Racismo na UFRGS - Provas da Discriminação Racial na Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Fantástica Cultural

Artigo Racismo na UFRGS - Provas da Discriminação Racial na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
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Racismo na UFRGS - Provas da Discriminação Racial na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Por Paulo Nunes ⋅ 10 fev. 2024
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As provas incontestáveis do racismo institucional na UFRGS e de sua aprovação pelos departamentos e pela reitoria da universidade.

consciencia negra

Apesar de ter ganhado notoriedade e relevância apenas recentemente, o termo racismo institucional foi cunhado há quase 60 anos, na década de 1960, por dois ativistas do movimento Black Power, Stokely Carmichael e Charles V. Hamilton.1 Encubado por gerações, e por muito tempo tratado como irrelevante em uma sociedade cada vez menos focada em raça, o conceito finalmente ergueu-se da cripta nas últimas décadas, reincendiando as relações raciais no Ocidente.

O que terá avivado as tensões sociais de raça? Nas últimas décadas do século XX, os dramas raciais encontravam-se em declínio evidente. A ideia de leis discriminatórias com base em fenótipo, assim como a de segregação racial, tornara-se uma aberração ideológica. As atitudes racistas, relegadas ao nível individual, passaram a ser vistas como um anacronismo deprimente — fruto não tanto de ódio, mas de mentalidades antiquadas, que ficaram para trás no tempo, apegadas às noções de uma outra era.

O cenário era promissor. Pelo que tudo indicava, o ideal de igualdade entre os homens, sonhado pelos filósofos iluministas, finalmente se concretizava.

O que, afinal, deu errado?

Hoje, se formos julgar pelo número de vezes que escutamos acusações de racismo na mídia, ou pela intensa atenção dada nas universidades ao tópico racismo institucional, concluiríamos que nunca houve tantos conflitos de raça no país, e que nossas instituições estão quase todas corrompidas por preconceitos raciais.

Será mesmo?

O pesquisador Helio Santos, doutor em administração pela Universidade de São Paulo, define o fenômeno da seguinte forma:

Racismo institucional é qualquer sistema de desigualdade que se baseia em raça que pode ocorrer em instituições como órgãos públicos governamentais, corporações empresariais privadas e universidades (públicas ou particular).2

Exemplos históricos bem conhecidos deste tipo de política segregatória são o Apartheid, na África do Sul (1948-1994), e as leis de Jim Crow, nos Estados Unidos (1865-1965). Teríamos algo remotamente semelhante no Brasil, hoje?

E, se sim, como poderíamos comprová-lo?

O Racismo Contra-Ataca

Nunca escutamos tantas denúncias de racismo como atualmente. Uma busca no Google pela palavra "racismo", na aba Notícias, fornece hoje quase 10 milhões de resultados. Novas matérias são publicadas todos os dias, nos mais diversos portais, como se este fosse o mal do século.

Entretanto, provar a existência de racismo no nível das instituições tem se mostrado um desafio para acadêmicos, jornalistas e políticos no Brasil e no mundo. Acusações, é claro, não faltam; mas as evidências não são muito convincentes.

cotistas militando
Qualquer semelhança com um culto de fanáticos é mera coincidência.

Dada essa dificuldade dos ativistas de amparar suas denúncias na realidade, minha intenção nesta reportagem é fornecer aos militantes antirracistas provas incontestáveis de que o racismo institucional existe (e que anda a todo vapor) no Brasil.

Segundo o juiz britânico William MacPherson, o racismo institucional pode ser resumido na seguinte situação:

O fracasso coletivo de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica.3

Em termos semelhantes, a jornalista Camilla Freitas clarifica:

Racismo institucional é a prática de uma organização, seja empresa, grupo, associação ou instituição pública, em não prover um serviço para uma determinada pessoa devido à sua cor, cultura ou origem étnica.4

Para sustentar as denúncias desta natureza, as principais evidências trazidas são as desigualdades sociais.

O já citado Helio Santos, um dos pioneiros na denúncia do racismo institucional no Brasil, entende que as diferenças demográficas entre brancos e negros têm como causa a discriminação racial das instituições. Essas diferenças (por exemplo: escolaridade, renda, mortalidade) teriam uma única explicação: o racismo.

Vejamos alguns exemplos de desigualdade social que afetam as populações negra (9,4%) e parda (46,8%):5

  • Alta representatividade de pessoas negras:
  • Pessoas detidas ou encarceradas.
  • Pessoas em nível de pobreza.
  • Pessoas vítimas de violência.
  • Baixa representatividade de pessoas negras:
  • Pessoas em posição de autoridade.
  • Pessoas com educação superior.
  • Pessoas em classes abastadas.

Esta é uma realidade bastante evidente no Brasil. Provar a relação causal entre estas mazelas e o racismo institucional, porém, é empreitada que sempre tem falhado.

Por exemplo: as condições históricas da população negra no Brasil são de conhecimento geral, e são frequentemente citadas para explicar os níveis desproporcionais de pobreza neste grupo étnico-racial. O ciclo da pobreza é um fenômeno bem conhecido. Se buscarmos, porém, explicar essa situação através de discriminação sistêmica de instituições, ocorrendo no presente, teremos dificuldade de encontrar evidências.

Sabemos que, quando as pessoas falam em racismo, quase sempre estão se referindo ao preconceito de brancos contra negros. Mas como regra, a nenhum negro é recusado atendimento em instituições públicas ou privadas pelo critério de raça em território nacional. E nas raríssimas ocasiões em que isso ocorre, os responsáveis não apenas sofrem as penalidades da lei, mas também têm sua conduta exposta e condenada pela mídia. Ou seja: nem as instituições, nem a população tolera tais atitudes.

Quem nasce na pobreza, é claro, terá mais dificuldades financeiras na vida. Mas isso vale para pessoas de qualquer raça. O ciclo da pobreza entre famílias negras é observável, devido às suas origens históricas — mas onde está a instituição que as discrimina hoje, pela cor da pele?

cotas raciais a usp vai ficar preta

O mesmo argumento pode ser aplicado nas outras situações: índices de escolaridade, violência, posições de autoridade, etc. As desigualdades, sendo reflexo de fenômenos históricos e de diferenças culturais, não atestam de forma alguma a existência de racismo institucional. E como esta não é a causa, não será aí que se encontrará a solução.

Em nível institucional, não há barreiras contra pessoas negras para o ingresso em instituições de educação (da pré-escola à pós-graduação), ou para concorrer a cargos públicos; não vemos leis ou autoridades impedindo pessoas negras de exercer seus direitos, ou mesmo de se candidatar a cargos políticos; e não temos qualquer comprovação de que o racismo seja um fator institucional na guerra da polícia contra o crime organizado.

No setor privado, a situação não é muito diferente: para as empresas, que obviamente buscam maximizar seus lucros, não há qualquer razão para discriminar funcionários em termos de raça. O empregado que melhor cumpre sua função é quem ocupará o cargo. E o mesmo vale para as posições mais elevadas.

Assim, o que se observa na prática é que as denúncias de "racismo institucional", quando ocorrem, não se referem de fato a fenômenos institucionais, e sim à conduta de indivíduos específicos, agindo por conta própria. Atitudes racistas ocorrem em nível pessoal: um policial racista que abusa de sua autoridade, por exemplo, ou um juiz que toma decisões distorcidas devido a preconceito racial, a despeito da legislação e da Constituição.

Não se trata, portanto, de estruturas de poder corrompidas pelo racismo, mas de falhas de caráter.

Quando ocorrem atos de fato racistas — isto é, falhas institucionais, pois divergem das normas e leis e são de responsabilidade de algum indivíduo transgressor —, estes tomam espaço destacado na mídia por vários dias, já que a sociedade costuma responder indignada a tais eventos, demonstrando seu repúdio público (normalizado e prevalente) ao racismo. Não parece que a sociedade está tentando silenciar tais casos; na verdade, parece ser exatamente o contrário.

Faz sentido classificar as mazelas da população negra como fruto de racismo institucional, se as instituições parecem nada ter a ver com isso?

Caçadores de Racismos

cotas ja

Mas se é verdade que o racismo institucional não existe no Brasil, como explicar a obsessão de tantos ativistas com o tema?

A ressurgência das pautas raciais, observada principalmente nas últimas duas décadas, não teve origem em transformações na realidade social. Nada havia mudado no mundo real para justificar o fenômeno. Foi no âmbito do discurso, da ideologia, que se passou a falar em racismo, a teorizar sobre racismo, e a enxergar a sociedade através de lentes raciais.

A pauta materializou-se artificialmente, e só concretizou-se no mundo real em resposta à sua difusão inicial no âmbito da cultura. Peças midiáticas, do cinema ao jornalismo, passaram a cobrir o tema como frequência, distorcendo a percepção pública em relação à relevância e à prevalência do problema na atualidade. Nas escolas e universidades, a conscientização de raça era, a princípio, tópico tangente trazido pelos professores ao alunos, mas com o tempo, e em especial no ensino superior, ganhou disciplinas próprias, além de ter colonizado quase todas as ciências humanas.

E, infelizmente, o que é posto na frente das pessoas, pela mídia, pelo sistema educacional ou pelo círculo social, será a realidade na qual elas acreditarão. As pautas que se repetem são tomadas como reais e importantes, pela repetição; e as pautas silenciadas são tidas como inexistentes ou irrelevantes.

Como vimos, o racismo é um fenômeno individual, relacionado ao caráter e às ações de um indivíduo; mas devido ao seu potencial político de causar revolta e mobilizar pessoas, ele foi instrumentalizado pela esquerda progressista, sendo recontextualizado como problema sistêmico.

A teoria crítica de raça, assim como a teoria interseccional, tende a enxergar o mundo em termos de estruturas, instituições, coletivos e sistemas. Mesmo quando certo fenômeno ocorre em nível individual, ele é artificialmente recontextualizado dentro de uma narrativa político-ideológica do coletivo, em que a parte é julgada pelo todo, ou o todo é julgado por alguma de suas partes, conforme a conveniência.

É por esta razão que, devido à inexistência de instituições racistas contra negros, a militância progressista expandiu a definição de "racismo institucional" para incluir ações de cunho individual (não institucional), conforme explica Camilla Freitas:

Ele [o racismo institucional] também pode se manifestar por meio de normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano do trabalho, como resultado de preconceitos.6

Com essa adulteração da definição, racismo e racismo institucional tornam-se equivalentes. Isso permite que denúncias de racismo de um indivíduo contra outro (isto é, conflitos pessoais, como "práticas e comportamentos") sejam convertidas em pautas políticas, instrumentalizáveis para fins ideológicos.

A partir dessa equivalência dos termos, criam-se justificativas para a militância interferir nas instituições (a quem o racismo é falsamente atribuído), servindo-lhe de escada para o poder.

Os exemplos de sucesso dessa estratégia já são numerosos por todo o Ocidente: comissões7 8 de DEI (diversidade, equidade e inclusão),9 algumas ditas de combate ao racismo, são cada vez mais comuns em universidades, gabinetes de governos, empresas, corporações, dentre outras tantas entidades. São milhares de empregos concedidos para um mercado recém-criado — o de ativistas, justiceiros sociais, destinados a evangelizar as instituições com sua doutrina política. E com esses cargos, obtêm-se poder e influência.

O próprio Helio Santos, cuja definição de "racismo institucional" foi citada anteriormente, é um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Diversidade (IBD), tendo atuado como ativista do movimento negro desde a década de 1970. Seus esforços ganharam maior repercussão apenas nos anos 1990, culminando com a aprovação da política de cotas.

comissao antirracista noticia

Seguindo a tendência mundial, as universidades têm criado comissões próprias para, segundo elas, combater o racismo.11 O mais provável é que o mero estabelecimento dessas comissões gere ainda mais consciência de raça (algo promovido pela teoria crítica racial, como explica a instituição norte-americana The Education Trust no manifesto "Por que apenas políticas com consciência de raça podem corrigir o racismo no ensino superior"12), fomentando mais divisão e apreensão entre pessoas de raças diferentes.

Fora de contexto, essas iniciativas pareceriam nobres e admiráveis: palavras como equidade, diversidade e inclusão soam bonitas, ativam nossa empatia involuntária; e quem poderá criticar uma comissão que se diz "contra o racismo"?

Por trás destas palavras amigáveis, porém, estão as políticas identitárias, cujo princípio-base é que se deve julgar os seres humanos pelo grupo demográfico a que pertencem, e não por seus atos individuais.

Eis a justiça social, ou coletivista.

Aldous Huxley, dentre tantos outros autores que denunciaram a injustiça inerente à justiça social, escreve em Regresso ao Admirável Mundo Novo:

Um grupo não é um organismo, e sim uma cega organização sem consciência. Tudo o que é realizado numa sociedade é feito pelos indivíduos.13

Esta filosofia é uma das bases da civilização como a conhecemos: nas democracias liberais do Ocidente, julga-se a pessoa pelo que ela fez, e não pelo que outros fizeram (culpa ou mérito não são transferíveis); e ninguém é julgado mais ou menos favoravelmente devido à sua raça, tendo em vista que a justiça deve ser cega.

Para a justiça social, ao contrário, deve-se julgar os membros de um grupo usando como base uma noção estereotipada de todos os seus integrantes Você também pode gostar: Justiça vs. Justiça Social: por que as duas são incompatíveis? (ou seja: a ética da justiça social é análoga ao racismo). Não é outra a lógica dos ativistas que denunciam a branquitude como "a raiz do preconceito racial", coletivizando todos os membros de uma raça sob um mesmo julgamento negativo.

O historiador e sociólogo Lourenço Cardoso, por exemplo, explica e critica o fenômeno da "branquitude", mas, estranhamente, acaba demonstrando sua concordância com a noção de hierarquia racial (aquela tão cara aos nazistas):

[a branquitude] significa a pertença étnico-racial atribuída ao branco. Podemos entendê-la como o lugar mais elevado da hierarquia racial, um poder de classificar os outros como não brancos, colocando-os, assim, como inferiores aos brancos. Ser branco se expressa na corporeidade, isto é, a brancura, e vai além do fenótipo. Ser branco consiste em ser proprietário de vantagens/privilégios raciais simbólicos e materiais.14 15

Valendo-se da autoridade dos títulos acadêmicos, Lourenço Cardoso usa o espaço universitário e a pesquisa científica como plataforma para suas opiniões pessoais e ideológicas sem embasamento.

Bruna Moraes Battistelli, outra acadêmica que se dedica ao combate à branquitude sob os títulos de psicóloga, mestra e doutoranda em psicologia social, acusa a si mesma de supremacista branca em uma entrevista sobre a ocupação do Instituto de Psicologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) por alunos militantes:

Não é estudando raça uma vez por semestre que vamos arrancar a branquitude do conforto, que vamos mexer/superar supremacia branca. O que esses estudantes queriam [ao invadir o instituto] era que as pessoas brancas olhassem o que elas produzem quando pactuam entre si narcisicamente, queriam que as mudanças começassem nas relações em sala de aula. Ler Maria Aparecida Bento [autora negra, ativista pelo movimento negro] é olhar para o supremacista branco que mora em nós, que mora em mim, que mora em você, que mora nas nossas ações, nos nossos textos, é lê-la para além do conceito de branquitude, mas repensar como olhamos as instituições e as organizações. Maria Aparecida Bento é referência para pensar como as instituições se organizam.16

branquitude privelegio branco

Segundo o artigo acima, publicado na capa do site da UFRGS, não existiria preconceito racial no mundo se não fosse a "branquitude": todas as raças e etnias viveriam sem preconceitos. Isso foi produzido, aprovado e publicado por uma universidade, num portal de ciência.17

A citada Maria Aparecida Bento, ou Cida Bento, é doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo e autora de Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público, obra em que, basicamente, acusa uma raça inteira de participar de um complô narcísico. Literalmente, trata-se de uma teoria da conspiração.

Como é fácil verificar, grande parte dos acadêmicos tem pelo menos um pé no progressismo, quando não no marxismo.

"A luta anticapitalista", escreve Dennis Oliveira, professor da Universidade de São Paulo, "não é possível sem a questão racial".18 Já Adilson Moreira, doutor em direito constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, explica em sua profunda (e laureada) ignorância:

O racismo, como tem sido amplamente afirmado, nasceu junto com o capitalismo. Ele faz parte do sistema criado pelos europeus no capitalismo mercantilista, que necessitava de mão obra barata para poder levar à frente o processo de colonização da África e, principalmente, das Américas. 29

Como se pode supor diante destas falas, não há maior concentração de racismo, hoje, do que entre os ativistas autodenominamos "antirracistas".

Ao se olharem no espelho, porém, e ao perceberem que suas atitudes se encaixavam perfeitamente na definição de "racismo", surgiu-lhes a ideia de alterar o significado da própria palavra, para, assim, livrarem-se das acusações. É por isso que, hoje, é comum escutarmos que "uma pessoa negra não pode ser racista", ou que "uma pessoa branca não pode ser vítima de racismo".

Segundo a definição progressista, o racismo só existe quando a pessoa preconceituosa "possui poder" (preconceito + poder).20 Isso, porém, não significa que pessoas brancas sem poder podem ser vítimas de racismo, nem que pessoas negras com poder podem ser racistas. Não: devido à mentalidade coletivista, assume-se que todos os brancos têm poder; e que nenhuma pessoa não branca possui poder.

Esta linha de pensamento nasceu das convulsões intelectuais de Robin DiAngelo e Joseph Barndt. Em seu livro Fragilidade Branca, os autores explicam que todos os seres humanos da raça branca são racistas, incluindo DiAngelo e Barndt.

Eis a explicação:

Ao nascer branco, naturalmente você já nasce com privilégios. A cor da sua pele lhe dá oportunidades e lhe blinda de situações de preconceito, assédio, violências policial e sexual.21

Agora que já identificamos quem são os racistas, podemos facilmente encontrar o racismo institucional.

O Racismo Oficial das Universidades

Hoje, é prática prevalente22 nas universidades públicas brasileiras a seleção via raça — mais um episódio na longa e aparentemente interminável história do racismo.

A Constituição Federal, é claro, proíbe tal aberração:

Art. 1º, IV — promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.
Art. 5º, XLII — a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.

A mágica da Constituição, porém, é que se todos a ignorarem, é como se ela não existisse.

A Lei de Cotas,23 de 2012, previa a reserva de 50% das vagas em universidades públicas para estudantes provenientes da educação pública, tendo em vista a péssima qualidade da educação estatal e o consequente despreparo dos candidatos para concorrer com alunos de escolas privadas. Todo aluno negro e pobre seria contemplado por esta cota, Você também pode gostar: O dia em que Racismo e Antirracismo se tornaram indistinguíveis assim como nenhum aluno negro de classe alta seria injustamente privilegiado sem necessidade. Mas a ideia de compensação histórica acabou angariando adeptos, e as cotas econômicas passaram a ser convertidas, inconstitucionalmente, em cotas fenotípicas.

A situação atual é a seguinte: para cada jovem cotista negro que entra via cotas raciais, há um jovem branco, também de classe baixa, que é impedido de entrar na universidade devido à cor de sua pele.24 Um jovem que talvez tenha estudado mais, se esforçado mais, e cuja família talvez seja mais pobre, menos estruturada.

Estamos, enfim, diante de um caso de racismo institucional.

Segundo a UFRGS, a seleção via fenótipo justifica-se por "amenizar desigualdades" de "grupos historicamente discriminados ou desfavorecidos".25 Embora muitos defensores desta prática costumem rejeitar a ideia de que se trate de discriminação, este termo é explicitamente usado e reconhecido por juristas, inclusive pelos que a apoiam, designando-a como discriminação positiva — sinônimo de ações afirmativas.

acao afirmativa cotistas cotas raciais
Cotas e "justiça racial". Banner de divulgação de um evento sobre ação afirmativa e cotas promovido pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Lembre-se: segundo a definição, racismo institucional é:

Qualquer sistema de desigualdade que se baseia em raça que pode ocorrer em instituições como órgãos públicos governamentais, corporações empresariais privadas e universidades (públicas ou particular).26

Utilizando-se apenas as definições dos próprios defensores das cotas raciais e dos críticos do racismo institucional, as cotas raciais enquadram-se inteiramente, sem qualquer ambiguidade, dentro da definição de racismo institucional.

E para transformar o tópico em uma espécie de comédia, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1968),27 da ONU, determina que discriminação racial não será considerada discriminação racial quando a intenção for "o progresso":

Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ...

Mas como as universidades verificam se os candidatos pertencem à raça/etnia declarada? Por meio de tribunas raciais, é claro. Segundo a UFRGS,28 o procedimento se dá da seguinte forma:

A verificação é realizada pela Comissão Permanente de Verificação das Autodeclarações Étnico-Raciais. ... A aferição dos candidatos autodeclarados pretos e pardos é silenciosa: não são feitas perguntas. O objetivo não é inquirir o candidato sobre sua declaração, mas receber presencialmente o candidato e certificar-se de que ele se enquadra na política de Ações Afirmativas, ou seja, se é reconhecido socialmente como pertencente ao grupo racial negro (pretos e pardos) com base no seu fenótipo. Além da cor da pele, são consideradas outras características fenotípicas, tais como tipo do cabelo, formato do nariz e dos lábios.

O candidato é posto frente a uma comissão, em silêncio, e seu corpo é avaliado. Com base nessa avaliação biológica, receberá ou não uma vaga na universidade. Características como a forma de seu nariz, de seus lábios, e o tipo de cabelo são os requisitos para a ocupação de uma vaga universitária. Exatamente como a frenologia.

frenologia afericao de raca cotas raciais ufrgs

A antiga frenologia buscava estimar as capacidades de um indivíduo avaliando as proporções de seu crânio. Tal procedimento passou a ser veementemente rejeitado como desumano e antiético no século XX, mas atualmente, para se ingressar em uma universidade pública brasileira via cotas raciais, o formato de seu rosto, seu nariz, seus lábios, seu cabelo e a cor de sua pele são avaliados por uma comissão especializada em fenótipos.

Naturalmente, nenhuma dessas políticas racistas é vista como tal pelos que as implementam. Entretanto, a definição oficial, usada pela quase totalidade da população mundial, continua sendo esta — e vale para todo ser humano:

racismo
ra.cis.mo
sm

1 Teoria ou crença que estabelece uma hierarquia entre as raças (etnias).

2 Doutrina que fundamenta o direito de uma raça, vista como pura e superior, de dominar outras.

3 Preconceito exagerado contra pessoas pertencentes a uma raça (etnia) diferente, geralmente considerada inferior.

4 Atitude hostil em relação a certas categorias de indivíduos.29

make racists afraid again racismo
"Que os racistas tenham medo outra vez,"
um apelo de Angela Davis, ironicamente a mãe do racismo contemporâneo.

Fontes:
1. BHAVNANI, R.; MIRZA, H.S.; MEETOO, V. Tackling the roots of racism: lessons for success. Bristol: Policy Press, 2005. p. 28.
2. SANTOS, H. A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. São Paulo: Senac, 2001.
3. Documento da Comission for Racial Equality, 1999 apud SAMPAIO, E. O. Racismo institucional: desenvolvimento social e políticas públicas de caráter afirmativo no Brasil. Interações — Revista Internacional de Desenvolvimento Local, Campo Grande, v. 4, n. 6, p. 77-83, mar. 2003. Disponível em: https://www.interacoes.ucdb.br/interacoes/article/view/561/598.
4. FREITAS, C. O que é racismo institucional e como podemos combatê-lo? UOL, 15 nov. 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/11/15/o-que-e-racismo-institucional-e-como-podemos-combate-lo.htm?cmpid=copiaecola.
5. IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE Educa. Cor ou raça. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html.
6. FREITAS, C. O que é racismo institucional e como podemos combatê-lo? UOL, 15 nov. 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/11/15/o-que-e-racismo-institucional-e-como-podemos-combate-lo.htm?cmpid=copiaecola.
7. UC DAVIS. Diversity, Equity and Inclusion. Organizations: external professional organizations focused on diversity and inclusion. 2020. Disponível em: https://diversity.ucdavis.edu/organizations.
8. NAEDI — National Association for Diversity, Equity and Inclusion. 2020. Disponível em: https://www.naedi.org/.b 9. GAIDARGI, J. Diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas empresas. Infonova, 19 ago. 2021. Disponível em: https://www.infonova.com.br/gestao-de-equipes/diversidade-equidade-inclusao-dei-empresas/.
10. BRASIL DE FATO. Conselho Universitário da UFRGS cria comissão de combate ao racismo. 7 dez. 2021. Disponível em: https://www.brasildefators.com.br/2021/12/ 17/conselho-universitario-da-ufrgs-cria-comissao-de-combate-ao-racismo.
11. Idem.
12. THE EDUCATION TRUST. Hard truths: why only race-conscious policies can fix racism in higher education. 2020. Disponível em: https://www.fantasticacultural.com.br/arquivos/why_only_race-conscious_policies_can_fix_racism.pdf.
13. HUXLEY, A. Educação para a liberdade. In: HUXLEY, A. Regresso ao Admirável Mundo Novo. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
14. TREVISOL, N. Branquitude: privilégio branco e a raiz do preconceito racial. Jornal da Universidade — UFRGS, 26 nov. 2020. Disponível em: https://www.ufrgs.br/ciencia/branquitude-privilegio-branco-e-a-raiz-do-preconceito-racial/.
15. OLIVEIRA, J. Temos potencial para abolir o racismo e todas as outras formas de opressão. El País, 30 nov. 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019-11-30/lourenco-cardosotemos-potencial-para-abolir-o-racismo-e-todas-as-outras-formas-de-opressao.html.
16. Idem.
17. TREVISOL, N. Branquitude: privilégio branco e a raiz do preconceito racial. Jornal da Universidade — UFRGS, 26 nov. 2020. Disponível em: https://www.ufrgs.br/ciencia/branquitude-privilegio-branco-e-a-raiz-do-preconceito-racial/.
18. PINTO, W. "A luta anticapitalista não é possível sem a questão racial", diz professor da USP. CUT, 19 nov. 2019. Disponível em: https://www.cut.org.br/noticias/a-luta-anticapitalista-nao-e-possivel-sem-a-questao-racial-diz-professor-da-usp-9e14.
19. Idem.
20. PREJUDICE PLUS POWER. In: Wikipedia, The Free Encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Prejudice_plus_power.
21. TREVISOL, N. Branquitude: privilégio branco e a raiz do preconceito racial. Jornal da Universidade — UFRGS, 26 nov. 2020. Disponível em: https://www.ufrgs.br/ciencia/branquitude-privilegio-branco-e-a-raiz-do-preconceito-racial/.
22. QUOTAS RACIAIS NO BRASIL. In: Wikipedia, The Free Encyclopedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quotas_raciais_no_Brasil.
23. BRASIL. Lei n.º 12.711, de 29 de agosto de 2012. Disponível em: planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm.
24. BAYMA, F. Reflexões sobre a constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas no Brasil: referências internacionais e os desafios pós-julgamento das cotas. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 20, n. 75, p. 325-346, abr./jun. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/xWK9mv8FbJ6NMnf53PvzQ9s/?format=pdf&lang=pt.
25. UFRGS. Por dentro da UFRGS. Cotas. Disponível em: https://www.ufrgs.br/pordentrodaufrgs/cotas/.
26. SANTOS, H. A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. São Paulo: Senac, 2001. p. 109-110.
27. BRASIL. Decreto n.º 65.810, de 8 de dezembro de 1969. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D65810.html.
28. UFRGS. UFRGS retoma convocações para aferição presencial da autodeclaração étnico-racial. 7 dez. 2020. Disponível em: http://www.ufrgs.br/ufrgs/noticias/ufrgs-retoma-convocacoes-para-afericao-etnico-racial.
29. RACISMO. In: Miachelis — Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=racismo.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, ilustrador e pesquisador



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