Pequena Sereia Trans: Uma Fábula para a Era Woke - Série Num Futuro Próximo | Fantástica Cultural

Série Num Futuro Próximo - Arte de Simon Stalenhag

Num Futuro Próximo



1 jun. 2023
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Pequena Sereia Trans: Uma Fábula para a Era Woke

Num Futuro Próximo
Uma atualização para as sensibilidades modernas
pequena sereia

Arial não era uma sereia qualquer. Entre todas as criaturas do oceano, ela era a mais bela, a mais nobre, a mais preciosa. Seu pai, o Rei Roman, regia os sete mares com nadadeiras de ferro, mas estaria disposto a abandonar tudo por sua filha mais querida. Já sua mãe, Verdana, tinha por hábito maltratar a pequena Arial, enciumada pelo afeto excessivo que o marido dedicava à filha.

Ocorre que a Princesa Arial, apesar de todos os seus privilégios — os de sua classe social, os de sua família nobre e rica e os de sua beleza inata —, sofria de um mal perturbador e incomum: ela era transespécie. Incontáveis médicos marítimos tentaram explicar ou curar a condição, sem sucesso. Diagnosticavam-na com a chamada disforia de espécie: Arial era biologicamente uma sereia, mas identificava-se como humana.

Durante a infância, Arial viveu alienada de sua verdadeira identidade, confusa devido aos padrões sociais espécie-normativos. Foi apenas na adolescência que entrou em contato com a teoria queer fish e com o feminismo aquático, o que abriu seus olhos para a ampla gama de possibilidades de ser no mundo. Autores como Garamond, a ostra marxista, Cambria, o camarão que desenvolvera a teoria crítica de espécie, e Calibri, a arraia feminista interseccional, inspiraram-na e a sensibilizaram para a necessidade de autorrevolução.

Assim, Arial decidiu-se por abandonar a sociedade patriarcal regida por seu pai: embora o amasse, não podia tolerar o sistema fascista, capitalista, neoliberal e conservador promovido pela monarquia oceânica. Ela sabia que, no fundo, o Rei Roman era motivado pelo desejo de poder, traço óbvio da masculinidade tóxica, e que sua mãe havia internalizado a misoginia a tal ponto que já não se podia salvá-la.

A próxima etapa foi, é claro, a cirurgia de mudança de espécie. Arial procurou a única cirurgiã que ousara se tornar especialista neste tipo de operação, devido ao banimento de tal prática pelo Rei: a Doutora Helvetica, a polva. O procedimento foi um sucesso, e Arial passou a ter duas pernas, em vez de uma cauda de peixe. Helvetica ainda a instruiu a tomar hormônios humanos periodicamente, para regular seu metabolismo fora do oceano.

É desnecessário dizer que Arial sofreu todo tipo de preconceitos ao ingressar no mundo dos humanos. Mas sua luta por aceitação havia apenas começado. Com o tempo, acabou se envolvendo com um mercador africano e teve uma filha: a jovem Arial Black, que mais tarde viria a ser maldosamente apelidada pelos gordofóbicos de Arial Bold, devido à sua obesidade fora dos padrões de beleza patriarcais.

Hoje, Arial é um exemplo de superação. Ativista pelo direitos das baleias e pela limpeza dos oceanos, a ex-princesa tem promovido campanhas para a transição operatória de sereias em humanos e de humanos em sereias, provando ao mundo que tudo é possível, e que os grilhões da realidade não devem servir de barreira para nossos sonhos.



Atualização do Editor: Arial foi encontrada morta esta manhã, em sua casa no Leblon. Seu corpo foi achado na banheira do apartamento, submerso em água misturada com sal grosso. Segundo o inspetor C. Sans, a polícia tem suspeitas de suicídio, mas a causa do falecimento ainda não foi determinada.


Paulo Nunes
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