Exploradores - Quando Homens da Caverna Lançam-se ao Mar | Fantástica Cultural

Exploradores - Quando Homens da Caverna Lançam-se ao Mar
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Exploradores - Quando Homens da Caverna Lançam-se ao Mar

Paulo Nunes ⋅ 13 abr. 2022
Há milhares de anos, antes da invenção de barcos ou mapas, homens pré-históricos lançavam-se em perigosíssimas viagens pelo mar, a nado e às cegas, aparentemente sem plano ou objetivo. Afinal de contas, o que eles estariam pensando?
homens da caverna

Dois homens observavam as águas do mar a se perderem no horizonte, à beira da praia. Se o calendário já tivesse sido inventado, marcaria uns 50.000 anos a.C.

— Não ser esquisito?

— Quê?

— Não ser esquisito? O mar.

— O quê? O mar?

— O mar. Você olhar lá, não acabar nunca.

— O mar ser o mar. Ser assim.

— Mas o que haver lá? Lá, lá na ponta?

— Água. Mais mar.

— Para sempre mais mar? Não poder ser assim. Água nunca acabar. Ser esquisito.

— Ser esquisito — concordou. — Parede segurar água na ponta. Parede azul. Céu.

— Parede azul. Sim. Mas parede azul mudar de cor, de noite. Como parede muda de cor?

— Céu mudar de cor. É como é.

— Mas não ser parede. Sol e Lua descer entre mar e céu. Precisar haver espaço entre céu e mar.

— Não. Não. Sol e Lua afundar no mar. Depois sair.

— Eu querer ver de perto.

— Ah. Hm. Eu também.

Fez-se silêncio por alguns instantes. O homem questionador, porém, não parecia satisfeito.

— Eu pensar. Coisas ficar pequenas quando coisas ficar longe. Coisas ficar tão pequenas, ninguém conseguir ver. Eu pensar: haver terra na outra ponta do mar. Haver pessoas também.

— Você não pensar, você sonhar. Do outro lado, haver nada.

— Mas poder haver terra. E nós não ver. Muito longe.

— Você querer ir ver.

— Eu querer ir ver.

— Você morrer na água nadando. Muito longe.

— Eu pensar ideia. Tronco flutuar. Eu usar tronco, ficar sobre água, e ir até a ponta. Ver Sol e Lua de perto. Ver a parede azul. Procurar terra esquisita.

— Você morrer!

— Eu poder morrer. Mas fogo dentro de mim, fogo querer ir. Querer ver.

— Ideia esquisita.

— Você não querer ver também?

— Eu querer. Mas não querer morrer.

— Caber dois em tronco. Mais mãos para remar.

— Ah. Hm. Parecer ofensa contra deuses.

— Não. Não. Deuses gostar. Viajar, explorar, conquistar. Deuses gostar.

— Lua e Sol ser sagrados. Não tocar. Firmamento ser sagrado. Não tocar.

— Quem dizer "não tocar"? Deuses não dizer "não tocar". Herói tocar. Herói viajar, explorar, conquistar. Herói não temer perigo.

— Eu querer ser herói.

— Você poder ser herói. Nós ir e voltar, trazer punhado da Lua, punhado do Sol, mostrar para tribo. Nós poder achar terra nova. Trazer planta, animal, pedra de terra esquisita. Trazer medicina. Trazer cristal mágico. Arrancar estrelas do céu e fazer joias.

— Eu querer ser herói. Mas eu não querer morrer. Mar ser perigoso.

— Você e eu ser nada agora. Olhar para você: feio como javali. Olhar para mim: torto como babuíno. Mulher quer nada com nós. Última batalha, nós perder. Vergonha. Nós ser nada na tribo. Nós ter nada a perder.

— Ah. Hm — hesitou, pensativo.

— Eu estar errado?

— Hm. Não. Não estar errado.

— Nós virar heróis. Escutar isto: nós acender fogo na Lua. Tribo ver. Nós virar heróis. Toda mulher querer deitar com nós.

— Hm.

— Aceitar?

— Terra longe — retrucou. — Eu pensar: terra longe poder existir. Tribo longe também existir. Muitos guerreiros. Muitos inimigos. Nós ser dois, guerreiros poder ser muitos.

— Nós voltar então.

— Covardia fugir de guerra.

— Ninguém saber. Mas eu pensar também: terra longe poder ser diferente. Poder ser tribo de mulher. Nenhum homem. Assim eu sonhar.

— Poder sonho ser presságio?

— Poder ser. Tribo de mulher. Poder ser.

— Hm.

— O que pensar? Viagem comprida, poder morrer nadando. Cortar tronco, deitar tronco no mar, viajar longe, longe. Viagem perigosa. Mas herói arriscar. Herói feio também deitar com mulher bonita. O que pensar?

— Hm. Concordar. Onde cortar tronco?

tronco

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador

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