A Morte do Mundo - Conto Surreal de Victor Valente | Fantástica Cultural
CONTO

A Morte do Mundo - Conto Surreal de Victor Valente

Victor Valente
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Talvez me chamem de louco, mas o mundo anda desaparecendo. Temo que logo não reste nada.

I

A Morte do Mundo - Conto Surreal de Victor Valente

T alvez me chamem de louco, mas o mundo anda desaparecendo. A cada dia some um pouco. Temo que logo não reste nada.

Ruas quase vazias, casas abandonadas... As pessoas já não são as mesmas. Ainda as vejo indo e vindo, mas agora como espectros — ou como um povo há muito extinto que vagasse, inconsciente, pelo mundo dos vivos. Às vezes falam entre si, mas sua voz soa como os suspiros das árvores quando balançadas pelo vento. Às vezes olham para mim com um olhar perdido, sonâmbulo, e creio que não me veem.

Não sei quando isso começou. Lembro-me que, a princípio, eram apenas os transeuntes a desaparecerem ou a se transformarem. Aquilo me inquietava, pois não reconhecia neles seres humanos. Eram formas que se moviam... Quando eu lhes falava, ou olhava para eles, perguntava-me se existia algo por detrás de seus olhos.

Também meus amigos e familiares foram acometidos pela estranha epidemia. Quando conversávamos, eles falavam através de mim, e ao me escutarem, raramente entendia-lhes as palavras. Talvez falassem outra língua. Mas desconfio que suas falas não passassem de simulacros, imitações das conversas humanas sem qualquer sentido ou conteúdo.

Com o tempo, entendi que todos eles eram impostores. Não sei dizer de que são feitos, ou qual seu propósito. Tampouco saberia dizer para onde foram as pessoas de verdade... se é que elas um dia de fato existiram.

Onde quer que eu estivesse, estaria sozinho — mas nas ruas, sentia-me cercado por fantasmas. Decidi não sair mais de casa.



II

Logo vieram, de mãos dadas, o silêncio e a escuridão. Chegaram aos poucos, de mansinho.

Com o passar das semanas, os ruídos do mundo reduziram-se a sussurros. Eu ainda escutava os pássaros, os carros, os trovões — mas os sons pareciam brotar de um velho toca-discos, perdido à distância. Quis acreditar que o problema fosse meus ouvidos. Dentro de casa, porém, tudo soava normalmente. Do lado de fora, as coisas foram se calando até que eu não mais as escutasse.

E a luz do sol... até mesmo ao meio-dia, com céu limpo, eu não mais enxergava o branco e o dourado solar. Abria a janela e olhava direto para o sol, implorando para que me ofuscasse quase à cegueira. Mas seu brilho esmaecera. Seguiram-se dias nublados, cinzentos, cada vez mais sombrios.

Pensei realmente estar louco, àquelas alturas. Nada era como antes, mas, ainda assim, eu mantinha minha rotina de trabalho, pelo computador, e tudo de que precisava era entregue em minha porta.

As pizzas, as compras de supermercado, tudo chegava nas condições esperadas, indicando que, talvez, o mundo seguisse funcionando lá fora. Porém, certo dia dei por falta do sol. Tentei recordar a última vez que estivera acordado durante o dia... mas não me lembrava. Sempre que eu despertava, a noite já havia caído... e nunca mais consegui ficar acordado para ver o nascer do sol.

Assim, eu vivia apenas à noite. De dia, eu não existia... ou seriam os dias que já não existiam?

Resignava-me a observar o mundo noturno pelas janelas do meu apartamento, no vigésimo segundo andar. Já não via carros nem pessoas em parte alguma. Nunca mais vi a lua, nem as estrelas. As luzes dos prédios foram se apagando, uma a uma, noite após noite... talvez para sempre.

Certo dia acordei e, ao olhar para fora, nada vi senão uma cor: o preto absoluto, estampado em todas as direções.



III

Bateu-me, então, o desespero. Pensei: o problema não pode ser o mundo... só pode ser minha cabeça. Supus que meus sentidos falhavam e que, em breve, perderia contato com a realidade. Se assim fosse, eu afundaria, paralisado, em minha própria mente, para dali nunca mais sair. Morreria catatônico.

Ao procurar contatos no celular, contudo, descobri que não possuía nenhum. Alguém haveria de os ter apagado, concluí. Mas ao procurar ajuda pela internet, também me deparei com o nada — telas em branco, onde quer que eu procurasse. Todas as letras do alfabeto eram agora a mesma, repetindo-se ao infinito. Tentei lembrar de alguém que conhecesse... e, horrorizado, percebi que não me lembrava de um único nome.

Com o coração disparado, corri para a porta, destranquei-a e dirigi-me para o elevador.

Estava desativado.

E quando procurei as escadas... A porta para a escadaria encontrava-se trancada.

Retornei para o apartamento, enfurecido. Alguém devia ser responsável por aquilo. Não era loucura, era uma conspiração. Em que tipo de experimento eu teria me metido?

Quando quis voltar ao corredor, a fim de falar com os vizinhos, não pude encontrar nenhuma porta além da minha — nem mesmo a da escadaria. Onde antes estivera o elevador, apenas vi uma parede.

Tranquei minha porta, trêmulo e confuso, e caminhei até a geladeira. Descobri-a vazia. Há quanto tempo eu não bebia? Consultei relógios, calendários... Datas, números, ponteiros — nada fazia sentido. Afinal, como eu poderia estar mantendo uma rotina de trabalho sem saber dos dias e dos horários? E com o que eu trabalhava? Qual fora a última vez que comera ou dormira?

Atirei-me no sofá, com a cabeça ardendo. Suava frio. Foi quando me ocorreu: eu não recordava meu próprio nome.



IV

Estes são meus últimos momentos. Dói-me dizer, mas os demais cômodos do apartamento evaporaram. Primeiro as luzes se apagaram, e depois as paredes, o teto e o chão desfizeram-se em nada. Agora estou no quarto, cegado pela escuridão, estirado na cama como um cadáver.

Não movo meus braços ou pernas faz alguns minutos. Receio que se tentar, acabe descobrindo que já não os possuo.

Duvido que se trate de loucura. Mas assim sendo, que diabos estaria acontecendo? Teria sido o mundo uma ilusão da minha cabeça? Ou, pelo contrário, teria o mundo alucinado minha existência?

Sei que estou perdendo minhas memórias. Já não sei mais nada sobre mim mesmo. Será que algum dia soube? Também disso não me recordo.

Tenho a impressão de que, no passado, eu já fui capaz de me mover. De que possuía longas estruturas que se estendiam de mim... estruturas sólidas, mas flexíveis, talvez como galhos ou raízes. Com elas, eu atravessava o espaço, tocava outras existências semelhantes à minha. Mas não sei o que isso significa. Não sei o que é existir.

Talvez seja o pensar. É o que possuo, e nada mais.

Talvez seja isso o existir.

Mas também meu pensamento falha. Eu...



V

Acordei encolhido em uma caverna, os pelos eriçados dos pés à cabeça. Pensamentos tormentosos haviam perturbado meu sono. Desconfiei que fosse uma febre. Talvez por isso eu não lembrasse como viera parar ali.

Ao sair da caverna, vi três pequenos primatas brincando na relva. Eram minha prole. Logo veio procurar-me minha companheira, ainda jovem e bela, sua pelagem castanho-clara ondulando ao vento. Trazia-me umas margaridas que colhera nos campos, a fim de que os espíritos mais rapidamente me curassem.

— Como estás? — ela me perguntou. — Cara triste.

— Tive um sonho ruim — respondi. — Vi a morte do mundo.

— O nosso mundo?

— Não. Outro mundo. Vi morrer.

— Alegra-te. No teu sonho, um mundo nasceu e morreu. Como todos nós. Durante o sonho, ele existiu.

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