
V ocê provavelmente nunca ouviu esse argumento antes. Eu, pelo menos, nunca ouvi. Trata-se de uma simples, mais poderosa perspectiva a ser introduzida aos debates sobre aborto. Seja você contra ou a favor, uma coisa é certa: se você realmente se preocupa com o que é justo e ético, deverá incluir esta consideração em seu posicionamento.
Eis a questão: se apenas os homens engravidassem, as mulheres seriam majoritariamente contra ou a favor do aborto?
Hoje, o posicionamento pró-aborto é mantido por cerca de 50% das mulheres brasileiras1, embora os números variem conforme a fonte. Sejam quais forem os dados reais, temos uma sociedade brasileira dividida nessa questão, e o mesmo vemos por todo o mundo ocidental.
Mas existe um claro conflito de interesses nessa questão.
Por um lado, temos a mulher e seus desejos e direitos (garantidos ou reivindicados). Por outro, temos os direitos do embrião ou feto.
É certo que todo embrião ou feto exigiria o direito de viver e nascer, se pudesse. Infelizmente, eles não têm sido muito ativos no movimento pró-vida, provavelmente por serem incapazes de defender sua própria causa. As mulheres, no entanto, têm plena capacidade de se manifestar e tecer argumentos a seu favor.
Mas qual seria a opinião das mulheres nesse tópico, caso o sexo que engravidasse fosse o dos homens?
Tudo indica que seriam contra. Por uma razão simples: uma mulher terá sempre mais empatia por um bebê, ou um bebê em formação, do que por um homem adulto.
Basta um pouco de honestidade e reflexão por parte das mulheres para que essa conclusão se torne óbvia. Nesse cenário, um homem grávido que não desejasse ter filhos seria visto como um monstro caso abortasse. Afinal, é esperado que as mulheres considerassem alguns meses de desconforto como uma péssima desculpa para matar um bebê em formação. O homem poderia dar o bebê para adoção, após o parto — mas matar a vida humana em formação apenas por sua conveniência (diminuir o desconforto)? Quantas mulheres veriam isso como justificável?
Podemos ver uma contradição atualmente: quando a mulher deseja ter filho, ela o chama de bebê desde os primeiros meses; ele é um ser humano com direitos, para esta mulher. E até no âmbito legal, se alguém mata uma mulher grávida, é condenado por duplo homicídio. Mas quando a mulher não deseja ter filho, mas está gravida, ela trata o ser humano em formação como "um amontoado de células", em alguns casos os chamando de parasitas. Nessas situações, o aborto não é visto mais como homicídio pela mulher pró-aborto, mas como uma "necessidade de saúde".
Se removermos os casos excepcionais do debate (por exemplo, gravidez pós-estupro, gravidez de menores ou situações de risco para a saúde da mãe), as razões para o aborto tendem a ser:
- Não quero ter filhos nunca
- Não quero ter filhos agora
- Não quero ter filhos do homem do qual engravidei
- Não tenho condições de sustentar um filho
- Não quero ser julgada socialmente por essa situação
Em todos esses casos, se seguirmos nosso mundo hipotético em que apenas homens engravidassem, seria demandado do homem grávido que se submetesse a alguns meses de desconforto ("seja homem"!) e, se decidisse por não ter o filho, que o entregasse à adoção.
Afinal, é exigido do homem que se sacrifique pelo bem dos outros. É uma expectativa natural em todas as culturas, como atestam os homens deixados para trás no Titanic e os que são lançados à morte nas guerras para defender uma nação (e suas mulheres e crianças).
As mulheres dificilmente aceitariam as motivações listadas acima como uma justificava válida, se viessem de um homem. Pois repetindo: a mulher tem mais empatia pelo bebê em formação do que pelo homem.
Como esse cenário hipotético é, obviamente, hipotético, o que vemos no mundo real é que a mulher pró-aborto se dá o direito a essas mesmas justificativas — porque, quando é a vez delas de enfrentar um curto período de inconveniência, a empatia não é mais pelo bebê, mas por elas mesmas.
No cenário hipotético, "meu corpo, minhas regras", dito por um homem grávido que quisesse abortar, seria interpretado pelas mulheres como um ato egoísta, e o aborto seria tratado como assassinato.
Não vivemos nesse mundo hipotético, mas a lição que se tira dele é desconcertante.
Fonte:
1. Pesquisa Ipsos / Global Views on Abortion (2021).