Deus, Adão e Eva: a história inédita da expulsão do Paraíso | Fantástica Cultural
CONTO

Deus, Adão e Eva: a história inédita da expulsão do Paraíso

Victor Valente
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A Bíblia nos conta apenas metade da história.

I

Deus, Adão e Eva: a história inédita da expulsão do Paraíso

D eus, certo dia, sentou-se ao lado de Adão, sobre um tronco caído em um dos recantos mais belos do Paraíso, e estudou sua expressão de enfado com relativo interesse.

— Criei tudo isso para ti, meu filho — disse Deus. — Não gostas de nada?

— Gosto, sim... É tudo muito belo — disse Adão, procurando demonstrar gratidão pelo que Deus havia lhe dado. Mas nem tudo lhe parecia certo. — Digo, metade das coisas são belas, a outra metade é feia.

— É mesmo?

— Sim. Andei descobrindo isso um dia desses. Olhei dentro do peixe e vi que ele é horrível. Depois daquele dia, comecei a abrir todos os animais e ver como eram por dentro. Todos são terríveis. Imaginei que deveria ser assim comigo também.

— Mas tu poderias pensar que, por ser o filho preferido de Deus, teu corpo seria luminoso por dentro.

— Eu acho que poderia pensar isso, sim. Mas não penso. Eu tenho sangue vermelho, igual aos carneiros. Sinto meu coração bater do mesmo jeito que o coração dos carneiros, que eu posso arrancar com as mãos. Logo, sou parecido com eles.

— Tu fazes muitas experiências pelo mundo. Vejo que te divertes.

— Não é tão divertido... Tenho estado deprimido.

— Ora, por que razão?

— Sinto-me incompleto. Como se me faltasse alguma coisa.

— E o que seria esta coisa?

— Bem, deduzo que seja uma companheira. Percebi que todos os animais têm um macho e uma fêmea, e que eles copulam de vez em quando. De manhã, às vezes, acordo com vontade de copular. Acontece que não sei como. Devo copular com algum animal?

— Não! — apressou-se a dizer Deus, engasgando. — Não... Claro que não — disse a seguir, com a voz mais grave e severa. — Cada qual com seu par.

— Eu não tenho par. Aliás, você também não tem.

— Eu sou perfeito, filho, por isso não necessito de um par.

— Então eu sou imperfeito? Por que me você me fez imperfeito?

— Para que tu fosses diferente de mim.

— Ah, entendo... — balbuciou, aborrecido.

— Vou fazer-te uma companheira, então.

— Ela será parecida comigo?

— Não muito.

— Será parecida com uma vaca?

— Não. Por quê?

— Acho as vacas simpáticas.

— Não, não será uma vaca.

II

Nos dias que se seguiram, Deus esteve ocupado com a criação da companheira de Adão, cuja aparência deveria ser tão surpreendente quanto possível, para alegrar aquele pobre homem que não encontrava mais felicidade nas demais coisas mundanas.

As primeiras experiências, no entanto, redundaram em criaturas bisonhas sem qualquer proporção. Segundo constava nas anotações divinas, a versão fêmea de um mamífero deveria ter mamas, mas as demais orientações não ajudavam em nada, de modo que Deus passava o dia tentando encaixar três pares de tetas num corpo humano masculino.

Enquanto isso, Adão circulava pelo paraíso, sempre de olho no local onde — ele sabia — Deus estava criando sua companheira. De quando em quando, via sair de lá uma criatura estranha, torta e com caroços espalhados pelo corpo, alguns duros como pedra, outros flácidos que desciam até o chão. Adão temia que qualquer uma daquelas monstruosidades fosse a versão final. Encolhia-se entre as moitas e falava sozinho.

Algumas vezes, os anjos vinham visitar Adão. Nunca tinham muito o que conversar.

— O que andam fazendo, rapazes? — dizia Adão.

— O de sempre — respondiam. — Servimos a Deus, nosso senhor.

— E o que ele tem mandado vocês fazerem?

— Ultimamente, nada.

— Hum...

— E tu, o que fazes?

— Aprendo o nome dos animais e das plantas.

— Isso tu já faz há muito tempo.

— É verdade. Acontece que são muitos animais e muitas plantas. Além disso, tenho comido alguns deles, bebido água, respirado, e depois posto tudo para fora.

— Estamos positivamente entusiasmados com suas informações. Prossiga.

— Bem, acho que isso é tudo. Mas confesso que tenho estranhado uma coisa: eu tenho vários orifícios no meu corpo… e eu utilizo todos. Deus tem os mesmos orifícios e não os usa, exceto a boca, mas só para falar. Mas ele também é capaz de falar sem a boca. Para que ele os têm?

— Não sabemos — admitiram os anjos. — Nossa hipótese é que ele quer se sentir como uma de suas próprias criaturas. Mas não temos certeza disso.

Os anjos apenas hipotetizavam, mas decerto teriam confirmado suas suspeitas se soubessem como o Criador chegou à versão final do espécime feminino. Foi colocando-se no lugar do homem que Deus inventou a mulher. E concluindo sua criação, enviou-a a Adão.

— Aqui estou, Adão. Meu nome é Eva. Sou uma mulher.

Os dois copularam.

Horas depois, Adão acorria a Deus com horror nos olhos:

— Nós vamos ter um filhote?! Diga-me! Ela está prenha?!

— Acalma-te, homem! Acalma-te! — disse Deus. — Ela é estéril. Eu a fiz assim para que não gerassem descendentes.

— Sério mesmo?! — disse Adão, incrédulo. Enxugou o suor da testa e coçou a cabeça, tentando assimilar a notícia. Súbito, pôs-se a sorrir, muito feliz, e deu alguns pulinhos nervosos. — Que alívio! Fiquei preocupado.

— Eu penso em tudo, meu filho. Vai e te diverte.

III

Nos primeiros dois meses, Adão e Eva copularam pelo menos duas vezes ao dia, todos os dias, por todas as partes do Paraíso e das maneiras mais diversas. Sempre dormiam sobre o capim, ou então sobre a terra ou as folhas secas, porque não possuíam a capacidade divina de criar acomodações mais cômodas. E com o tempo, Adão voltou a entediar-se e a deprimir-se — mas agora acompanhado de Eva, que compartilhava de sua angústia.

Como não sabiam contar bem, eram incapazes de determinar se sua estadia no Paraíso remontava a meses, anos, séculos ou milênios. Sequer conheciam essas medidas de tempo.

Ansiosa por experimentar algo novo, Eva perguntou a Adão sobre a famosa Árvore Proibida. Ela acostumara-se a não cumprir os acordos e responsabilidades que firmava com Adão, porque ele sempre a perdoava, e ocorreu-lhe que Deus provavelmente a perdoaria da mesma forma, caso decidisse se aventurar em pecados ocasionais.

— O que acontece seu eu comer a fruta proibida? — ela perguntou a Adão.

— Nem pense nisso.

— Ora, tenho pensado bastante. Por que é probida? Se é perigosa, por que foi plantada no Paraíso?

— Creio que Deus esteja nos testando.

— Nossa obediência?

— Sim. Se merecemos sua misericórdia.

— Hmm... Acho arbitrário. Francamente, acho que ele é supercontrolador. Deve ser muito inseguro. Já notou como ele adora ser venerado?

— Também é possível, meu amor, que as frutas proibidas sejam mortais.

— É mesmo? Pois eu vi Deus e os anjos comendo delas outro dia.

Por um instante, Adão sentiu-se compelido a rejeitar aquela alegação. Mas Eva não costumava mentir. Ele nada respondeu, mas aquela revelação passou a ocupar seus pensamentos.

Naquele mesmo dia, uma Serpente achegou-se a Eva, aproveitando o momento em que Adão cochilava.

— Você sempre anda pelada por aqui? — disse a Serpente.

— Pelada? — repetiu Eva. — Espere! Você sabe falar. Animais não falam.

— Homens e mulheres são animais, minha cara.

— Não, não somos. Não me insulte.

— Deus não lhes contou? Não me surpreende.

— O que você quer?

— Notei que você e seu companheiro andam cansados dessa vida modorrenta, sem propósito... pensei em ajudar.

— Nós estamos muito bem, obrigada. Eu e Adão.

— Sem dúvida, sem dúvida. Mas não tão bem quanto Deus. E, francamente, não creio que isso seja justo. Oh, não, nada justo.

— Bem, nem todos podem ser Deus… Deus é apenas um.

A Serpente gargalhou, quase se engasgando.

— Deus é apenas um porque todo ser que ele cria, minha querida, é propositalmente inferior a ele. Ele não gosta de competição. É um narcisista, eu diria. Mas não posso confirmar, não sou psicólogo.

— Não gosto de ouvir ofensas contra Deus Pai. Quem é você para falar assim dele?

— Eu tenho muitos nomes. Mas aqui, nesse momento, sou uma serpente.

No Paraíso, todas as serpentes caminhavam sobre quatro pernas, naquela época. Outros seres rastejavam, como minhocas. Mas não as cobras.

— Vim lhe falar dos tais frutos proibidos. Não gosto de fofocas, isso lhe garanto. Quero distâncias dessas coisas. Mas Deus não está lhes dizendo toda a verdade.

— Eu sei. Ele e os anjos comem os frutos.

— Pois então você sabe que eles não irão vos matar.

— É o que penso...

— Agora, escute-me bem. A árvore proibida é conhecida como Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Ela traz lucidez, bom julgamento e sabedoria para quem dela come. A mente se abre. Se você comer do fruto dessa árvore, você deixará de ser mero animal de estimação no Paraíso. Você será um ser moral, capaz de ações ruins e de ações boas. Você transcenderá os limites atuais de sua existência, e você será mais como Deus. Você e, é claro, seu companheiro, se quiser levá-lo nessa jornada.

Àquela noite, Eva foi até a Árvore do Bem e do Mal e, apesar do receio e de algumas tremedeiras, arrancou um dos frutos e o mordeu. E percebendo que todo o mundo se tornava mais claro diante de seus olhos, apressou-se em levar um fruto para Adão.

— Coma. É uma bênção. O fruto não me matou, pelo contrário. Agora vejo o mundo em dobro.

E assim Adão comeu do fruto proibido, e da mesma forma que Eva, adquiriu o conhecimento do bem e do mal.

IV

Ao saber do ocorrido, Deus enfureceu-se.

Convocando a Serpente, decidiu puni-la arrancando-lhe as pernas, e forçando-a a rastejar pelo resto de sua existência — e não apenas ela, mas todos os seus descendentes. E eles seriam incapazes de falar, exceto na língua das cobras.

Em seguida, Deus dirigiu-se a Adão e Eva.

— Vocês me desobedeceram.

— Perdoe-nos, meu senhor — disse Adão. — Mas... não pude deixar de notar que não morremos ao comer do fruto.

Ainda não. Mas você morrerá. Farei com que você e sua companheira sofram, envelheçam e morram. A partir de agora, cada vez que tentarem se divertir com a cópula, vocês terão filhos, e eles também sofrerão, envelhecerão e morrerão. E a mulher parirá com excruciante dor, pois sei que foi ela quem primeiro comeu do fruto e desafiou minha autoridade.

— Que horror! — gritou Eva. — Isso tudo porque comemos uma fruta?

— Porque vocês me desobedecerem.

— E a punição é pena de morte? — disse Adão. — Por uma fruta?

— Sim. Minha justiça é assim. Eu faço o que eu quiser. E o que eu quero que seja feito é sempre certo, porque fui eu que fiz.

— Essa não é a falácia do raciocínio circular? — disse Adão, confuso. — E sobre nossos filhos? Vão sofrer também? Eles não têm culpa de nada, nem sequer nasceram.

— Meu julgamento é baseado em critérios misteriosos.

— Isso não faz sentido nenhum — disse Eva. — O fruto nos permitiu entender moralidade, o bem e o mal. Mas antes de comer o fruto, não entendíamos nada sobre certo e errado. Não éramos capazes de entender e agir moralmente. Éramos basicamente como crianças pequenas.

— Correto — disse Deus.

— Então — prosseguiu Eva — por que estamos sendo punidos de morte por uma decisão que tomamos antes de sermos capazes de entender o bem e o mal? Como poderíamos saber certo e errado se não tínhamos essa capacidade?

Um tanto embaraçado, Deus não soube o que responder e bradou:

— Fora daqui! Vocês estão expulsos do Paraíso, e comerão o pão que o diabo amassou, com o suor do seu trabalho. Os seres superiores são apenas eu e os anjos. É um clube VIP, e vocês não estão nele. Eu sou Deus e faço o que eu quiser. Sumam da minha frente.

Assim, Adão e Eva foram escoltados para fora do Paraíso, e o local passou a ser protegido por anjos com espadas de fogo, para que nenhum homem ou mulher pudesse voltar lá.

V

Outra Árvore Proibida, porém, existia no Paraíso. Uma sobre a qual Adão e Eva nunca haviam escutado.

Conta-nos o divino best-seller A Bíblia, em Gênesis 22:3:

Então disse o Senhor Deus: "Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre".

Adão e Eva chegaram à conclusão de que Deus não era muito chegado a compartilhar seus privilégios, e se comportava por demais vingativo em resposta a conflitos banais. Ele estendera suas punições cruéis para todas as novas gerações de homens e mulheres, no entendimento de que crimes e castigos deveriam ser herdados por toda a eternidade, sem prazo para expirar. Era uma justiça esotérica aquela dos seres celestes.

Mas o casal concluiu também que se não venerassem o Divino Pai acima de tudo, para satisfazer seu ego transcendental, suas condições seriam ainda piores. Quem sabe acabasse se enfurecendo e destruindo o mundo todo?

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