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Deixe um Legado: Como ser um herói na era do progressismo
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Deixe um Legado: Como ser um herói na era do progressismo

Paulo Nunes ⋅ 2 novembro 2021
Um manual direto e sucinto para a autorrealização consciente em tempos sombrios.
super homem

Todos nós devemos deixar uma marca no mundo. A nossa marca pessoal. Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho — é o que dizem.

É uma forma popular de nos referirmos ao nosso legado. Para muitos, a herança que deixamos é a razão de estarmos aqui. É o atestado de nosso valor, nossa importância no grande esquema universal. Mas muitos podem se perguntar: de que vale uma boa ação, se ninguém a vê?

Você talvez queira deixar sua marca, e de forma bem visível para que todos possam ver — é mais do que natural. Mas por onde começar?

Para ir esquentando, tende plantar uma árvore. É o mais fácil, mas pode ser o começo de uma incrível jornada. Plante-a onde quiser: no seu próprio jardim, no jardim do vizinho, ou até mesmo em plena mata atlântica, em meio a milhões de outras que têm se reproduzido sem ajuda humana por centenas de milênios.

O importante, afinal, não é a planta; é o plantar.

E não se preocupe com a quantidade. Pode parecer supérfluo plantar uma única árvore, considerando que milhões são derrubadas a cada ano na floresta amazônica. Mas isso seria perder de vista nosso objetivo: o plantar é um ato simbólico. Não é sobre a natureza. É sobre o seu legado como indivíduo. O meio ambiente, afinal, é responsabilidade do Estado.

Mais difícil pode ser escrever um livro. Esta é uma herança importante a deixar para a humanidade: um pequeno tijolo no castelo da cultura. Não deixe que sua falta de experiência com técnicas literárias ou habilidades de comunicação o impeça de compilar dados irrelevantes de sua vida ordinária, recheando cada frase com preciosos deslizes de gramática e ortografia. Alguns tendem a evitar a escrita por temerem o embaraço caso o conteúdo produzido seja risível e irrelevante. Não se preocupe: ninguém lerá seu livro.

Tenha em mente que a existência da publicação por si só será um atestado de suas conquistas e de sua importância no mundo. Além disso, o processo de escrita lhe dará grande prazer, pois permitirá que você reviva muitos momentos de sua vida, dando-lhe chance para exagerar os bons, retratar-se como herói no caso dos ruins, e explicar aos leitores hipotéticos o quão especial você é.

A tarefa mais difícil, sem dúvida, é ter um filho. Ou a mais fácil, dependendo do que você pretende fazer depois da concepção. As novas gerações são o futuro do planeta e, mais importante, atestarão sua eficiência pedagógica. Assim, filhos prodígios, esforçados e talentosos refletirão o brilhantismo de suas técnicas parentais. Do contrário, se forem socialmente malsucedidos, se falharem nos estudos e se, em suas carreiras e relacionamentos, revelarem-se um fracasso, esteja seguro que a culpa é da sociedade, ou da genética (talvez você não tenha escolhido o cônjuge adequado).

Nesses casos, muitos desafios podem surgir. Muitos atribuirão os transtornos mentais de seus filhos a uma suposta má criação, o que, teoricamente, seria sua responsabilidade. Qualquer um dos estilos parentais que você possa ter escolhido será demonizado: deixar os filhos fazerem sempre o que querem geraria adultos irresponsáveis; mimar as crianças produziria indivíduos narcisistas e de pouca empatia; reprimendas muito severas e rotulação de defeitos inerentes conduziriam a baixa autoestima, depressão e estados constantes de ansiedade; desapego emocional levaria à inadequação social, excentricidade e solidão; e o bom e velho ensino pelo castigo físico seria a causa da sociopatia e até de suicídios. Note: é uma teoria psicológica completa criada para transferir os defeitos dos filhos para os pais — isto é, colocando-os em você. Que cabimento tem isso?

Foque-se no seu legado positivo. Se um filho saiu errado, corte-o do seu legado. Tente outro. Ou mude de estratégia: sempre há um caminho.

Salvar o planeta, por exemplo, pode ser um bom lugar para começar. Afinal, por que ter filhos, se a Terra já está superpopulada, e a espécie humana é praticamente uma praga indesejável para a natureza? Reciclagem, sustentabilidade e energias limpas são termos que frequentemente pipocam na mídia e nas redes sociais, então é uma boa aposta: go green. E é mais fácil do que você imagina.

Para começar, entenda que não estamos falando de resultados, e sim de performance. Você talvez descubra que várias embalagens, como as caixas de leite, não podem ser recicladas devido à atual impossibilidade de separar os materiais que as compõem. Além disso, boa parte dos contêineres de lixo seco coletados no Ocidente são enviados para o Oriente para serem reciclados lá, em troca de alguns benefícios financeiros — mas muitos desses materiais nunca chegam a ser reciclados, e acabam em aterros de lixo no outro lado do mundo. Pelo menos o Ocidente fica mais limpo! Mas seria isso da sua conta? Você coloca o lixo seco na lata de lixo seco, e até pensa em ter uma composteira. Sua parte foi feita. Orgulhe-se.

Siga essa lógica em todas as áreas da sua vida. Não se preocupe, por exemplo, com a ineficiência energética dos painéis de energia solar, com seus resíduos tóxicos de difícil descarte ou com todo o processo ecologicamente nocivo empregado para produzi-los. No fim das contas, é um painel solar: é politicamente correto, todos irão amar, e você teoricamente será um herói para a natureza.

O mesmo vale para carros elétricos. Na maior parte do mundo, você abastece o carro elétrico na tomada, mas a energia elétrica é produzida nas usinas que queimam carvão e emitem C02. Impacto positivo no ecossistema: zero. Mas quantas pessoas sabem disso? Go electric, and get fun!

E já que você está nessa linha, abrace o socialismo. Nunca deu certo, a teoria é inteiramente incorreta, e arruína tudo o que toca — mas o que diabos você tem a ver com isso? Você viverá sempre em um país capitalista, afinal. E o que as pessoas esperam de você? Que entenda de economia, ciência política, história, e que leve em conta a quantidade de cadáveres acumulados? Será preciso tudo isso para promover uma ideologia? Seus amigos e colegas acham que soa bacana, então repita os mantras and enjoy the party.

Por fim, estabeleça um legado forte na internet. O universo on-line é particularmente relevante porque, como se sabe, o que se posta dura para sempre. A menos, é claro, que o conteúdo vire alvo do revisionismo tecnoético das redes sociais no futuro: nesse caso, suas publicações serão classificadas como discurso de ódio, desinformação perigosa ou haraam, e serão sumariamente expurgadas das plataformas.

Mas mesmo nesses casos (que alguns chamam de "censura", ou "perseguição"), a mudança é para melhor: não devemos atravancar o progresso — se por progresso entendemos a vontade bem-intencionada e responsável das maiores corporações, entidades financeiras internacionais e Estados militarizados do mundo, em seu santo e puro conglomerado global, livre de segundas intenções. Essa postura ética, responsável e humanitária das entidades, governos e corporações mais poderosos do mundo é algo sem precedentes na história da humanidade, mas hoje acredita-se ser perfeitamente plausível, não havendo relação entre essa crença e o fato de que a propaganda midiática, financiada em parte por essas entidades, atingiu seu máximo potencial de convencimento nas últimas décadas.

Portanto, dê atenção especial às guerras virtuais. Mostre ao mundo suas virtudes, e cobre-as dos demais. Promova suas ideias de forma implacável, e não perca tempo lendo qualquer tipo de contra-argumento às suas crenças (e se vier a ler algum deles por acaso, desligue a parte lógica de seu cérebro, para evitar o perigo de mudar de ideia).

Evite contato pacífico ou racional com pessoas que discordem de você. Você perdeu um bom tempo chegando às conclusões a que chegou e sendo propagandeado; qual o sentido de pôr todo esses esforços no lixo? Mantenha suas convicções como se fossem sua própria identidade — porque, a essas alturas, elas já devem ser —, e entenda que qualquer crítica às suas ideias é uma forma de discurso de ódio, e um atentado à sua vida. Por que outra razão alguém discordaria de você?

E em conclusão, é crucial compreender que nossa luta por um legado positivo é cada vez mais baseada no virtual. Não tem mais cabimento, por exemplo, fazer doações aos pobres, quando você pode reclamar sobre isso on-line, expondo sua virtude e demandando que o Estado faça boas ações por você com dinheiro de algum grupo que não inclui você.

Com tweets o suficiente sobre a divisão de raças, quem sabe não acabemos de vez com o racismo? Se associarmos cada vez mais a masculinidade à maldade, e se exaltarmos a pureza das mulheres e afirmarmos sua perpétua vitimização, quem sabe não alcançaremos a igualdade de gênero? E se mandarmos mais ameaças de morte a homens (e lésbicas) que não querem dormir com mulheres transexuais, e que em sua transfobia rejeitam o pênis feminino, quem sabe não salvemos muitas vidas inocentes? E se cancelarmos e banirmos da internet toda dissidência, estreitando a cada dia os limites do tolerável dentro de nossa ortodoxia do bem, quão perto poderemos chegar da verdadeira utopia?

Por isso, reclame, critique, resista. A luta é sobre você. Ensine ao mundo como as civilizações humanas devem ser conduzidas — você sabe que tem as respostas.

Se pelo menos você tivesse o poder de controlar a humanidade...

O importante, enfim, é que você deixe algum legado. Que seja lembrado. Talvez você esteja "no lado certo da história", talvez não esteja. Talvez o movimento a que você pertence seja lembrado, no futuro, como o dos heróis ético-progressistas do início do milênio; ou, quem sabe, o contrário. Quem sabe esteja fazendo tudo errado, mas com convicções fortíssimas, como os tão virtuosos queimadores de bruxas, a alegre e energética juventude hitlerista, ou os sempre eficientes denunciadores de vizinhos do comunismo soviético. Quem poderá saber?

Felizmente, ou não, você já estará morto quando os juízes chegarem. Então aproveite!

stalin

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador

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