Série Num Futuro Próximo #12

K aren Girlyboss, em um futuro próximo, tornar-se-á a presidenta do Planeta Terra. Eleita pela congregação mundial das nações unificadas, Girlyboss não medirá esforços para implementar uma das reparações históricas mais aguardadas: a devolução de terras e territórios de todo o globo para seus habitantes originários.
Para tanto, a excelentíssima presidenta articulará a maior e mais bem qualificada equipe de historiadores e arqueólogos da história das ciências. Seu objetivo: traçar a origem de todos os lotes de terra do planeta e definir seus moradores primários.
Enfim, seria feita justiça social, a tão sonhada decolonização, um reequilíbrio aguardado por milênios por povos oprimidos e marginalizados.
Decreta-se, assim, a Libertação das Américas — todos os povos que outrora migraram para o Novo Mundo são deportados para seus países de origem. Da América do Norte à do Sul, é permitida tão somente a estadia de indígenas, os reais detentores do continente.
Descendentes de britânicos, franceses e outros europeus voltarão à Europa, assim como portugueses e espanhóis. Os povos afrodescendentes serão retornados, é claro, à África, para não se manterem em território indígena injustamente colonizado.
As deportações em massa serão muito celebradas. Haverá certa dificuldade com os indivíduos mestiços, que precisarão passar anos intercalados em cada continente (um mulato brasileiro, por exemplo, passará um ano em África, em país qualquer, e outro no Brasil).
Entre os indígenas, porém, ocorrerá grande transtorno. Segundo historiadores e registros arqueológicos, os povos originários das Américas viviam em perpétuas guerras tribais por territórios. A terra de uma tribo, em dado ano, havia sido a terra de outra tribo, alguns anos antes. E, infelizmente, nenhuma das tribos estará disposta a ceder à outra. As guerras tribais recomeçarão.
Em pouco tempo, alguns indígenas irão se declarar descentes do Império Inca, do Império Maia e do Império Asteca, entre outros, demandando a reconquista de seus territórios. Como é de se esperar, não haverá aceitação das tribos nesses locais, o que levará a novos atos de imperialismo indígena nas Américas.
Horrorizada e confusa com o colonialismo indígena, a presidenta Girlyboss preferirá não se envolver nesses assuntos, deixando que os sacrifícios humanos, o canibalismo e a escravidão retornem aos impérios ameríndios.
A decolonização mundial surtirá outros efeitos inesperados.
Negros de todas as partes do globo serão reconduzidos à África, para grande insatisfação de quase todos eles. E suas rivalidades tribais, há muito esquecidas, precisarão ser trazidas à tona para determinar suas terras — o que, inesperadamente, produzirá novos confrontos barbáricos.
Já os islâmicos serão relembrados de seu majestoso império multicontinental, conquistado pelo fio da espada por Maomé e seus seguidores, colonizando da Índia, no Oeste, até a Península Ibérica, no Leste, atravessando gentilmente o norte da África, e instalando califados escravagistas por onde quer que passassem. E assim informados, serão todos realojados nos desertos arábicos.
Os judeus, a muito pesar de suas alegações de base religiosa, serão considerados egípcios, de onde haviam partido inicialmente, e perderão o território de Israel. Os palestinos festejarão por alguns dias, até descobrirem que os habitantes originais da região foram os homens da caverna. Sua luta irá continuar indefinidamente.
E ao fim e ao cabo, o projeto progressista da decolonização, promovido bravamente pela presidenta Karen Girlyboss, colocará um fim à diversidade e ao multiculturalismo, reavivando a segregação de etnias em suas respectivas nações e reascendendo tradições riquíssimas do nosso passado que se perderam com a perniciosa influência da Europa moderna, como a escravidão, o canibalismo, os casamentos forçados e os massacres tribais a cada primavera.
Afinal, quem inventou os direitos humanos foi um paquistanês muçulmano, ao contrário do que dizem os historiadores; e quem pôs fim à escravidão, é claro, foi um escravo fugido que mantinha seus próprios escravos em uma colônia sob seu comando militar, e não uma princesa branquela. Ou foi o que me disseram no TikTok.
Estranhamente, as únicas nações que prosperarão nesse futuro próximo serão as dos pérfidos europeus e de certas culturas asiáticas, apesar de seu recém-imposto isolacionismo. Resta descobrir como colocar neles a culpa pelas mazelas do universo — mas não se preocupe, nossa presidenta estará trabalhando nisso.