O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo | Fantástica Cultural

O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo

O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo

Paulo Nunes ⋅ 3 outubro 2019
Assim como as pessoas sobrevivem à substituição de suas células, as ideias sobrevivem à substituição das pessoas: ideologias, nações, religiões e cosmovisões são como organismos abstratos cuja existência emana dos seres humanos, assim como os seres humanos emanam de uma única molécula: o DNA.

Talvez você já conheça o Paradoxo do Navio de Teseu. O navio Argo, conforme descrito na mitologia grega, esteve na ativa por muitos anos, liderado pelo herói Teseu. Após centenas de aventuras, reformas e reparos, já nenhuma de suas peças originais encontrava-se presente. Cada tábua, cada corda, cada vela e até mesmo os mastros haviam sido substituídos - isto é, 100% do material que compunha a embarcação original havia sido reposto. Surge, daí, o paradoxo: o navio resultante é o mesmo, ou passou a ser outro?

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Embora pareça se tratar de um problema puramente filosófico, ou mesmo linguístico, esta dualidade paradoxal entre o todo e as partes é uma constante observável em todo o universo, algo que determina nossa existência de diversas maneiras: observamos essa relação em termos físicos, biológicos, psíquicos e, dentro do mundo conceitual, nas ideias, ideologias, culturas, religiões, idiomas, artes, etc.

Qualquer unidade superior ao quantum é um coletivo e, como suas partes são intercambiáveis por outras de mesmo valor, sua existência é como que líquida.

Como escreveu Aristóteles, "o todo é maior do que a soma das partes". Matematicamente, esta afirmação é absurda: o todo é, por definição, a soma exata das partes. Mas há algo de verdadeiro escondido na imprecisão da máxima: um amontoado desarticulado de microrganismos não forma qualquer unidade, mas se eles se organizarem em uma estrutura coesa, como células de um corpo maior, seu coletivo formará um indivíduo: uma planta, um animal, ou um ser humano. Qualquer unidade superior ao quantum é um coletivo e, como suas partes são intercambiáveis por outras de mesmo valor, sua existência é como que líquida. Todas as tábuas do navio de Teseu são substituíveis; todos os jogadores de um time podem se aposentar, e o time continuará o mesmo; todas as cópias de um livro servem de veículo para um mesmo texto, mas nenhuma delas é o próprio texto, pois a obra, em essência, é imaterial.

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E essa liquidez das coisas inclui até mesmo a existência humana.

O corpo abstrato

O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo Filosofia Ciências filosofia paradoxo ciências Figura do Slideshow #3Coração artificial

Sabemos, hoje, que todas as células do nosso corpo (com exceção dos neurônios) são renovadas em até sete anos. Com o completar deste ciclo, todos os átomos que nos constituíam são substituídos por outros equivalentes, provenientes principalmente da nossa alimentação. A água em nosso corpo, por exemplo, é diariamente transpirada, expelida, e outro tanto é absorvido - até mesmo pela pele -, de modo que boa parte de nossa massa (60%, no caso da água) está apenas de passagem através de nós. Somos como o navio de Teseu. Ainda que nossa estrutura física demonstre coesão ao longo do tempo, suas partes concretas vêm e vão. O que se mantém é sua forma "conceitual".

Assim como todos os organismos vivos, portanto, o corpo humano é uma estrutura primariamente conceitual, que ganha forma e realidade por meio de suas unidades constitutivas (células, moléculas, átomos, etc.). Estas unidades são intercambiáveis por outras com as mesmas propriedades.

É claro que pouca gente gosta de ver o ser humano desta maneira. Para quem crê na existência da alma, qualquer impermanência material é de pouco impacto, porque entende-se que a essência do indivíduo se encontra em outro plano existencial; mas para os céticos, fica a dúvida: será que alguma parte do ser humano é, de fato, insubstituível?

O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo Filosofia Ciências filosofia paradoxo ciências Figura do Slideshow #4As partes do corpo podem ser substituíveis, mas o ideal é procurar um bom profissional, para evitar casos como este

A resposta provavelmente está em nosso cérebro. No ser humano, a maior parte dos neurônios forma-se antes do nascimento, perdurando durante sua vida inteira. O cérebro, portanto, parece manter as mesmas peças durante toda a existência do indivíduo, ao contrário do resto do corpo. Entretanto, ainda não há qualquer garantia de que nossos neurônios não possam ser substituídos por outros com as mesmas características eletroquímicas (isto é, por outros que copiem com exatidão sua estrutura e função original). Se isso for possível (e ainda não há razão científica para se pensar o contrário), a troca de um neurônio original por outro idêntico, sintético, seria imperceptível. Nesse caso, até mesmo a identidade de cada pessoa seria um continuum entre a mente e o entorno (visão encontrada, aliás, em certas religiões, referida às vezes como não-dualismo).

As ideias como organismos

"Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Pois da segunda vez o rio não será mais o mesmo, nem tampouco o homem."

Heráclito de Éfeso

Também as ideias sobrevivem à substituição dos indivíduos, assim como o rio subsiste à troca total de suas águas. Por ideias, refiro-me a algo mais amplo - "organismos" inteiramente sustentados pela mente, e que se manifestam a partir dela, como conceitos, ideologias, tradições, culturas, cosmovisões, religiões, correntes estéticas, idiomas, etc. Elas sobrevivem aos homens, ainda que sua existência emane deles.

O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo Filosofia Ciências filosofia paradoxo ciências Figura do Slideshow #5Coletivismo totalitário

A imortalidade da nação, por exemplo, é uma interpretação extrema dessa concepção, tendo sido considerada um imperativo moral pelos fascistas italianos do século XX. Conforme a ideologia fascista, e nas palavras do próprio Mussolini, "tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado". Para Mussolini, os indivíduos existem para servir ao Estado, e não o Estado para servir aos indivíduos; através da nação, o ser humano seria imortal. Entendia-se que tudo o que fosse essencial ao ser humano deveria ser assunto de Estado, como costumes, moral, etc., e tudo o que não contribuísse com o Estado era, no mínimo, irrelevante - e, no extremo, algo a ser destruído. Assim como o ser humano arranca de seu corpo as partes indesejáveis, sem remorsos, também o Estado fascista elimina os indivíduos que possam lhe causar problemas, como peças desajustadas. À semelhança do comunismo, o fascismo é exemplo clássico de um sistema de ideias que estabelece a supremacia do coletivo sobre o indivíduo. Em teoria, os interesses do coletivo estariam sempre alinhados aos dos indivíduos; mas os campos de concentração, os gulags soviéticos e as milhares de mortes em guerras ou pela falta de suprimentos parecem testemunhar o contrário. Se o Estado é capaz de ser imortal, para a glória de seu povo, todo cidadão que não aceite o "ideal coletivo" é tratado com um corpo estranho: um câncer.

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Como não vivemos em um regime totalitário, acreditamos poder desfrutar de relativa liberdade em nossa sociedade, mas biólogos como Richard Dawkins encaram o livre-arbítrio humano como um fator muito mais estreito, devido a certo determinismo genético. No famoso O Gene Egoísta, Dawkins apresenta um curioso ponto de vista sobre a evolução das espécies, onde os genes são os principais agendes da evolução, sendo os organismos que os carregam apenas seus veículos. Trata-se de um convite a um ponto de vista menos antropocêntrico, e menos óbvio, através do qual podemos observar que os organismos são como máquinas orgânicas criadas pelos genes, e ao redor dos genes, para permitir sua replicação e sobrevivência. Assim, e conforme Dawkins, até mesmo o altruísmo não passaria de uma qualidade útil aos genes para seu sucesso reprodutivo - e pouco sobraria, dentre as escolhas humanas, que escapasse ao determinismo biológico.

Provérbios, gírias, gestos, símbolos, canções, trocadilhos e até preconceitos podem ser entendidos como memes.

Outra contribuição de Dawkins, menos polêmica, é o conceito de meme, que é o equivalente cultural do gene. Ao observar os fenômenos culturais, Dawkins concluiu que a seleção natural de organismos se assemelha muito à seleção natural de ideias. Para ele, um meme não é apenas um JPG engraçado de baixa resolução; qualquer ideia com potencial de se reproduzir através de seus hospedeiros (os indivíduos) é um meme, sendo sua eficiência reprodutiva mensurável por quantidade (número de vezes em que foi usado) e por duração (por quanto tempo permaneceu em uso).

Provérbios, O Paradoxo de Teseu - Autonomia das partes vs. Supremacia do todo Filosofia Ciências filosofia paradoxo ciências Figura do Slideshow #7 gírias, gestos, símbolos, canções, trocadilhos e até preconceitos podem ser entendidos como memes. Podem ser transmitidos por imagens, por texto, pela fala ou por um arranjo complexo de mídias. Alguns tornam-se populares em questão de horas, como algumas hashtags, desaparecendo com a mesma rapidez; outros levam décadas ou séculos para se instalar com força, como o cristianismo, mas perduram por milênios.

São entidades com vida própria, que nascem dos seres humanos, que apenas existem enquanto são reproduzidas por seres humanos e que, ainda assim, determinam a vida desses mesmos seres humanos, como é o caso de tradições, religiões e regimes políticos.

A parte e o todo: uma falsa dicotomia

Toda unidade é, na verdade, um coletivo.

Um objeto é um aglomerado de moléculas provisoriamente coesas e em intercâmbio com o meio e que irá se diluir no ambiente com o passar do tempo, assim como se constituiu a partir de poeira estelar.

Se existe, de fato, uma unidade mínima de existência, um quantum indivisível, este seria a única exceção à regra - mas o nível mínimo da física ainda não foi descoberto. O que temos, por ora, é que a ideia de unidade parece ser apenas um rótulo útil. Um objeto, por exemplo, é uma unidade na medida em que nos é útil entendê-lo como tal, ainda que ele seja, de fato, um aglomerado de moléculas provisoriamente coesas e em intercâmbio com o meio (toda matéria perde moléculas constantemente, interagindo com as substâncias do entorno - sem limites bem definidos), e que irá se diluir no ambiente com o passar do tempo, assim como se constituiu a partir de poeira estelar.

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Portanto, nossa linguagem é bastante (e inevitavelmente) imprecisa quando lidamos com termos como ser, algo, um. Dificilmente podemos definir algo com verdadeira precisão, visto que suas partes estão sempre se substituindo, e visto que seus limites são tão fluidos. A solução de Platão para tal problema (o mundo das ideias) atribuía a todo ser uma existência ideal, no plano conceitual, sendo sua materialização no mundo uma cópia mais ou menos imperfeita; assim, por exemplo, uma cadeira teria obrigatoriamente quatro pernas, mas isso não impediria a existência de cadeiras sem pernas, visto que estas seriam cópias imperfeitas do modelo ideal. Paradoxalmente, hoje entendemos que este mundo das ideias platônico não é algo como uma dimensão perfeita para além da nossa, com a qual podemos apenas sonhar; ele existe somente na mente humana, sendo dependente de nossa cognição imperfeita.

Mas não deixa de ser fascinante como pensadores de épocas tão antigas, por todo o mundo, já abriam os olhos para essa característica sutil de nosso universo. Sócrates, Platão, Heráclito e outros tantos filósofos da Antiguidade já sentiam essa pulga atrás da orelha ao refletirem sobre o mito do navio de Teseu.

Pelo que continua a dúvida, para cada um responder à sua maneira: o navio é o mesmo?

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador