Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos | Fantástica Cultural

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos

Paulo Nunes ⋅ 23 fevereiro 2020
Desbrave a fascinante simbologia psicológica de Peter Pan e sua representação profunda das crianças grandes.

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #1

Ninguém curte ser chamado de infantil, ou de imaturo. É geralmente vergonhoso ser associado a uma criança, especialmente no que diz respeito à mentalidade e ao comportamento. Não por acaso, buscamos salientar nosso amadurecimento já desde o início da adolescência. Queremos ser levados a sério. Queremos ter a autonomia de um adulto, e que nossas decisões de vida sejam respeitadas. Mas assumir as consequências dessas ações - essa é outra história.

É perfeitamente natural que se deseje o máximo de benefícios em troca de um mínimo de esforço. Sempre foi assim: trata-se da lei do menor esforço. Essa tendência, porém, nunca foi tão culturalmente disseminada, e observa-se seu crescimento constante por todo o mundo. Escutamos cada vez mais sobre a adolescência estendida, ou prolongada, e sobre a imaturidade/irresponsabilidade congênita da geração y (os millennials). É, portanto, entranho que uma das obras de ficção mais intrigantes sobre o tema tenha sido publicada em 1904: Peter Pan, de J. M. Barrie.

Peter Pan: uma simbologia que traduz a realidade

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #2Dr. Jordan Peterson

Você já deve ter ouvido falar da "síndrome de Peter Pan" (o termo "síndrome", aqui, é usado como coloquialismo). Não me refiro ao livro que leva esse nome, de Dan Kiley, mas sim à análise do professor e psicólogo clínico canadense Jordan Peterson, que analisa os diversos elementos da história de Peter Pan e desvenda suas significações e simbologias. As ideias que se seguem são baseadas em sua leitura do livro Peter Pan.

Peter Pan é o menino que não quer crescer. Ele é uma figura mágica, como a própria infância. Sua capacidade de voar é a mais clara representação da liberdade - ou, para sermos mais objetivos, da ausência de responsabilidade. A liberdade, para Pan, não é uma questão política, mas sim social, moral: como toda criança, ele não precisa arcar inteiramente com as consequências de suas ações, e há sempre um filtro mágico (a proteção prestada por terceiros) entre ele e a realidade, salvaguardando-o do mundo real. Assim, é-lhe permitido mover-se como bem entende, quase sem preocupações. Simbolicamente, ele voa.

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #3Filme Peter Pan - Walt Disney, 1953

, na mitologia greco-romana, é o "deus de tudo": simboliza não só a natureza, mais o próprio universo (o próprio radical pan, do grego, significa "tudo"). Já Peter Pan, como toda criança, é o potencial de tudo: pois, como puro potencial humano, pode se tornar virtualmente qualquer coisa quando crescer. Porém, ao se manter eternamente imatura, na forma de potencialidade não concretizada, o ser humano pode acabar não se tornando nada.

A figura da pessoa adulta, em Peter Pan, é simbolizada principalmente por Capitão Gancho. Ele não é apenas o vilão. Apresenta-se como um personagem detestável, perseguindo Peter como a vida adulta persegue a criança em crescimento.

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #4Filme Hook - A Volta do Capitão Gancho, 1992

Gancho teve sua mão devorada pelo crocodilo Tique-Taque. Por ter engolido o relógio de Gancho junto com o membro arrancado, o crocodilo torna-se uma maravilhosa metáfora para o tempo: ele passa a perseguir o pirata com o relógio eternamente tiquetaqueando em sua barriga, assim como o passar do tempo persegue o adulto sem descanso até o dia em que irá devorá-lo. Outra vez, podemos lembrar da mitologia greco-romana, onde Cronos (Saturno), deus do tempo, é um titã que devora seus próprios filhos. O crocodilo Tique-Taque, em Peter Pan, persegue Gancho para terminar de devorá-lo, lembrando-o, com o som do relógio, que seu fim é só uma questão de tempo.

Não é surpresa que Peter Pan não queira se transformar em um adulto. Ao deixar a proteção mágica dos pais e da família, o indivíduo precisa defender a si mesmo, e lutar por sua própria sobrevivência em um mundo hostil. Precisa, como Gancho, torna-se um tirano: batalhar por seus próprios interesses, impor limites ao redor para se proteger - atitudes associadas ao conservadorismo que a juventude tipicamente abomina, mas que, ironicamente, é essencial para sua existência (o adolescente que se rebela contra o "sistema" quase sempre tem suas necessidades básicas atendidas pelos recursos e esforços de uma família tradicional). Peter Pan pode evitar a maturação, mas não escapa às consequências dessa fuga.

Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #5Antifa - os meninos perdidos contra os piratas imaginários

Assim como no caso dos adultos imaturos (ou semiadultos), só o que resta a Pan é tornar-se o Rei dos Meninos Perdidos - um título divertido, mas de que ninguém se orgulharia. Pan torna-se, em outras palavras, o rei dos fracassados. Em uma visão romantizada, suas lutas contra Gancho podem parecer heroicas. No mundo real, porém, o adulto Peter Pan é incapaz de lidar ou competir com outros adultos par a par, e muitas vezes recorre à culpabilização de terceiros ou a táticas de vitimização para conquistar objetivos (como uma criança que, ao não ter o que quer, começa a chorar - sua estratégia instintiva). Não é à toa que, ao serem tratados com o mesmo rigor que outros adultos, sentem-se oprimidos. E pela mesma razão, costumam demandar tratamento especial, pois acreditam-se especiais e merecedores de privilégios (como qualquer criança mimada). Mas como não são, de fato, crianças, precisam encontrar justificativas racionais para suas ações - e facilmente as encontram.

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Além disso, Peter não pode viver um relacionamento não infantilizado com Wendy. Naturalmente, não é surpresa que Wendy se divirta com ele: Peter vive buscando diversão e liberdade, e em nível superficial é uma figura atrativa. No entanto, Wendy simboliza uma jovem adulta à procura de um parceiro para a vida, alguém com quem possa construir uma vida estável e ter filhos (o que implicaria comprometimentos e responsabilidades que Pan tentará evitar como evitaria a própria morte). Parece familiar? Este, aliás, é um dos aspectos centrais do livro, pelo que as primeiras edições foram intituladas Peter & Wendy, indicando que se tratava da história de um casal.

Pan é um ser sexual, assim como o deus Pã, que é comumente representado como um fauno pervertido (às vezes com uma ereção indisfarçável). Tanto no romance de J. M. Barrie quanto no filme da Disney, não seria apropriado que houvesse referências claras à sexualidade - mas não é muito difícil perceber a analogia ao observarmos a fada Sininho. Síndrome de Peter Pan: Crianças em Corpos de Adultos Literatura Comportamento Psicologia Cinema psicologia comportamento literatura cinema Figura do Slideshow #7 Nas palavras de Jordan Peterson, Sininho é como a "fada da pornografia". Ela representa a sexualidade imatura: não é algo real, ou tangível. É um substituto.

E é desnecessário comentar o que o pó de Pirlimpimpim simboliza.

O próprio mundo onde Peter Pan vive é irreal. A Terra do Nunca simboliza o paraíso das ilusões. Isso porque o adulto Peter Pan recusa-se a viver na realidade, como já vimos. O mundo real não é bom o bastante para ele. No entanto, não é de fato possível viver fora da realidade: não importa onde a mente de Pan esteja, sua existência continuará sempre dependendo do mundo real, e a proteção e os privilégios de que dispõem precisam ser garantidos por terceiros a quem ele parasita (pessoas ou entidades que não têm escolha senão atuar no mundo real, carregar suas responsabilidades e sustentar Pan em suas fantasias).

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Foi a muito custo que chegamos aos padrões de sociedade atuais. Com todos os problemas ainda existentes, é inegável o progresso feito no que tange à liberdade individual: os modos de viver e de se relacionar se tornaram muito mais flexíveis, e diversas novas oportunidades revelaram-se ao longo do caminho. Assim, não parece haver uma fórmula correta de ser adulto. E não deve ser trabalho de ninguém se intrometer na vida alheia para ditar regras ou prestar conselhos não solicitados.

E, no entanto, é também inegável que as escolhas individuais têm impacto crucial no andar das civilizações e na saúde mental das pessoas. Escolhas de vida hedonistas e excessivamente autocentradas, voltadas apenas para a satisfação no presente, podem resultar em décadas de infelicidade, depressão e solidão no final da vida. Além disso, são gerados efeitos em cascata sobre toda a sociedade. O adulto que foge de seus próprios problemas ou responsabilidades provavelmente não poderá cooperar em nível social como profissional, líder, familiar ou mesmo cidadão.

E de qualquer forma, crescer não é tão ruim assim. A constante fuga de desafios e responsabilidades é geralmente fórmula para uma vida sem sentido e um cotidiano desestimulante.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador