Colinas Como Elefantes Brancos | Conto Completo de Ernest Hemingway | Fantástica Cultural

Artigo Colinas Como Elefantes Brancos | Conto Completo de Ernest Hemingway
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Colinas Como Elefantes Brancos | Conto Completo de Ernest Hemingway

Autores Selecionados ⋅ 23 mar. 2024
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Um dos mais famosos contos do celebrado escritor norte-americano Ernest Hemingway, autor de O Velho e o Mar.

colinas como elefantes brancos conto de ernest hemingway 3

As montanhas além do vale do Ebro eram longas e brancas. Nesse lado não havia sombra e não havia árvores e a estação era ao sol entre dois trilhos de trem. Perto da estação havia uma sombra cálida de um prédio e uma cortina, feita de cordas com miçangas de bambu, penduradas na porta que dava para o bar, para manter as moscas fora. O americano e a garota com ele estavam numa mesa à sombra, fora da construção. Estava muito quente e o expresso de Barcelona cegaria em quarenta minutos. Ele parava nessa estação por dois minutos e seguia para Madri.

— O que vamos beber? — a garota perguntou. Ela tinha tirado seu chapéu e posto ele na mesa.

— Está bem quente — o homem disse.

— Vamos beber cerveja.

Dos cervejas — o homem disse pela cortina.

— Grandes? — a mulher perguntou da porta.

— Sim. Duas grandes.

A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois descansos de feltro. Ela pôs os descansos de feltro e as cervejas na mesa e olhou para o homem e a garota. A garota olhava o contorno das montanhas. Elas eram brancas no sol e o campo era marrom e seco.

— Elas parecem elefantes brancos — ela disse.

— Nunca vi um — o homem bebeu sua cerveja.

— É claro que não.

— Eu poderia ter visto — o homem disse. — Só porque você diz que eu não teria não prova nada.

A garota olhou para a cortina de miçangas. — Pintaram alguma coisa nela. O que quer dizer?

— Anis del Toro. É uma bebida.

— Podemos experimentar?

O homem chamou "Ei" pela cortina. A mulher saiu do bar.

Quatro reales.

— Queremos dois Anis del Toro.

— Com água?

— Você quer com água?

— Não sei — disse a garota. — Fica bom com água?

— Fica legal.

— Vão querer com água? — perguntou a mulher.

— Sim, com água.

— Tem gosto de licor — a garota disse e descansou o copo.

— Tudo tem gosto de licor.

— É — disse a garota. — Tudo tem gosto de licor. Ainda mais aquilo que você esperou por muito tempo, como absinto.

— Ah, deixa disso.

— Você começou — a garota disse. Estava tudo ótimo. Eu estava me divertindo.

— Tá, vamos tentar nos divertir.

— Tá bem. Eu estava tentando. Eu disse que as montanhas pareciam elefantes brancos. Não foi genial?

— Foi genial.

— Eu queria provar essa nova bebida. Isso é tudo que fazemos, não é — olhar para as coisas e provar novas bebidas?

— Acho que sim.

A garota olhou para as montanhas.

— Elas são montanhas lindas — ela disse. — Elas não parecem elefantes brancos de verdade. Eu só estava falado da cor da pele delas atrás das árvores.

— Quer outra bebida?

— Pode ser.

O vento cálido soprou a cortina de miçangas contra a mesa.

— A cerveja está boa e gelada — o homem disse.

— Está ótima — a garota disse.

— É mesmo uma operação muito fácil, Jig — o homem disse. — Não dá nem para chamar de operação.

A garota olhou para o chão onde as pernas da mesa repousavam.

— Eu sei que você não vai se incomodar, Jig. Não é nada demais. É só para deixar o ar entrar.

A garota não disse nada.

— Eu vou entrar com você e vou estar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e aí é tudo bem natural.

— E aí o que a gente faz depois?

— Depois a gente fica bem. Do jeito que estava antes.

— Por que você acha isso?

— É a única coisa que está nos incomodando. É a única coisa que está deixando a gente triste.

A garota olhou a cortina de miçangas, esticou o braço e segurou duas das cordas de miçangas.

— E você acha que vai ficar tudo lindo e maravilhoso?

— Eu sei que sim. Não precisa ter medo. Eu conheço um monte de gente que já fez isso.

— Eu também — disse a garota. — E depois eles todos ficaram tão felizes.

— Olha — o homem disse —, se você não quiser você não precisa fazer. Eu não vou te obrigar se você não quiser. Mas eu sei que é bem fácil.

— E você quer mesmo fazer?

— Acho que é o melhor a se fazer. Mas eu não quero que você faça se você não quiser.

— E se eu fizer você vai ficar feliz e as coisas vão ser como antes e você vai voltar a me amar?

— Eu já te amo agora. Você sabe que eu te amo.

— Eu sei. Mas se eu fizer, vai ser legal de novo quando eu disser que as coisas são como elefantes brancos, você vai gostar?

— Eu vou amar. Eu já amo agora mas não consigo pensar nisso. Você sabe como eu fico quando estou preocupado.

— Se eu fizer isso você não vai ficar preocupado?

— Não vou ficar preocupado porque é bem fácil.

— Então vou fazer. Porque eu não me importo comigo.

— Como assim?

— Eu não me importo comigo.

— Mas eu me importo com você.

— Eu acredito. Mas eu não me importo comigo. E eu vou fazer isso e tudo vai ficar bem.

— Eu não quero que você faça isso se você se sente assim.

A garota se levantou e andou até o fim da estação. Do outro lado, tinha campos de cereais e árvores seguindo as margens do Ebro. Lá longe, além do rio, tinha montanhas. A sombra de uma nuvem se movia pelo campo de cereais e a garota viu o rio atrás das árvores.

— Isso tudo podia ser nosso — ela disse. — E a gente podia ter tudo e cada dia a gente torna isso mais impossível.

— O que você disse?

— Eu disse que a gente podia ter tudo.

— Não, a gente não pode.

— A gente pode ter o mundo todo.

— Não, a gente não pode.

— A gente pode ir a qualquer lugar.

— Não, a gente não pode. Isso não é mais nosso.

— É nosso.

— Não, não é. E depois que eles tirarem, ele nunca mais volta.

— Mas eles não tiraram ele.

— Vamos ver.

— Volta para a sombra — ele disse. — Você não devia se sentir assim.

— Eu não estou sentindo nada — a garota disse. — Eu só sei das coisas.

— Eu não quero que você faça nada que você não queira —

— Nem isso não é bom para mim — ela disse. — Eu sei. A gente pode tomar mais uma cerveja?

— Está bem. Mas você precisa entender —

— Eu entendo — a garota disse. — A gente não pode quem sabe calar a boca?

Eles sentaram na mesa e a garota olhou as montanhas no lado seco do vale e o homem olhou para ela na mesa.

— Você precisa entender — ele disse —, que eu não quero que você faça isso se você não quiser. Eu estou disposto a ir em frente se isso significa alguma coisa para você.

— Não significa nada para você? A gente podia se acertar.

— É claro que sim. Mas eu não quero ninguém além de você. Eu não quero mais ninguém. E eu sei que é bem fácil.

— É, você sabe que é bem fácil.

— Tudo bem você dizer isso, mas eu sei.

— Você me faz um favor agora?

— Faço qualquer coisa por você.

— Você pode por favor por favor por favor por favor por favor por favor por favor calar a boca?

Ele não disse nada mas olhou as malas contra a parede da estação. Elas tinham etiquetas de todos os hotéis nos quais dormiram.

— Mas eu não quero que você faça — ele disse —, eu não me importo com isso.

— Eu vou gritar — a garota disse.

A mulher chegou pelas cortinas com dois copos de cerveja e pôs elas nos dois descansos de feltro úmidos. — O trem chega em cinco minutos — ela disse.

— O que ela disse? — perguntou a garota.

— Que o trem chega em cinco minutos.

A garota abriu um sorriso encantador para a mulher, para lhe agradecer.

— Melhor eu pegar as malas no outro lado da estação — o homem disse. Ela sorriu para ele.

— Está bem. Depois volta para a gente terminar a cerveja.

Ele pegou as duas malas pesadas e deu a volta com elas pela estação até os outros trilhos. Ele olhou os trilhos mas não viu nenhum trem. Na volta, ele atravessou o bar, onde as pessoas esperando o trem bebiam. Ele bebeu um Anis no bar e olhou as pessoas. Elas esperavam sensatamente o trem. Ele saiu pelas cortinas de miçangas. Ela estava sentada na mesa e sorriu para ele.

— Você está melhor? — ele perguntou.

— Estou bem — ela disse. — Não tem nada de errado comigo. Estou bem.



Título original: Hills Like White Elephants

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