O Segredo da Górgona - Conto de Horror de Paulo Soriano | Fantástica Cultural

Artigo O Segredo da Górgona - Conto de Horror de Paulo Soriano
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O Segredo da Górgona - Conto de Horror de Paulo Soriano

Autores Selecionados ⋅ 28 abr. 2024
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Numa noite chuvosa, quando o céu se contorcia aos abalos dos trovões, decidiram as irmãs pôr em prática o plano que engendraram. Cada uma portava um punhal. Lançaram-se furiosamente uma contra outra, como serpentes enlouquecidas.

Para Annabel

gorgona mitologia

O velho professor extraiu um vigoroso trago de seu havana antes de prosseguir.

— Não sabemos tudo. E isto é um ultimato: estamos muito longe de saber toda a verdade — foi o que disse o ancião, dirigindo-se outra vez para a confortável poltrona, onde afundou definitivamente o seu corpo seco e miúdo, que quase desaparecia na névoa densa e olorosa do tabaco.

— O que ousamos saber são poucos fragmentos de verdade, que aqui e ali se encaixam como uma mão numa luva, mas que, no conjunto, têm um quê de inverossimilhança.

— Um exemplo, professor. Eu gostaria imensamente de um exemplo. Um exemplo de como as lendas nos chegaram deturpadas, ou mesmo mutiladas em sua essência, como o senhor há pouco se referiu.

À intervenção de Ambrosius, o professor Anastácio enrugou mais ainda o cenho e pareceu meditar por um instante. Na verdade, eu sei que o professor não estava meditando. Estava se recordando. Era incrível a memória daquele homem octogenário, seco como um caniço, mas ainda ágil e esperto como um felino.

— Narrar-lhes-ei, até onde a memória me permitir, um texto que escrevi há muitos anos, baseado num manuscrito de Teófilo de Alexandria, que eu mesmo recuperei, mas que nunca levei à publicação, porque o papiro desapareceu para sempre, em circunstâncias tão insólitas, tão singulares e inacreditáveis que não convém relatar. Sempre tive medo de cair no ridículo e jamais levaria a público algo que não pudesse provar. Mas o certo é que as górgonas eram mais terríveis do que se pensa hoje. O seu malefício transcendia à mera transformação de suas vítimas em estátuas pétreas. Ouçam-me, e vocês concordarão comigo.

O professor apagou o charuto num cinzeiro e pediu água. Puxamos as cadeiras, dispostas em círculo, para mais próximo do ancião erudito, a fim de ouvi-lo melhor.

— Conta Teófilo que existiam em Éfeso duas pequenas graciosidades: as gêmeas Helena e Desdêmona. Filhas de um sacerdote de Efesto, bem que poderiam gozar de uma reputação à altura de sua condição social, especialmente porque, com os seus cabelos ruivos e as suas peles alvas, eram duas beldades magníficas. E tanto é assim que serviram de modelo às Gêmeas de Éfeso, que muitos atribuem a Fídias, hoje desaparecidas, e das quais somente remanescem algumas poucas descrições. Infelizmente, as descrições divergem nos detalhes, mas convergem no fato de que as esculturas eram maravilhosas. E que reproduziam, quando postas em confronto, uma cena de mútuo fratricídio. Mas as gêmeas atraíam a repulsa de todos, porque o que havia de beleza nos seus rostos e corpos magníficos, havia também de fealdade em seus sombrios corações. Isto mesmo. As gêmeas compartilhavam da mesma fisionomia graciosa, tinham os mesmos gostos, gestos e sentimentos; e, para consumar a tendência que acode à maioria dos gêmeos idênticos, eram iguais o caráter e as inclinações de cada uma.

Ambas eram famosas pela arrogância e petulância. Irascíveis, desprezavam tudo e a todos. Emulavam em tudo. Por tudo disputavam e competiam, sem razão plausível. E nutriam, amargamente, entre si, um ódio profundo, um inabalável e infinito desprezo. E esse ódio, que as consumia terrivelmente, crescia exponencialmente dia a dia, especialmente porque a proximidade física entre as duas jovens irmãs era uma fatalidade irremovível. O rancor recíproco acentuou-se sobremaneira quando as gêmeas adolescentes — sem que uma soubesse o que perpassava o coração da outra — caíram de paixão pelo mesmo homem, o sábio e belo Aristarco de Corinto.

"Helena procurou o oráculo; Desdêmona fez o mesmo. Mas ficaram sabendo, cada uma à sua vez, que das vísceras das aves abatidas vinha um vaticínio terrível. O jovem Aristarco seria de outra pessoa. E as irmãs — notem bem isso, cavalheiros — estavam condenadas, conforme assim anunciou o oráculo infalível, a conviverem e a se odiarem por toda a eternidade.

"Cada uma das irmãs, isoladamente, remoía a suspeita de que era a outra gêmea a eleita de Aristarco. E vinha, então, à superfície da alma, uma inveja de densidade insuportável, tão profunda e pesada que cada uma das irmãs passou a conspirar contra a outra. E tão semelhantes eram aqueles espíritos soturnos que, desafiando as Moiras, urdiram separadamente — fio a fio — o mesmo plano assassino.

"Por essa época, a cidade de Éfeso caiu em desgraça. Enviado pelos deuses, um ser abominável — uma górgona — passeara pelos campos desolados e transpusera sorrateiramente os muros da cidade. Até hoje não se sabe por que, a mando de Fórcis, Euríale viera a Éfeso, com seus olhos medonhos e sua fronte ondulante de víboras, para realizar os seus hediondos prodígios. Mas sabe-se que era sobre as casas dos sacerdotes que a górgona deitava a sua espreita, e que foram muitos os que choraram pela sina dos entes terrenos que mais amavam.

"Numa noite chuvosa de plenilúnio, quando o céu se contorcia aos abalos dos trovões, decidiram as irmãs pôr em prática o plano que engendraram. Cada uma portava um punhal, e se fazia acompanhar de uma escrava — sobre a qual recairia toda a culpa. Buscaram, reciprocamente, o quarto, onde imaginavam que a outra dormia a sono solto. Mas se encontraram, surpresas, no centro do adro aberto.

Lançaram-se as irmãs furiosamente uma contra outra, como serpentes enlouquecidas. Então veio do firmamento um raio que tudo clareou.

Antes de mergulharem a adaga no peito que a outra estufava, viram, com horror, que seus olhares eram desviados para os olhos de Euríale. Então, toda a cena se congelou para todo o sempre, porque as irmãs já não eram mais de carne e osso. Convolaram-se em mármore instantaneamente.

"Até aqui, senhores, nada que já não seja conhecido. Vem, agora, o meu segredo.

"Não morreram, as duas formosuras. Decerto que o mármore frio lhes serviu de túmulo. Mas suas almas e suas consciências foram transpostas para o corpo da górgona e agora são, do ente monstruoso, um prolongamento terrível, porque enraizado na carne e nutrido pelo mesmo sangue e pelo mesmo plasma que circulam em toda aquela hediondez.

"Convertidas ad aeternum em serpentes e plenamente cientes da nova condição, Helena e Desdêmona grudaram-se, pelas caudas, ao crânio da abominável criatura, agitando-se e deslizando sobre e sob o corpo escorregadio de uma miríade de víboras outras, pegajosas e ferozes, que um dia já foram entes humanos como elas, e de cujos corpos só restam estátuas pavorosas.

"Até hoje se contorcem as irmãs, eriçam os seus capuzes de naja em meio a sibilos rancorosos. Ciciam vinganças repugnantes. Ensaiam botes traiçoeiros. Projetam suas presas peçonhentas para morderem-se e esquivarem-se sub-repticiamente. E se picam mutuamente as duas beldades, cheias de ódio e sem descanso, como sói ocorrer com todas as serpentes iracundas."

O professor extraiu uma baforada de seu charuto e nos sorriu o seu sorriso de triunfo.


Fonte:

Contos de Terror https://www.contosdeterror.site/2024/03/o-segredo-da-gorgona-conto-de-terror.html

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