A Dama do Bar Nevada - Sérgio Faraco | Conto Completo | Fantástica Cultural

A Dama do Bar Nevada - Sérgio Faraco | Conto Completo
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A Dama do Bar Nevada - Sérgio Faraco | Conto Completo

Autores Selecionados ⋅ 24 fev. 2022
Um ensaio sobre a solidão.
anthony bream dama no bar Pintura de Anthony Bream.

Na praça, à meia-tarde, vinham espairecer os velhos. Alguns punham-se a andar de esquina a esquina, passinhos miúdos e receosos, outros cavaqueavam em pequenos grupos ou jogavam damas no tabuleiro de pedra, mas a maioria deixava-se quedar a sós nos bancos, olhando vagamente ao longe, como bois sentados. O rapaz contou trinta e dois velhos, trinta e três com o que estava ao seu lado, um tipo sombrio que juntava as mãos e fazia estalar as articulações dos dedos.

Atrás do banco alguém falava, a espaços interrompido por um coro de murmúrios. Ele captou fragmentos: "...as pernas dentro d'água até os joelhos... atua sobre os rins... revulsivo... a secreção da urina..." Não ouviu mais nada, voltou-se, os velhos tinham mudado de lugar e um deles o olhava, como ressentido.

O relógio do passeio marcou a temperatura, piscou, marcou as horas. Vou aguentar mais um pouquinho, pensou o rapaz, não adianta comer tão cedo e depois ter fome na hora de dormir. Para distrair-se contou de novo os velhos: vinte e sete, incluído o que estalava os dedos. E a cada vez contava menos velhos. Ao entardecer a humanidade da praça, lentamente, ia sendo substituída por espécimes de múltipla bizarria, que se acomodavam nos bancos e deixavam o corpo escorregar, como na poltrona do cinema.

Não, não podia esperar mais, não aguentava, o ar que engolia parecia transportar minúsculas agulhas que se alojavam, pungentes, na parede do estômago. Chega de tortura, disse consigo. Atravessou a rua e entrou no Bar Nevada. Ocupou uma das mesas e à garçonete de avental manchado pediu um sanduíche e meia taça de café. Estou com um pouco de pressa, acrescentou. Na mesa do fundo um casal se acariciava, na outra, mais próxima, um homem acabara de jantar e lia o jornal, enforquilhando os óculos na ponta do nariz. No balcão bebia chope um japonês.

Na Praça da Alfândega, ao anoitecer, os velhos vão-se embora. Despedem-se uns dos outros, partem vacilantes, curvados, ombreando a solidão nas costas murchas. Ele os via pelos grandes vidros do Bar Nevada e logo já não mais, encobertos pelo avental manchado. Com licença e a garçonete o serviu como quem despeja um prato na pia da cozinha. Ficou olhando, assombrado: aquele era o sanduíche da casa? Tão magrinho? Pensou em reclamar, devolver, mas... e as aguIhinhas? De mais a mais era preciso ter humor para não sucumbir às agruras cotidianas. Por exemplo: comer lentamente, mastigando os sólidos até que se liquefizessem. Prevenia úlceras. E se não enchia o estômago, cansava a boca, o que vinha a dar na mesma.

Pôs-se a comer e viu entrar no bar uma senhora idosa, daquelas senhoras que se pintam como as coristas, tentando recobrar no espelho os encantos de um tempo morto. Usava roupas modernas, de cores afrontosas, e ao aproximar-se trouxe uma onda de perfume nauseante. Não, protestou com os olhos, não vá sentar-se aqui e já ela pedia licença, delicadamente, não tinha escolha entre os namorados abraçados, o homem que abria o jornal na mesa e o outro que, parcimonioso, ruminava o pão para cansar a boca.

— Moça, por favor — e pediu chá com torradas.

Ele mastigava e parava de mastigar, embrulhado com o perfume e a grossa maquiagem do rosto dela. No balcão o japonês ainda bebia, cabeça pendendo, quase a tocar na pequena pilha de bolachas de chope. Na mesa ao lado o homem dobrara o jornal e tomava um cafezinho. Os namorados tinham ido embora.

Veio a garçonete com o chá, ele pediu a conta. Pagou e a moça parada ali, com o dinheiro na mão.

— Tá faltando.

A velha o olhou, o homem do jornal também. A garçonete ia falar, ele se antecipou:

— É tão pouco, outro dia eu pago.

— Tudo bem.

A velha abriu a bolsa.

— Quanto está faltando?

— Por favor — ele protestou.

— Faço questão, onde já se viu fazerem cara feia por tão pouca coisa?

— Eu não fiz cara feia, eu disse tudo bem.

— Ela não fez cara feia, minha senhora, ela disse tudo bem.

— Ela disse tudo bem, mas fez cara feia, sim, imagine, aqui está, pronto, pode ficar com o troco.

A garçonete hesitou, mas acabou por aceitar, visivelmente enfurecida.

— Não precisava a senhora se incomodar — ele disse. — Enfim, muito obrigado, amanhã eu...

Não continuou. No dia seguinte não a encontraria. Se a encontrasse, dificilmente teria como pagá-la. E se tivesse, quem procura alguém para pagar o valor de uma caixa de fósforos? Sem saber se ia embora ou ficava um pouco para retribuir a gentileza, deu com os olhos no homem da mesa vizinha, que desviou os seus.

— O senhor aceita um chá?

— Não, obrigado.

— Não gosta?

— Não, não é isso.

— Tem pressa?

— Não, mas...

— Mas?

— Está bem — disse ele. — Faço-lhe companhia. Ela sorriu.

— É bom ter companhia. Moça, mais um chá, sim? O senhor não gosta de chá? Não tem o hábito? Esta é uma das poucas casas do centro que ainda servem chá. Antigamente havia cafés, confeitarias, a Rua da Praia era bonita. Agora é isso que se sabe. De dia bancos, de noite os assaltantes.

— É a luta.

— O senhor acha? Mas no fim eles se entendem. De dia os ricos roubam dos pobres, de noite os pobres roubam dos ricos. E os do meio? Os do meio são roubados pelos dois, de noite e de dia.

Ele achou graça.

— Estou aborrecendo o senhor com essa conversa tola — tomou ela.

— Não, isso é importante, a sobrevivência, o dinheiro.

Ela esperou que a garçonete o servisse, depois perguntou, com um deliberado e simpático ar de espanto:

— Acha o dinheiro importante?

— É uma boa coisa pra se gastar.

— Agora o senhor disse uma verdade. Bom para gastar. A vida é curta, precisamos gozá-la e o dinheiro facilita, não concorda?

— Completamente.

— Viver, não sobreviver...

— Sem dúvida.

— ... embora nem sempre consigamos viver como gostaríamos. Que pena.

— E verdade. Já se disse que ninguém vive tão intensamente quanto quer, só os toureiros.

— Lindo. Quer outro chá?

— Se faz questão...

— Faço sim.

Chamou de novo a moça, que se moveu detrás do balcão, agora sim, com acintosa má vontade.

— Mais dois chás, por favor — e o consultou: — Torradas?

— Torradas.

— Na manteiga — pediu.

A garçonete recolheu com maus modos a louça usada, ela sorriu mais com os olhos do que com os lábios, complacente.

— Quem é essa pessoa que falou sobre os toureiros?

— Um americano.

— Seu amigo?

— Não... sim, de certa forma.

— Como é bom ter amigos inteligentes. Posso fazer uma pergunta? Qual é sua profissão?

Ele disse nenhuma.

— Não trabalha?

Trabalhava, claro, no que aparecia.

— Ah, isso tem suas vantagens. O senhor deve ter mil e uma habilidades.

— Não, não tenho — e negou também com a cabeça. — E é por isso que acabo não durando nos empregos.

— Desculpe — murmurou, logo sorriu. — Não leve a mal eu fazer perguntas, sou curiosa, sou mulher...

Ele não levava, tudo bem, e então ela quis saber mais, ele ia respondendo e se surpreendendo à vontade, a bebericar o segundo chá e a recitar a ladainha de suas vicissitudes.

Era bom falar.

Contou que vendera a aliança que guardara do casamento, em seguida o relógio, os óculos de sombra, o radinho, e que começara a vender também as roupas. E que houvera um momento em que olhara ao redor de si e não vira mais nada que pudesse vender, pois ninguém comprava meias, sapatos gastos, cuecas, camisetas, e isto era tudo que deixara numa caixa de papelão, no guarda-malas da Estação Rodoviária.

— Tive de entregar o quarto. Três semanas sem pagar, a mulher fez um escândalo.

— Meu Deus, e onde o senhor está morando?

— Pobre não mora, cai no chão.

Era um gracejo, mas ela não riu.

— Não sei-o tom era inseguro, receoso —, não é tão pobre quem tem um corpo jovem.

Olhava para o resto do chá e mexia lentamente a colherzinha.

— Não posso ajudar — tomou, rouca. — Não tenho como lhe arranjar emprego e vivo modestamente, com uma pensão tão pequena que o senhor não acreditaria. Mas possuo algumas joias, um dinheirinho no banco...

Falava baixo e continuava a mexer a colher. Suava no buço, no queixo, no pescoço, e o suor, misturado ao cosmético, fazia pensar que estivesse com pequenas manchas de graxa incolor.

— Falei por falar — disse ele, seco. — De qualquer maneira fico muito agradecido pelo gesto, e também pelo chá.

Ela nada disse.

— Se a senhora dá licença — e arredou a cadeira.

— Por favor — era quase uma súplica —, não vá embora.

Olhava-a, surpreso.

— Sei bem que o senhor nada pediu. Eu pensava em outra coisa — e animou-se —, sim, sim, eu posso pagar.

Voltou a falar nas joias, nas economias, insistindo em que era importante aproveitar a vida, fazer bom uso do dinheiro, e que podia confiar nele, pois ele era uma pessoa decente, isso se via, não era um marginal.

— A senhora quer pagar... a mim? — perguntou, cauteloso.

Ela abriu os olhos, como admirada ou decepcionada.

— Se fosse fácil explicar eu já teria explicado, mas não pensei que fosse tão difícil compreender. Ele nada encontrou para dizer.

— Sou uma mulher sozinha — continuou. — Perdi meu marido há muitos anos e desde então... nunca tive oportunidade, tive medo, mas o senhor... hoje não estou com medo, eu... — e baixou os olhos — ...eu tenho certa idade, mas ainda sou saudável.

— Entendo — ele disse, ou ouviu sua voz dizer.

— Posso pagar.

O homem do jornal levantou-se. Teria escutado alguma coisa ou ao menos pressentido, pois ao passar fitou-os com desprezo.

— Talvez eu não seja a pessoa certa.

— Quer dizer atração, desejo?

— Isso também.

— Mas eu não lhe peço que sinta isso. Mesmo sem isso há maneiras de fazer um corpo sentir-se jovem... e feliz.

— Maneiras há.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não é uma proposta imoral. O senhor precisa de ajuda e eu também.

Ele a olhava, notando o esforço que fazia para sorrir e ocultar o nervosismo, e então pensou que um dia, como todos, ela fora adolescente, tivera namorados, e que decerto muitas vezes, ao espelho, ruborizara ao se achar atraente e sedutora, pronta para o amor. O tempo a maltratara, mas ela não se entregava e era bonita, era muito bonita assim, lutando, não era como aqueles mortos-vivos da Praça da Alfândega, espectros humanos que se aposentavam do serviço público e da vida. Ele sim, parecia-se com os velhos, aceitando aquele sanduíche-anão e a inconstância dos empregos e a perda de seus objetos pessoais e a fome e ainda pensando, como acabara de pensar, que a sobrevivência era uma questão de humor. Filósofo das arábias. Morto-vivo. Ele e o japonês, aquele babaquara que agora dormia no balcão, derrotado e sozinho. Outro boi sentado.

— É uma proposta honesta — disse.

Ela chamou a garçonete, pagou a conta. Tomou um caderninho e arrancou uma folha. Com a mão trêmula, presa de uma agitação que nem de longe ele suspeitaria naquele corpo que julgava morto, escreveu um nome e um endereço.

— Quando — ele perguntou. Ela se ergueu.

— Se não for incômodo, hoje.

— Mais tarde?

Tocou no braço dele com a mão úmida.

— Por favor, agora.

E deixou o Bar Nevada. No balcão a moça tentava, inutilmente, reanimar o japonês.



Fonte: FARACO, Sérgio. A Dama do Bar Nevada. Porto Alegre: L&PM, 1987.

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