Panxenofobia: a raiz inescapável de todos os preconceitos humanos | Fantástica Cultural
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Panxenofobia: a raiz inescapável de todos os preconceitos humanos

Victor Lisboa
⋅ 12 out. 2024
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Existe um preconceito universal por trás de todas as formas de discriminação. Nem mesmo os mais bem-intencionados defensores da igualdade, da tolerância e da empatia escapam.

N unca se falou tanto em preconceitos. Ou em combate às discriminações. A cada ano, novos termos são criados para a longa, longa lista de categorias discriminatórias. E ironicamente, quanto mais atenção se dá aos preconceitos, mais o problema parece se agravar. Porém, basta darmos um passo atrás, para observarmos a situação com mais distanciamento e clareza, e percebemos que nossa sociedade está combatendo fogo com fogo. Estamos todos à mercê da panxenofobia.

Lista de Preconceitos e Discriminações:
Racismo Sexismo
Homofobia Transfobia
Misoginia Misandria
Xenofobia Islamofobia
Antisseminismo Cristofobia
Ageísmo Capacitismo
Classismo Machismo
Bifobia Gordofobia
Fator Comum a Todos:
Panxenofobia

Como sociedade, chegamos à conclusão de que certos preconceitos devem ser evitados, ou mesmo combatidos. Vários já são criminalizados, e muitos advocam por ainda mais leis e mais punições, a fim de incluir as categorias de discriminação recém-nascidas. Mas assim como a Hidra mitológica, a cada cabeça do monstro que se decepa, outras duas nascem para nos aterrorizar.

Eis o paradoxo: se chegarmos às últimas consequências do combate à discriminação, tanto os preconceituosos quanto os antipreconceituosos acabarão na cadeia.

Isso porque aqueles que têm enfrentado mais ferrenhamente os preconceitos, em geral por meio de ativismo, são motivados por preconceitos de teor similar. Muitas vezes, os que combatem a discriminação agem com mais ódio e preconceito do que aqueles a quem criticam. A explicação é simples:

A moralidade é um mecanismo psicológico cuja função evolucionária é propagar os genes de um dado grupo.

À primeira vista, e com ingenuidade, pode parecer-nos que a luta social é por tolerância, por justiça, pela paz. E muitas pessoas acreditam, de fato, nesses valores, e os praticam em suas vidas. Mas no front de batalha ideológica, onde se elevam as vozes mais vibrantes e influentes, a motivação raramente é a aceitação e a assimilação do diferente. Grande parte dos movimentos por tolerância esconde, atrás de sua máscara virtuosa, o desejo incontido pela aniquilação de oponentes (às vezes, inimigos que nem sabem que são inimigos).

Trata-se de um instinto tribal.

Embora o ser humano seja capaz de praticar uma moralidade verdadeiramente congruente, este fenômeno é raro. Em nossa espécie, o mais comum é a moral irracional, aquela baseada em instintos. Alguns códigos morais estão impressos em nosso DNA, como cooperar com a tribo, adequar-se aos valores da tribo, não ferir os membros da tribo, e estar disposto a pilhar e assassinar membros de outras tribos. Estes padrões de comportamento foram a norma entre humanos ao longo de sua evolução, ao redor de todo o planeta e durante quase toda a história, por garantirem a sobrevivência da espécie, e ainda persistem no coração da civilização contemporânea.

Durante dezenas de milhares de anos, os seres humanos viveram em tribos, e a diferenciação entre nós e eles eram simples:

  • Relação com os pares: O instinto moral levava os indivíduos a respeitar o bem-estar e o interesse de seus companheiros de tribo. Caso algum membro violasse as regras coletivas, cometendo violência ou roubo, poderia ser expulso — e a expulsão provavelmente o levaria à morte, devido às dificuldades de sobreviver em condições selvagens, sem a rede de colaboração da tribo, e o perigo de ser morto por outras tribos. Além disso, uma vez expulso, o indivíduo não poderia passar seus genes adiante. Essas condições determinaram a evolução da moralidade instintiva, em termos de colaboração intragrupo (também observável em incontáveis animais, como lobos, chimpanzés, gorilas, etc.).
  • Relação com os estrangeiros: As tribos às vezes faziam aliança com outras tribos, em geral com aquelas geneticamente próximas, formando clãs. No entanto, as alianças eram instáveis e se rompiam frequentemente. De forma geral, não existia qualquer consideração moral em relação a pessoas estrangeiras à tribo ou à rede de alianças. Assim, era prática comum a pilhagem e o massacre de outras tribos e povos, atos de violência aceitos como naturais e legítimos. Estes conflitos também estão relacionados à propagação dos genes, cujo exemplo mais primitivo remonta à extinção dos neandertals, possivelmente causada por conflitos com os Homo sapiens.

Guerras e conflitos entre tribos, durante a história e a pré-história, foram registrados por todo o mundo. Seja entre os povos indígenas das Américas do Sul, Central e do Norte, seja entre as tribos africanas, seja entre grupos asiáticos, o padrão de barbarismo contra o outro, contra o estrangeiro, sempre foi o mesmo.

Antes do imperialismo europeu, houve o imperialismo islâmico, o mongol, o chinês. Vikings, hunos e outros tantos povos são conhecidos por invasões, pilhagens e massacres. A própria Bíblia narra os ataques das tribos de Israel contra os povos vizinhos, relatando genocídios, sequestros de mulheres para casamentos forçados, roubos e captura de territórios. A aglutinação de poder em grandes Estados não eliminou estas práticas, apenas as empurrou para as fronteiras e para o lado externo do território, enquanto os conflitos internos (gerados por uma tribo-nação grande demais, descoordenada) eram resolvidos via repressão.

Hoje, embora não vivamos mais em tribos, nossa estrutura psicológica continua tentando responder segundo as condições tribais.

Esta é uma das razões principais para a polarização política que ocorre em quase toda nação. Não são apenas interesses racionais opostos, negociados dentro de um sistema democrático. Pelo contrário, trata-se de uma força primitiva e irracional, para muitos irresistível, de apoiar fanaticamente um lado (o nós) e odiar apaixonadamente o outro (o eles), desumanizando-o e demonizando-o.

Assim, com pouco esforço, pode-se notar que por trás de narrativas aparentemente racionais e bem-intencionadas, muitos indivíduos são movidos por fantasias macabras de aniquilação.

Nós não queremos nos enxergar como pessoas más, no entanto. Por esta razão, o ser humano desenvolveu a capacidade — e a propensão — de elaborar narrativas para justificar suas ações, isto é, racionalizações falaciosas para ações perversas. O homem mente para si mesmo, e se convence. É assim que um oficial nazista conseguia trabalhar em um campo de concentração, durante o dia, e dormir tranquilo à noite, com a consciência tranquila.

A moralidade instintiva do ser humano, portanto, é terrivelmente falha, e tem como base a panxenofobia:

Panxenofobia: propensão humana a aplicar critérios de justiça diferentes a outros seres humanos, pressupondo que indivíduos possuem valores positivos ou negativos com base em estereótipos, e racionalizando práticas injustas e discriminatórias por meio de narrativas legitimatórias e moralização falaciosa.

Ou seja, a panxenofobia inclui todas as formas de discriminação, em que dado indivíduo é tratado de forma injusta devido à categoria (grupo) a que pertence, ainda que a categoria seja arbitrária, ou que a atribuição seja falsa.

A palavra xenofobia significa aversão a estrangeiro, medo daquele que vem de fora, repulsa ao outro. Xénos (ξένος) significa estrangeiro ou forasteiro, e phóbos (φόβος) significa medo, aversão. O termo panxenofobia agrega a palavra pan (παν), que significa todo ou qualquer. Panxenofobia, assim, designa a aversão ou o medo de um indivíduo a algum (ou qualquer) tipo de grupo que não seja o seu próprio.

Dificilmente escaparemos da crise político-identitária atual se não identificarmos, como civilização, as motivações perversas escondidas nas causas e valores que defendemos.

Tendo como justificativa a defesa dos direitos do proletariado, por exemplo, figuras históricas como Mao Tsé-Tung, Joseph Stalin, Leon Trótski, Lenin, Pol Pot, Fidel Castro, Che Guevara, entre tantos outros, coordenaram os maiores massacres do século XX — e da história da humanidade. Pol Pot, líder do regime do Khmer Vermelho no Camboja, exterminou 25% da própria população, sob o pretexto de limpar o país de seus inimigos internos. A justificação moral para tais práticas ainda é amplamente aceita hoje.

De forma semelhante, o fascismo enxergava como um outro indesejável qualquer inimigo do Estado. No caso nazista, o inimigo máximo eram os judeus — e ainda nesse caso, a justificação moral era aceita com entusiasmo por boa parte da população alemã.

Hoje, testemunhamos o capítulo mais irônico e absurdo da história das discriminações: os focos de maior preconceito em nossa sociedade são, atualmente, os que mais acreditam lutar contra os preconceitos.

Autoproclamados antirracistas, sem qualquer constrangimento, defendem políticas racistas, discriminação e segregação racial, fazem julgamentos com base em raça, e manifestam-se com declarações racistas publicamente. Feministas, dizendo-se defensoras da igualdade entre os sexos, demandam (e obtêm) políticas de benefício exclusivo para mulheres, declaram-se publicamente superiores aos homens, manifestam opiniões sexistas, e clamam por um sistema de justiça que trate os sexos de forma diferente, abandonando a imparcialidade para se colocar sempre a favor da mulher. Antifascistas, acreditando se oporem ao sistema e à violência, participam de protestos violentos, ferindo pessoas e destruindo propriedades, em demonstrações políticas antidemocráticas, avessas ao diálogo e à tolerância, pedindo censura, perseguição estatal e prisão de seus oponentes — características de uma ideologia totalitária, como a fascista.

Há incontáveis outros casos, tomando espaço diariamente na mídia, nas redes sociais, nas universidades e entre os políticos. O que há em comum é a panxenofobia, o ódio irracional a determinado grupo, o tratamento injusto (ou a defesa de um tratamento injusto), e uma justificação moral para tal postura.

Em suma, o racista e o dito antirracista são culpados do mesmo crime ético. Boa parte das feministas é tão sexista quanto os machistas de que reclamam. Os antifascistas são tão malevolentes quanto os fascistas, faltando-lhes apenas o poder para executar seu desejo por tirania. E o mesmo vemos para ativistas de diversos outros movimentos. Quase todo vilão se vê como herói.

E assim como o homem tribal matava outro homem sem qualquer remorso, o homem moderno, ao deparar-se com outro homem igual a si, mas de tribo considerada inimiga, nele enxerga um monstro. Ele olha-se no espelho, e vendo a própria imagem, enche-se de ódio, desejando com todas as forças o extermínio daquele demônio abjeto — sem desconfiar que aquilo que mais odeia está, acima de tudo, dentro de si mesmo.

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