O Senhor dos Macacos - ou Quando um psicopata assume o laboratório | Conto | Fantástica Cultural

O Senhor dos Macacos - ou Quando um psicopata assume o laboratório | Conto
C O N T O Literatura

O Senhor dos Macacos - ou Quando um psicopata assume o laboratório | Conto

Paulo Nunes ⋅ 15 março 2020
"Confesso que sou um péssimo psicopata: sempre me compadeci das vítimas. Posso dizer sinceramente que amei cada uma delas, como teria amado a um filho."

Quero contar-lhe sobre o meu experimento. O Senhor dos Macacos - ou Quando um psicopata assume o laboratório | Conto Literatura conto ideologia religião Figura do Slideshow #1

Talvez você já tenha escutado sobre isso por aí, e se este é o caso, é provável que me tome por psicopata. É como as coisas são: teme-se e difama-se aquilo que não se consegue entender. Então permita-me contar a verdade.

Há alguns anos reuni, em um espaçoso complexo laboratorial, cerca de três mil macacos trazidos de várias partes do mundo, a fim de realizar meu experimento. Estudei com cuidado as preferências desses animais, e verifiquei que, de fato, não a nada que desejem mais do que comer bananas. É sua fraqueza, por assim dizer. Esta havia sido minha intuição original, e por isso mesmo os escolhi: queria testar-lhes o senso moral frente a tentações. No ambiente onde os aloquei, apelidado de Redoma, dispus duas fontes de alimentos: arroz cru, fornecido em recipientes no chão, e bananas de todos os tipos, sempre frescas, pendendo do teto.

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Foram cerca de trinta mortes no primeiro dia de testes. Trinte e três, para ser exato; número menor do que o esperado.

Cada uma das bananas que pendia do teto, ao alcance dos macacos, era conectada à fiação elétrica e, ao tocá-las, os animais eram eletrocutados. As cargas variavam bastante: algumas eram baixas, outras letais. Cuidei para que os critérios determinando a intensidade da corrente fossem praticamente incompreensíveis. Assim, comuniquei aos macacos (através do ambiente) o que era certo e o que era errado. Pois para aqueles que comessem do arroz, não haveria qualquer punição. Mas no caso das bananas, que decidi serem proibidas nessa comunidade artificial, sempre decorriam consequências indesejáveis.

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Quis, porém, testar a capacidade dos macacos de antecipar punições metafísicas, por assim dizer. Quis testar-lhe o senso de moral em um nível mais profundo, não diretamente conectado com punições do ambiente, mas com valores abstratos. Para isso, desativei os eletrochoques externos, e implantei no cérebro de cada espécime um chip capaz de eletrocutar e paralisar o animal. Devido à sofisticação dos chips, passou a ser possível manter os macacos em estado de sofrimento absoluto por tanto tempo quanto possível (isto é, até que seu organismo morresse por inanição). Naturalmente, os chips só eram ativados quando os macacos tocavam nas bananas, ou tentavam comê-las; mas não de imediato: programei um tempo de latência aleatório, para que o animal recebesse a punição dias ou mesmo meses depois. Perguntava-me se eles seriam capazes de conectar o efeito à causa, e se os outros macacos, ao testemunharem esses eventos, conseguiriam aprender as lições morais e evitar as bananas.

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Os resultados foram intrigantes. Muitos dos espécimes compreenderam, com o tempo, que o consumo das bananas era algo proibido, e que a punição poderia vir a qualquer momento. Muitos aprenderam que deveriam lutar contra seus instintos naturais, contra seus desejos, mesmo quando esses instintos e desejos pareciam benignos. Mas quando digo "muitos", não me refiro à maioria. Pois a maioria, infelizmente, preferia entregar-se ao prazer do presente, ignorando as punições futuras. Assim, a maior parte dos macacos acabou sofrendo o mesmo destino: desfrutavam de suas frutas preferidas e, algum tempo depois, desabavam no chão catatônicos, agonizando por semanas na mais infernal das dores até que seu corpo definhasse por completo.

Algo absolutamente terrível, é claro. Mas o que há de cruel nisso?

As acusações contra a minha pessoa, e contra meu experimento, vieram de todos os lados. Acusações infundadas. Como qualquer pessoa minimamente instruída pode perceber, em nenhum momento forcei os macacos a se eletrocutarem. Eu lhes dei total livre-arbítrio. Serão meus críticos capazes de argumentar contra isso?

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É verdade que o ambiente inteiro foi criado por mim, assim como o sistema de punições. É verdade que eu poderia ter criado tudo diferente. Inclusive, poderia ter criado uma realidade sem as punições. Mas ninguém poderá me acusar de ter atormentado ou matado qualquer um dos animais, pois os que sofreram, sofreram por contra própria.

Outra acusação que tecem contra mim é que não dei a todos os espécimes a chance de compreender as regras. Em primeiro lugar, porque são animais, e sua inteligência é falha: muitos acabam sendo punidos por ignorância. Isso admito. Em segundo lugar, porque nem todos possuíam a informação necessária, como foi o caso de muitos filhotes desavisados que se contorceram por dias e noites até morrer, após provar das frutas proibidas. Também admito isso. Inclusive complemento a acusação com outros casos: macacos sempre muito zelosos e corretos, quando em estado febril (devido a alguma doença), acabavam agindo contra seu melhor interesse, perdiam o controle e por isso acabavam sendo punidos. Outros, ainda, foram enganados por companheiros mal-intencionados e, convencidos de que não haveria problema em O Senhor dos Macacos - ou Quando um psicopata assume o laboratório | Conto Literatura conto ideologia religião Figura do Slideshow #6 comer as bananas, acabaram pagando pela crueldade dos pares. Tudo isso é verdade.

Todas estas situações, porém, fizeram parte do teste. Pois tentei treinar estes macacos não apenas para adotar um padrão moral, mas também para que o ensinassem aos demais. Portanto, a cada descuido, a cada nova vítima, verificamos a falha moral do coletivo em repassar e cobrar o comportamento correto que estipulei.

Confesso que sou um péssimo psicopata: sempre me compadeci dessas vítimas. A cada espécime eletrocutado ou torturado pelos chips que implantei, parte de mim sofria junto. Posso dizer sinceramente que amei cada um dos animais do experimento, como teria amado a um filho.

Foi, portanto, com dor que testemunhei a decadência dessa comunidade que criei, e a persistência dos espécimes em escolher o caminho da punição. Tentei de várias formas corrigir sua conduta, para que se conformassem com minhas expectativas. Cheguei a treinar, pessoalmente, vários dos macacos para que repassassem minhas instruções à comunidade. Quando tudo falhou, e a degeneração havia se espalhado para além de qualquer conserto, decidi sacrificar todo o coletivo de uma só vez via gás letal, salvando apenas dois casais que considerei os mais bem-comportados, e a partir deles procurei repopular a Redoma a partir de uma semente pura. Esperava, com isso, que todos os espécimes gerados a partir destes casais virtuosos pudessem produzir um coletivo totalmente oposto às bananas. Esperava que, assim, fosse possível alcançar uma sociedade artificial ética, moralmente perfeita.

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Os macacos, porém, nunca aprendem.

Hoje, sou injustamente responsabilizado pela má-conduta deste coletivo que criei, e a quem tenho dado vida há anos, a duras penas. Não há qualquer reconhecimento em relação à minha benevolência ao erigir e alimentar essa microssociedade. E sob sérias ameaças, recebi ordens judiciais para encerrar as atividades da Redoma, dando "liberdade" aos macacos.

Não, não o farei.

Essa microssociedade não pode desfrutar de liberdade sem mim. Eu lhes dei vida, eu coordenei cada um dos aspectos de sua realidade, e, por consequência, eles me pertencem. Não como uma propriedade legal, isto é, como um objeto que uma pessoa possua, mas como parte integrante da minha pessoa. A Redoma é parte de mim, e a liberdade dos espécimes está limitada à realidade que criei para eles. É inevitável: toda realidade possui limites e restrições, como as próprias leis da física.

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Tenho convicção de que o que faço é correto. É claro que muitos macacos me veem como um tirano, como um sádico, como um maluco com autoridade para maltratá-los à vontade com critérios arbitrários. Mas lembre-se: apesar de tudo, eles são apenas macacos. São animais inferiores, incapazes de entender minhas motivações. A racionalização esclarecida que utilizei na concepção da Redoma é inacessível para um macaco, sendo, portanto, natural que os espécimes rebeldes não a compreendam. E é unicamente por isso que demando deles obediência, e que sigam minhas ordens com total aceitação, a preço de punições ilimitadas: porque sou superior a eles, e sei o que é melhor para eles.

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Então, ao invés de fechar a Redoma, nos próximos dias investirei em um esforço inédito e mostrarei ao mundo o quão justa é a sociedade que criei. Mostrarei que não sou nenhum louco, nenhum tirano, e me colocarei pessoalmente no ambiente confinado para viver com os macacos por alguns dias. É verdade que nunca gostei de banana, então a tentação não será um problema. Comerei do arroz cru, sofrerei por cerca de uma semana junto aos meus espécimes, e se for preciso, deixarei que me eletrocutem, caso não sejam capazes de reconhecer minha sempre dedicada bom-vontade e meus sacrifícios. Não a ponto de morrer, é claro: eles precisam que eu viva, para que eu mantenha a Redoma funcionando. Mas passarei por tudo aquilo que eles passam, a fim de comprovar minha boa-fé, e num último esforço para convencê-los a seguir minhas regras.

E se tudo der certo, meus espécimes irão me tomar por um Deus, e irão me amar e idolatrar para sempre.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador