considere feito.

A partir daquele dia, como você pode imaginar, minha vida nunca mais foi a mesma. Tudo o que era possível ou impossível de se fazer, eu o fiz. Ou tudo o que me ocorreu fazer, e que me apetecia.

Desejei desvendar os mistérios da existência, da vida e do universo. Obtive todas as respostas e, confie em mim, você não irá querer ouvi-las. Desejei viajar para o futuro, cinquenta anos, cem anos, mil anos, dez mil anos, milhões, bilhões e trilhões de anos. Conheci o destino de nosso planeta e da espécie humana. E também conheci sua origem, e assisti à descoberta do fogo. Não existia dúvida que não me fosse respondida ou curiosidade que não me fosse saciada.

Desfrutei de todos os prazeres que um ser humano pode conceber, e tantos outros que nenhum homem jamais havia imaginado, mas que descobri com minhas investigações. Assim vivi por quase trezentos anos.

Lembro-me que, ainda no início, tentei trazer minha ex-companheira de volta. Desejei que ela esquecesse de nossos problemas, de nossa separação, e pedi ao gênio que corrigisse todos os seus defeitos. Fomos felizes por um tempo. Mas ao perceber que eu a modificada, cada fez que me sentia insatisfeito, passeia a vê-la como uma marionete sem alma, quase como um robô à mercê da programação que eu lhe dava. E assim com todo o resto com que me deparava.

Agora estou cansado. Vou deixar essas anotações a quem interessem, e farei meu último desejo.

Destruí a primeira lâmpada. O mundo não precisará mais dela. A segunda, ordenarei que se destrua após meu desejo final. E seu poder imensurável transformará o cosmos sob meu comando.

Meu último desejo é tomar o lugar de Deus. Pouca diferença faz se ele de fato existe, ou se em vez de Jeová, o verdadeiro deus é Allah. Eu ascenderei à posição de deus supremo: onipotente, onipresente e onisciente. De nada mais precisaria, porque serei completo e perfeito.

E assim, com minha onipotência e onisciência, saberei como extinguir todos os males do mundo. Não me diga que não serei capaz de fazê-lo: terei poder para fazer tudo, assim como o conhecimento infinito para tanto. Eliminarei a morte e o sofrimento, e farei todas as criaturas do universo boas e felizes, sem lhes tirar o livre-arbítrio. Assim como Deus é livre e perfeito, assim serão todos os seres do mundo sob minha regência divina. Não preciso sequer eliminar o mal: bastará mudar a natureza dos indivíduos para que sejam todos propensos ao bem, sem jamais desejarem o mal. E tampouco o leão comerá a gazela, nem a vaca comerá o pasto — e não me pergunte como resolverei isso, pois só saberei (e certamente o saberei) quando tiver poder infinito, para tudo fazer, e conhecimento infinito, para tudo resolver.

Nos próximos minutos, deixarei de ser humano. Aos que ficam, desejo que façam bom proveito da minha orquestração universal. Quem sabe um dia elevarei todos os seres ao status de Deus — mas não hoje. Não ainda.

Até mais.

imagem
O Capista de Livros - Designer de Capas para Livros Contratar Capista de Livros - Designer Sobre O Capista Portfólio de Capas de Livros Serviços de Editoração de Livro Clientes do Capista de Livros Diagramação de livro e Formatação de E-Book Revisão de Texto para Livros Área do Autor