Uma Sociedade - Conto de Virginia Woolf | Fantástica Cultural

Artigo Uma Sociedade - Conto de Virginia Woolf
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Uma Sociedade - Conto de Virginia Woolf

Autores Selecionados ⋅ 16 maio 2024
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"Por quê, se os homens escrevem porcarias assim, deveriam nossas mães ter perdido sua juventude para trazê-los ao mundo?"

virginia woolf mulheres anos vinte

Eis aqui como tudo aconteceu. Sentadas um dia depois do chá, éramos cinco ou seis. Umas olhavam pela rua para as vitrines de uma chapelaria onde a luz ainda brilhava intensamente sobre plumas escarlates e chinelos dourados.

Outras estavam ociosamente ocupadas em construir pequenas torres de açúcar na borda da bandeja de chá. Passado um tempo, pelo que eu lembro, juntamo-nos em volta do fogo e começamos a elogiar os homens, como de hábito — tão fortes, tão nobres, tão brilhantes, tão corajosos, tão belos — como invejávamos as que por bem ou por mal deram um jeito de se ligar para sempre a um deles! — quando Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas. Poll, devo dizer-lhes, sempre foi esquisita. A começar por seu pai, homem estranho. Deixou-lhe uma fortuna em testamento, mas com a condição de que ela lesse todos os livros da Biblioteca de Londres. Fizemos o possível para a consolar; embora soubéssemos, no íntimo, que era tudo inútil. Pois, apesar de nós gostarmos de Poll, ela não é lá essas coisas; anda de sapatos desamarrados; e devia estar pensando, quando elogiamos os homens, que nunca um deles iria querer casar com ela. Por fim enxugou as lágrimas. Mas nós, por algum tempo, não entendíamos nada do que ela estava dizendo. Em sã consciência era muito estranho. Disse-nos que, como sabíamos, ela passara a maior parte do seu tempo lendo, na Biblioteca de Londres. Contou-nos que tinha começado pela literatura inglesa, no andar de cima; e que avançava a passos firmes para chegar a The Times, no de baixo. Mas a meio caminho, ou talvez apenas a um quarto, aconteceu uma coisa horrível. Ela não conseguia mais ler. Os livros não eram o que nós pensávamos. "Os livros", gritou ela, pulando em pé e falando com uma intensidade de desolação que nunca hei de esquecer, "são em sua maior parte indescritivelmente ruins!"

E gritamos nós, naturalmente, que Shakespeare escreveu livros, e Milton, e Shelley.

"Ah, sim", ela interrompeu. "Estou vendo que foram bem ensinadas. Mas vocês não são leitoras da Biblioteca de Londres." Seus soluços aqui se renovaram. Por fim, melhorando um pouco, ela abriu um dos livros da pilha que sempre levava ao lado — intitulado "De uma Janela" ou "Num Jardim" ou mais ou menos assim e escrito por um homem chamado Benton ou Henson ou algo semelhante. E leu as primeiras páginas. Nós ouvimos em silêncio. "Mas isso aí não é um livro", alguém disse. Ela então escolheu outro. Dessa vez era um livro de história, mas esqueci o nome do autor. Nossa trepidação crescia à medida que ela avançava. Nem uma palavra ali parecia ser verdade, e o estilo no qual estava escrito era execrável.

"Poesia! Poesia!", gritamos impacientemente. "Leia poesia!" Não consigo descrever a desolação que se abateu sobre nós quando ela abriu um volumezinho e recitou a baboseira sentimental e verbosa que nele estava contida.

"Deve ter sido escrito por mulher", alegou uma de nós. Mas não. Ela nos disse que o autor era um jovem, um dos poetas mais famosos do momento. Que vocês mesmos imaginem o choque que essa descoberta causou. Apesar de gritarmos todas e de pedirmos todas que não lesse mais, ela insistiu e nos leu trechos das Vidas dos Presidentes da Câmara dos Pares. Quando acabou, Jane, a mais velha e sábia de nós, pôs-se de pé para se declarar não convencida.

"Por quê?", perguntou, "se os homens escrevem porcarias assim, deveriam nossas mães ter perdido sua juventude para trazê-los ao mundo?"

Ficamos todas em silêncio; e a pobre Poll, no silêncio, pôde ser ouvida aos soluços: "Por que, por que meu pai me ensinou a ler?"

Clorinda foi a primeira a demonstrar sensatez. "É tudo culpa nossa", disse. "Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma, a não ser Poll, já se deu ao trabalho de o fazer. Eu, quanto a mim, sempre achei que o dever de uma mulher era passar sua juventude tendo filhos. Eu venerava minha mãe, que teve dez; e mais ainda minha avó, que teve quinze; minha própria ambição, confesso, era ter vinte. Passamos por todas essas épocas supondo que os homens fossem igualmente industriosos e que suas obras eram de igual mérito. Enquanto criávamos os filhos, eles, supúnhamos, criavam livros e quadros. Povoamos o mundo. E eles o civilizaram. Mas agora que nós sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, temos de nos jurar que vamos descobrir como o mundo é."

Constituímo-nos assim numa sociedade de fazer perguntas. Uma de nós iria visitar um navio de guerra; outra iria se esconder no gabinete de um erudito; uma terceira assistiria a um encontro de homens de negócios; e todas deveríamos ler, ver quadros, ir a concertos, andar de olhos bem abertos nas ruas e fazer perpetuamente perguntas. Éramos muito jovens. Vocês podem calcular nossa ingenuidade se eu lhes disser que naquela noite, antes de nos despedirmos, concordamos que o objetivo da vida era formar boas pessoas e produzir bons livros. Nossas perguntas seriam direcionadas para saber até que ponto esse objetivo era atualmente alcançado pelos homens. Prometemo-nos solenemente que nenhuma de nós teria um filho antes de nos darmos, todas, por satisfeitas.

Lá então fomos nós, umas para o Museu Britânico; outras à Marinha de Guerra; umas a Oxford; outras a Cambridge; visitamos a Real Academia e a Tate; ouvimos música moderna em salas de concerto, fomos ao Tribunal de Justiça e vimos peças novas. Nenhuma de nós jantava fora sem fazer ao seu acompanhante certas perguntas, anotando cuidadosamente as respostas. De vez em quando nos encontrávamos para comparar nossas observações. Oh, esses encontros, que farra! Nunca ri tanto quanto no dia em que Rose leu suas anotações sobre "Honra" e descreveu como ela tinha se vestido de Príncipe Etíope e entrado a bordo de um dos navios de Sua Majestade. Descobrindo o embuste, o Capitão foi visitá-la (disfarçado agora de cavalheiro à paisana) e exigiu que a afronta à honra fosse reparada. "Mas como?", ela perguntou. "Como?", ele berrou. "Com a bengala, é claro!" Vendo que ele estava fora de si, de tanta raiva, e crendo que seu último momento havia chegado, ela se dobrou e ganhou, para seu espanto, seis tapinhas no traseiro. "A honra da Marinha Britânica está salva!", gritou ele, e ela, reerguendo-se, viu que o suor escorria por seu rosto e que sua mão direita estendida estava trêmula. "Calma lá", exclamou, assumindo uma atitude e imitando a ferocidade da própria expressão dele: "Falta salvar a minha!" "É como diz um cavalheiro", retrucou ele, e caiu em profundo pensamento. "Se seis palmadas vingam a honra da Marinha de Guerra de Sua Majestade", ele ponderou, "quantas vingarão a honra de um particular?" E disse que preferia levar o caso aos oficiais de sua arma. Ela respondeu altivamente que não podia esperar. Ele louvou sua suscetibilidade. "Deixe-me ver", exclamou de repente, "o seu pai tinha carruagem?" "Não", disse ela. "Ou um cavalo de raça?"

"Tínhamos um burro", considerou, "que puxava a ceifadeira". A face dele então se iluminou. "O nome de minha mãe...", ela acrescentou. "Pelo amor de Deus, não mencione o nome de sua mãe!", gritou ele, trêmulo como uma vara verde e rubro até a raiz dos cabelos, e só depois de uns dez minutos ela o pôde induzir a prosseguir. Por fim ele decidiu que se ela lhe desse quatro palmadas e meia no meio das costas e num ponto indicado por ele mesmo (a meia concedida, disse, em reconhecimento ao fato de o tio de sua bisavó ter sido morto em Trafalgar), sua opinião era que a honra dela estaria nova em folha. E assim foi feito; retirando-se a um restaurante, eles beberam duas garrafas de vinho, pelas quais ele insistiu em pagar; e se despediram com protestos de eterna amizade.

Tivemos depois o relato de Fanny sobre sua ida ao Tribunal de Justiça. Na primeira visita ela já chegara à conclusão de que os juízes ou eram feitos de madeira ou personificados por grandes animais semelhantes ao homem que foram treinados para mover-se com extrema dignidade, resmungar e balançar a cabeça. Para testar sua teoria ela abriu um lenço cheio de moscas-varejeiras no momento crítico de um julgamento, mas não foi capaz de julgar se as criaturas davam sinais de humanidade, pois o zumbido das moscas induziu a um sono tão pesado que ela só acordou a tempo de ver os prisioneiros levados para as celas embaixo. Mas pelo seu depoimento decidimos por voto ser injusto supor que os juízes são homens.

Helen foi à Real Academia; porém, quando solicitada a fazer seu relato sobre os quadros, começou a recitar, lendo num volume azul claro: "Oh, o toque de mão que se esvaece, o tom de voz que apazigua. É a casa à caça, a casa à espreita na colina. Ele deu um puxão em suas rédeas. Pouco dura o doce amor. Primavera, meiga primavera, gentil rainha do ano. Estar na Inglaterra, ó, quando lá é abril. Aos homens a pugna, às mulheres o pranto. A trilha do dever é o caminho da glória..." Não podíamos mais ouvir tanto palavreado.

"Não queremos mais poesia!", gritamos.

"Filhas da Inglaterra!", ela começou, mas logo a puxamos para baixo, derramando-se nela, na refrega, uma jarra d'água.

"Por Deus!", ela exclamou, sacudindo-se como um cachorro. "Agora eu vou rolar no tapete e ver se consigo me livrar do que ainda resta da bandeira do Reino Unido. Depois talvez...", e nesse ponto, com toda a energia, rolou mesmo. Ao levantar-se, começava a nos explicar como são os quadros modernos quando Castalia a interrompeu.

"Qual o tamanho médio de um quadro?", perguntou. "Talvez uns setenta por uns noventa centímetros", ela disse. Castalia tomava notas enquanto Helen falava e, feito isso, quando tentávamos evitar uma o olhar da outra, levantou-se e disse: "Seguindo o que vocês me mandaram, fiquei a semana passada em Oxbridge, disfarçada de arrumadeira. Tive assim acesso aos quartos de vários professores e agora vou tentar lhes dar uma ideia — só que", interrompeu-se, "não sei como fazer. É tudo tão esquisito. Esses professores", continuou, "vivem em grandes casas construídas no meio de terrenos gramados, cada qual numa espécie de cela à parte. No entanto eles têm todo o conforto, todas as comodidades. Basta apertar um botão ou acender uma lâmpada. Seus papéis estão sempre perfeitamente arquivados. Livros não faltam. Não há crianças nem animais, salvo uma meia dúzia de gatos errantes e um velho passarinho de canto — um macho. Lembro", contou ela, "de uma tia minha que morava em Dulwich e criava cactos. Chegava-se à estufa pela dupla sala de visitas, e lá, sobre os canos de água quente, eles se achavam às dúzias, feios, atarracados, miúdos, espinhentos, cada qual em seu vaso. O aloé só florescia uma vez em cem anos, disse minha tia. Mas ela morreu antes de isso acontecer..." Nós lhe pedimos que não fugisse do assunto. "Bem", retomou ela, "quando o professor Hobkin estava fora eu examinei o trabalho de sua vida, uma edição de Safo. É um livro de aparência muito estranha, com um meio palmo de grossura, nem tudo de Safo. Oh, não. A maior parte é uma defesa da castidade de Safo, que certos alemães haviam negado, e posso garantir-lhes qual não foi meu espanto ante o ardor com que esses dois cavalheiros discutiram, a erudição que demonstraram, a prodigiosa inocência com que se altercaram quanto ao uso de determinado implemento que para mim era em todos os respeitos semelhante a um grampo de cabelo; especialmente quando a porta se abriu e o próprio Professor Hobkin apareceu. Um senhor idoso, bondoso, afável, mas que podia ele saber de castidade?" Nós não a entendemos direito.

"Não, não", protestou ela, "ele é a honra em pessoa, tenho certeza — não se parece nem um pingo com o capitão de Rose. Eu estava pensando era nos cactos de minha tia. Que poderiam eles saber de castidade?"

De novo lhe dissemos para não se afastar do ponto — contribuíam os professores de Oxbridge para formar boas pessoas e produzir bons livros? — o objetivo da vida.

"E essa agora!", exclamou ela. "Nem lembrei de perguntar. Nunca me ocorreu que eles fossem capazes de formar ou produzir qualquer coisa."

"Creio", disse Sue, "que você cometeu um erro. Provavelmente o professor Hobkin era ginecologista. Um erudito é um tipo de homem muito diferente. O erudito transborda de inventividade e bom humor — talvez um pouco dependente do vinho, mas e daí? — um ótimo companheiro, generoso, sutil, imaginativo — como o bom senso indica. Pois ele passa sua vida na companhia dos melhores seres humanos que jamais existiram.

"Hum", disse Castalia. "Talvez fosse melhor eu voltar lá e tentar de novo." Aconteceu de eu me achar sozinha, cerca de três meses depois, quando Castalia entrou. Não sei bem o que em sua aparência me impressionava; mas não pude refrear-me e, precipitando-me pelo quarto, apertei-a nos braços. Não somente ela estava muito bonita; parecia também irradiar alegria. "Que ar mais feliz!", exclamei enquanto se sentava.

"Estive em Oxbridge", ela disse. "Fazendo perguntas?"

"Respondendo", retrucou.

"Não quebrou nosso voto, não é?", disse eu, ansiosa, notando algo em sua expressão.

"Oh, o voto", disse ela descuidadamente. "Eu vou ter um filho, se é isso que você quer saber. Você não pode imaginar", explodiu, "como é estimulante, como dá satisfação, como é bonito..."

"O quê?", perguntei.

"Ah — bem — responder perguntas", respondeu ela meio confusa. E aí me contou a história toda. Mas, no meio de uma narrativa que me interessava e excitava mais do que qualquer outra coisa que eu jamais tinha ouvido, deu ela o mais estranho dos gritos, mistura de oi e opa...

"Castidade! Castidade! Onde está minha castidade?", gritava. "Socorro, me acudam! A garrafa de cheiro!"

Não havia nada no quarto, a não ser um frasco com mostarda, que eu já estava a ponto de lhe administrar quando ela recuperou a calma.

"Você devia ter pensado nisso há três meses", disse eu severamente.

"É verdade", retrucou ela. "Não adianta muito pensar nisso agora. Por sinal, pôr em mim esse nome de Castalia foi uma ideia infeliz de minha mãe."

"Oh, Castalia, sua mãe..." Quando eu mal começava ela alcançou o pote de mostarda.

"Não, não, não", disse balançando a cabeça. "Se você fosse mesmo casta, teria soltado um berro ao me ver — não ia se atirar pelo quarto para me tomar em seus braços. Não, Cassandra. Nenhuma de nós duas é casta." E assim nós fomos conversando.

Enquanto isso o quarto foi se enchendo, pois era o dia marcado para discutirmos os resultados de nossas observações. Todas, parecia-me, sentiam-se como eu em relação a Castalia. Beijavam-na, diziam como estavam contentes por revê-la. Por fim, com o grupo completo, Jane se levantou, disse que era hora de começar. E começou por lembrar que já havia cinco anos que vínhamos fazendo perguntas e que, apesar de os resultados não serem conclusivos — aí Castalia me deu uma cotovelada, cochichando não estar assim tão certa disso. Depois se levantou, interrompeu Jane no meio de uma frase e disse:

"Antes de você falar mais, quero saber — posso ficar no quarto? Porque", acrescentou, "tenho de confessar que sou uma mulher impura".

Todas olharam para ela espantadas. "Você vai ter um filho?", perguntou Jane. Ela confirmou com a cabeça.

Foi extraordinário ver a expressão dos diferentes rostos. Uma espécie de zumbido percorreu o quarto, no qual eu pude distinguir palavras como "impura", "bebê", "Castalia", e assim por diante. Jane, ela mesma consideravelmente abalada, foi que nos colocou a questão:

"Ela deve sair? É impura?"

A barulhada que se fez pelo quarto poderia ter sido ouvida na rua.

"Não! Não! Não! Ela fica! Impura? Bobagem!" Mas percebi que algumas das mais novas, meninas de dezenove ou vinte, tinham ficado bem por trás, como se a timidez as dominasse. Todas nós a rodeamos, fazendo-lhe perguntas, e por fim vi uma das novas, até então lá no fundo, aproximar-se timidamente e dizer-lhe:

"Mas então o que é castidade? É uma coisa boa, é uma coisa ruim ou afinal não é nada?" E ela respondeu tão baixo que nem pude entender o que dizia.

"Fiquei chocada, sabe", disse outra, "mas só por uns dez minutos".

"Em minha opinião", disse Poll, que estava se tornando irritável de tanto ler na Biblioteca de Londres, "a castidade não é nada a não ser ignorância — um estado de espírito dos mais lamentáveis. Na nossa sociedade só deveríamos admitir as não castas. Proponho que Castalia seja a nossa Presidente".

O que causou profunda dissensão.

"É tão injusto marcar uma mulher por castidade como por não castidade", disse Poll. "Muitas de nós nem têm a oportunidade. Além do mais, não creio que a própria Cassy sustente ter agido como agiu por um puro amor ao conhecimento."

"Ele só tem vinte e dois anos e é divinamente bonito", disse Cassy com um gesto exuberante.

"Proponho", disse Helen, "que a ninguém se permita falar de castidade ou não-castidade, a não ser às que estão amando".

"Nem vem", disse Judith, que havia pesquisado sobre questões científicas, "não estou amando e sim desejosa de explicar minhas medidas para a isenção de prostitutas e virgens fertilizadoras por Ato do Parlamento".

E foi em frente, falando-nos de um invento dela, para ser instalado em estações de metrô e outros lugares públicos, o qual, com o pagamento de uma modesta taxa, salvaguardaria a saúde da nação, atendendo a seus filhos, e aliviando ao mesmo tempo as filhas. Além disso ela concebera um método para preservar em tubos lacrados os embriões de futuros Presidentes da Câmara "ou de poetas ou pintores ou músicos", prosseguiu, "supondo-se, por assim dizer, que essas raças não estejam extintas e que as mulheres ainda queiram ter filhos..."

"Claro que queremos ter filhos!", gritou Castalia impacientemente. Jane bateu na mesa.

"Foi para discutir este ponto que nos reunimos", disse. "Há cinco anos tentamos descobrir se estamos justificadas em dar continuidade à raça humana. Castalia já antecipou nossa decisão. Faltam agora as conclusões de cada uma de nós."

Uma após outra, nossas enviadas se ergueram e apresentaram então seus relatórios. As maravilhas da civilização excediam em muito nossas expectativas e, ao saber pela primeira vez como o homem voa no ar, como fala através do espaço, como penetra no interior de um átomo, como abrange o universo inteiro em suas especulações, um murmúrio de admiração nos veio aos lábios.

"Dá-nos orgulho", exclamamos, "que nossas mães tenham sacrificado sua juventude por uma causa como essa!" Castalia, que a tudo ouvia com a maior atenção, parecia a mais orgulhosa de todas. Então Jane nos lembrou de que ainda tínhamos muito o que aprender, e Castalia pediu que nos apressássemos. Lá fomos pois por um vasto emaranhado de estatísticas. Soubemos que a Inglaterra tem uma população de tantos milhões, uma ou certa proporção da qual vive constantemente faminta e na prisão; qual o tamanho médio da família de um trabalhador e que uma grande porcentagem de mulheres morre de doenças decorrentes do parto. Foram lidos relatórios de visitas a fábricas, ao comércio, a bairros pobres e às docas. Foram feitas descrições da Bolsa de Valores, de uma gigantesca casa de negócios no centro de Londres e de uma repartição pública. Foram também discutidas as colônias britânicas, prestando-se informações sobre o domínio que exercemos na Índia, na África e na Irlanda. Eu, sentada ao lado de Castalia, notei seu desassossego.

"Nunca chegaremos a uma conclusão nesse ritmo", disse ela. "Como a civilização se mostra muito mais complexa do que imaginávamos, não seria melhor nos limitarmos à nossa indagação original? Concordamos que o objetivo da vida era formar boas pessoas e produzir bons livros. Mas esse tempo todo nós só falamos de fábricas, aeroplanos, dinheiro. Vamos falar dos próprios homens, e de suas artes, pois este é o cerne da questão."

Deram assim um passo à frente as que tinham jantado fora, com tiras de papel com as respostas às perguntas feitas, formuladas depois de muitas considerações. Um bom homem, concordáramos, ao menos deveria ser honesto, apaixonado e desinteresseiro. Mas só fazendo perguntas, e partindo em geral de uma distância bem remota do centro, era possível descobrir se determinado homem possuía ou não tais virtudes. Kensington é um bom lugar para se morar? Onde é que seu filho estuda — e sua filha? Agora me diga, por favor, quanto custam seus charutos? Sir Joseph, por falar nisso, é baronete ou apenas cavaleiro? Frequentemente parecia que aprendíamos mais com questões triviais desse tipo do que com as perguntas mais diretas. "Aceitei meu pariato", disse Lord Bunkum, "porque minha mulher queria". Quantos títulos foram aceitos pela mesma razão, nem lembro mais. "Trabalhando quinze das vinte e quatro horas do dia, como eu...", assim começavam dez mil profissionais.

"Não, não, naturalmente o senhor não sabe ler nem escrever. Mas por que trabalha tanto?"

"Minha senhora, com a família crescendo..."

"Mas por que sua família cresce?" Suas esposas também queriam isso, ou talvez fosse o Império Britânico. Mais significativas do que as perguntas, porém, eram as negativas a responder. Bem poucos respondiam todas as perguntas sobre religião e moralidade, e as respostas que eram dadas, não eram sérias. Perguntas sobre o valor do dinheiro e do poder invariavelmente eram postas de lado, ou contrapostas, com extremo risco, à entrevistadora. "Estou certa de que", disse Jill, "se ele não estivesse cortando a costeleta quando eu lhe perguntei sobre o sistema capitalista, Sir Harley Tightboots teria me cortado o pescoço. A única razão que nos fez escapar tantas vezes vivas é que os homens são, ao mesmo tempo, tão esfomeados e tão cavalheirescos. Eles nos desprezam demais para ligar para o que nós dizemos".

"Claro que nos desprezam", disse Eleanor. "Ao mesmo tempo, fiz pesquisa entre os artistas — como se explica isto: nunca houve uma mulher artista, não é mesmo, Poll?"

"Jane—Austen—Charlotte—Brontë—George—Eliot", gritou Poll, como um ambulante apregoando quitutes numa rua dos fundos.

"Maldita mulher!", exclamou alguém. "A mulher é uma chata."

"Desde Safo não se tem visto uma mulher de primeira grandeza...", começou Eleanor, lendo nas páginas de um semanário.

"Já é agora bem sabido que Safo foi invenção algo libidinosa do professor Hobkin", interrompeu Ruth.

"Seja como for, não há razão para supor que alguma mulher já foi capaz ou um dia será capaz de escrever", continuou Eleanor. "No entanto, quando estou entre autores, eles nunca deixam de me falar dos seus livros. Magistral! digo eu, ou: nem o próprio Shakespeare! (pois é preciso dizer alguma coisa), e garanto que eles acreditam em mim."

"Mas isso não prova nada", disse Jane. "Todos fazem o mesmo. O problema", suspirou, "é que isso não parece nos ajudar muito. Talvez fosse melhor examinarmos agora a literatura moderna. Liz, é a sua vez".

Elizabeth se levantou e disse que, para fazer sua pesquisa, teve de se vestir de homem e passar por resenhista de livros.

"Li livros novos praticamente sem parar durante os últimos cinco anos", disse ela. "Wells é o mais popular dentre os autores vivos; depois vem Arnold Bennett; depois é Compton Mackenzie; McKenna e Walpole podem ser postos juntos." E aí sentou-se.

"Mas você não nos disse nada", reclamamos. "Ou estará querendo dizer que esses senhores ultrapassaram em muito Jane—Eliot e que a ficção inglesa está — onde está mesmo aquela sua resenha? — Ah, sim, 'está bem entregue nas mãos deles'".

"Bem entregue, garantida", disse ela, mudando intranquilamente de pé. "E estou certa de que eles dão ainda mais do que recebem."

Disso estávamos todas certas. "Mas eles", pressionamo-la, "eles escrevem bons livros?"

"Bons livros?", disse ela, olhando para o teto. "Vocês devem se lembrar", continuou, falando com extrema rapidez, "de que a ficção é o espelho da vida. E não podem negar que a educação é da maior importância, e que seria imensamente desagradável achar-se você sozinha em Brighton, tarde da noite, sem saber qual a melhor pensão onde ficar e, supondo-se que fosse uma tarde chuvosa de domingo — não seria bom ir ao cinema?"

"Mas o que é que isto tem a ver com aquilo?", perguntamos. "Nada — nada — nada de nada", respondeu ela.

"Diga-nos então a verdade", pedimos.

"A verdade? Pois não é uma maravilha?", ela se abriu: "Há trinta anos que Mr. Chitter escreve um artigo semanal sobre o amor ou sobre torradas amanteigadas quentes e com isso mandou todos os filhos para Eton..."

"A verdade!", exigimos.

"Oh, a verdade", ela gaguejou, "a verdade não tem nada a ver com a literatura", e recusou-se, sentando-se, a dizer qualquer coisa mais.

Tudo era, a nosso ver, muito inconclusivo.

"Senhoras, temos de tentar resumir os resultados", ia dizendo Jane, quando um rumor, que há algum tempo já se ouvia pela janela aberta, abafou sua voz.

"Guerra! Guerra! Guerra! Declaração de guerra!", gritavam homens na rua embaixo.

Entreolhamo-nos horrorizadas.

"Que guerra?", gritamos. "Que guerra?" Lembramo-nos, mas tarde demais, de que nunca tínhamos pensado em mandar ninguém para a Câmara dos Comuns. A respeito disso, esquecêramos tudo. Viramo-nos então para Poll, que alcançara as prateleiras de história da Biblioteca de Londres, pedindo-lhe que nos esclarecesse.

"Por que", gritamos, "os homens entram em guerra?"

"Às vezes por uma razão, às vezes por outra", explicou ela calmamente. "Em 1760, por exemplo..." A berraria lá fora sobrepôs-se às suas palavras. "Novamente em 1797 — e em 1804 — em 1866 foram os austríacos — em 1870, os franco-prussianos — em 1900, por outro lado..."

"Mas já estamos em 1914", interrompemos.

"Ah, agora", ela admitiu, "não sei por que é que estão em guerra não".


* * *


A guerra tinha acabado e a paz já estava sendo assinada quando estive mais uma vez com Castalia no quarto onde costumeiramente ocorriam nossos encontros. Logo nos pusemos a revirar as páginas de nossos velhos cadernos de anotações. "É gozado", refleti, "ver o que nós pensávamos há cinco anos". "Concordamos", citou Castalia, lendo por cima do meu ombro, "que o objetivo da vida é formar boas pessoas e produzir bons livros". Não fizemos o menor comentário a isso. "Um bom homem deve ao menos ser honesto, apaixonado e desinteresseiro."

"Que linguagem de mulher!", observei. "Oh, querida", exclamou Castalia, afastando o livro de si, "como éramos tolas! E tudo por culpa do pai de Poll", continuou. "Aquilo que ele fez de propósito — aquele testamento ridículo, aquela cláusula obrigando Poll a ler todos os livros da Biblioteca de Londres. Se não tivéssemos aprendido a ler", disse ela amargamente, "ainda poderíamos estar tendo filhos na ignorância, e afinal essa seria, creio eu, a mais feliz das vidas. Sei o que você há de dizer sobre a guerra", examinou-me, "e o horror que é ter filhos para os ver mortos, mas nossas mães passaram por isso, e as avós, e as bisavós, e nenhuma reclamou. Elas não sabiam ler. Eu mesma fiz o que pude", suspirou, "para impedir minha filhinha de aprender a ler, mas de que adianta?

Ontem mesmo peguei Ann com um jornal na mão, e logo ela foi me perguntando se ele dizia 'a verdade'. Em breve me perguntará se Mr. Lloyd George é um bom homem, depois se Mr. Arnold Bennett é um bom romancista e finalmente se eu acredito em Deus. Como posso educar minha filha sem nada no que acreditar?", perguntou.

"Certamente você poderia ensiná-la a crer que o intelecto do homem é e será sempre fundamentalmente superior ao da mulher?", sugeri eu. Com isso ela se animou e voltou a revirar os nossos velhos cadernos. "Sim", disse, "pense nas descobertas, na matemática, na ciência, na filosofia, na erudição deles...", e aí começou a rir, "nunca vou me esquecer do velho Hobkin e o grampo de cabelo", acrescentou, e continuou lendo e rindo e eu já achava que estava muito feliz quando de repente ela jogou o livro de lado e exclamou: "Oh, Cassandra, por que você me atormenta? Você não sabe que nossa crença no intelecto do homem é a maior falácia de todas?" "O quê?", exclamei eu. "Pergunte a qualquer jornalista, mestre-escola, político ou dono de botequim do país e todos eles lhe dirão que os homens são muito mais inteligentes do que as mulheres."

"Como se eu duvidasse disso", disse com escárnio. "Como ser de outro modo? Não fomos nós que os criamos e nutrimos e mantivemos em conforto desde o começo dos tempos para que eles pudessem ser inteligentes, mesmo que não sejam nada além disso? Foi feito por nós, o que aí está!", gritou. "Quisemos tanto ter intelecto, que agora temos de sobra. É o intelecto", continuou, "que está na base de tudo. O que há de mais encantador que um garoto, antes de começar a cultivar seu intelecto? É bonito de ver; não se dá ares de importância: compreende instintivamente o significado da arte e da literatura; anda por aí aproveitando sua vida e fazendo com que outros aproveitem também as suas. Mas aí lhe ensinam a cultivar seu intelecto. Ele se torna um advogado, um funcionário público, um general, um autor, um professor. Todos os dias vai para o escritório. Todos os anos produz um livro. Mantém toda uma família com as produções do seu cérebro — pobre coitado! Em breve não poderá entrar num quarto sem que nos sintamos todas incomodadas; ele se mostra condescendente com qualquer mulher que encontra, e nem sequer à própria esposa ousa dizer a verdade; se tivermos de tomá-lo nos braços, temos de fechar nossos olhos, não de alegrá-los. Na verdade eles se consolam com estrelas em todos os formatos, com faixas de todas as cores e com todos os montantes de renda — mas o que temos nós para nos consolar? Que dentro de dez anos seremos capazes de passar uma semana em Lahore? Ou que o menor inseto do Japão tem um nome que é o dobro da extensão de seu corpo? Oh, Cassandra, pelo amor de Deus, vamos inventar um método que permita aos homens terem filhos! É a nossa única esperança. Pois, a não ser que lhes propiciemos uma ocupação inocente, não teremos boas pessoas, nem sequer bons livros; pereceremos sob os frutos de sua desembestada atividade; e não sobreviverá nem mesmo um ser humano para saber que outrora existiu Shakespeare!"

"Já é tarde demais", repliquei. "Não podemos nem cuidar dos filhos que já temos."

"E você quer que eu acredite em intelecto?", ela disse.

Enquanto conversávamos, homens roucos e exaustos gritavam pela rua e, ouvindo-os, ficamos sabendo que o Tratado de Paz tinha sido assinado havia pouco. As vozes foram sumindo ao longe. A chuva caía e por certo interferia com a correta explosão dos fogos de artifício.

"Minha empregada já terá comprado o Evening News", disse Castalia, "que Ann deve estar soletrando enquanto toma seu chá. Tenho de ir para casa".

"Não adianta — não adianta nada", disse eu. "Depois que ela aprender a ler, somente numa coisa você poderá ensiná-la a acreditar — nela mesma."

"Bem, já seria uma mudança", disse Castalia.

Passamos pois a mão nos papéis da nossa Sociedade e, embora Ann estivesse brincando com a sua boneca na maior felicidade, solenemente a presenteamos com o monte, dizendo-lhe que a tínhamos escolhido para ser a Presidente da Sociedade do futuro — com o que a coitadinha caiu em prantos.

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