Série Num Futuro Próximo #17

D izem os historiadores que a eugenia não costumava ser malvista no passado. Pelo que tudo indica, foi um certo pintor austríaco, lá pelos anos 30, que deu má fama à prática (assim como ao bigode retangular). Assassinatos em massa talvez tenham sido a causa, mas quem há de saber?
O fato é que a eugenia tem sido praticada pelo mundo todo há milênios — não com extermínios, mas meramente pela escolha de parceiros para reprodução, segundo traços desejáveis para os filhos.
A manipulação genética, hoje possível, permitiria otimizar esses traços desejados pelos pais em seus descendentes. Porém, o fantasma do pintor austríaco sempre aparece quando esses desejos entram em pauta.
Num futuro próximo, porém, esse tabu histórico será superado pelo desejo das pessoas de serem menos feias, menos burras e menos doentes.
O cavalo de Troia será a cura de doenças, é claro.
Quem em sã consciência preferiria trazer ao mundo um filho doente, caso tivesse a chance de trazer, pelo contrário, um ser humano saudável, com potencial de sofrer muito menos na vida?
Assim, uma a uma, as doenças genéticas serão curadas antes mesmo da gestação. Algumas dessas doenças manifestam-se logo no nascimento, e outras aparecem posteriormente, durante a vida; todas serão corrigidas.
Para isso, todo novo ser humano será gerado em laboratório. A união dos gametas não será mais realizada pelo casal durante o ato sexual, mas por técnicos de uma empresa especializada, usando os espermatozoides e os óvulos dos progenitores.
Logo, outros traços de saúde indesejáveis desaparecerão. Ninguém mais nascerá cego ou com propensão à miopia e outras condições de visão adversas. A indústria dos óculos irá à falência. Ninguém mais nascerá surdo, ou com qualquer limitação física. E ninguém mais terá propensão à obesidade.
Cegos, surdos, mudos e obesos declararão, em protesto, que suas comunidades estão sofrendo genocídio. Nenhum deles, contudo, será ferido nesse processo.
Com o fim das doenças causadas e influenciadas pelos genes, os pais passarão a solicitar outras alterações do DNA. Por exemplo: e quanto às condições psicológicas adversas? E quanto à inteligência?
Outra vez, comunidades protestarão em fúria, acusando a ciência de eliminação sistêmica de seus membros: autistas de todas as partes do espectro, pessoas com síndrome de Down, entre outros grupos, não ficarão nada felizes com a ausência de novos indivíduos nascendo com essas condições.
Também outros quadros, como tendência à depressão, por exemplo, serão cuidadosamente corrigidos na pré-gravidez.
Mas os pais não ficarão satisfeitos com a mera ausência de traços que considerem indesejados. Eles demandarão traços positivos, dentre os quais um dos principais é alto QI.
A princípio, a sociedade entrará em crise: os gênios tomarão os melhores empregos, os melhores postos na sociedade, e as pessoas geradas tradicionalmente, com suas limitações, perderão espaço e relevância pelo mundo inteiro. Como em Gattaca. Isso irá gerar conflitos sociais brutais. Depois de três gerações, no entanto, todos terão alto QI, e a humanidade, inteiramente composta por Einsteins, colonizará a galáxia inteira.
Antes disso, também veremos o fim da feiura, assim como de compleições físicas incomuns, como anões. A partir de então, todo personagem anão de filmes e séries será gerado por computação gráfica.
Todo novo bebê crescerá para se tornar, pelo menos em aparência, uma top model ou um galã de cinema. Será o fim das assimetrias faciais e de corpo, o fim da calvície, o fim dos short kings (homens baixos), o fim dos vesgos... e o fim de alguns itens fisiológicos muito pequenos, seja entre homens, seja entre mulheres.
Como todos lindos, saudáveis e geniais, uma última fronteira minada acabará sendo cruzada: as pessoas LGBTQIAP+.
Ao se depararem com esta escolha, os pais hesitarão. Seria politicamente correto solicitar às empresas de fecundação sob medida que seus filhos fossem heterossexuais?
Envergonhados ou não, os pais passarão a exigir que seus descendentes não sejam gays, bissexuais ou qualquer outra opção outra que heterossexuais tradicionais. E, obviamente, a comunidade LGBTQIAP+ entrará em modo de guerra, redobrando as acusações de genocídio.
As pessoas transgênero, afinal, passarão a nascer no corpo que dizem preferir — mas, por alguma razão, elas protestarão, atacarão os laboratórios de fecundação com armas e bombas, e enviarão ameaças de morte para todos os e-mails que encontrarem. Pelo jeito, elas preferem continuar no "corpo errado", enfrentando a disforia de gênero por meio de hormônios, cirurgias paliativas e ativismo.
Mas todos os protestantes, eventualmente, envelhecerão e morrerão, e o mundo será herdado pelos mutantes de laboratório, como o Khan de Star Trek: super-humanos fabricados para a perfeição e a máxima funcionalidade.
Eis a seleção artificial das espécies — a evolução calculada e programada.
E nós, dinossauros, seremos extintos.