Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea | Fantástica Cultural

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea

Paulo Nunes ⋅ 16 fevereiro 2020
"Coringa" foi feito para um público que, certamente, não quer ser como o psicótico Coringa, mas "Aves de Rapina" foi feito para um público que, ao que tudo indica, quer ser como a psicótica Arlequina. O que isso diz sobre nós?

Coringa e Arlequina formam um par fascinante. Dos quadrinhos para os cinemas, ambos os personagens ganharam um filme próprio nos últimos meses: filmes de super-heróis sem nenhum super-herói, onde os supervilões são protagonistas. Coringa (2019) e Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020), cada um a seu modo, retratam casos da insanidade contemporânea, adotando os temas, o tom e a perspectiva próprios de cada caso - e conjugando um reflexo grotesco e hiperbólico de quadros bastante reais na sociedade.

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #1

A insanidade de Arthur Fleck, o Coringa, é explicada no filme de 2019 (direção de Todd Phillips) como resultado direto do meio social. Não havia nada de errado no bebê Arthur. A sorte não estava do seu lado, entretanto; décadas de transtornos, rejeições e dificuldades acabaram o levando ao colapso mental.

Esse Coringa representa o homem que não tem mais nada a perder, e cujo único recurso de ação é a violência. Arthur sonha com uma vida que se vê incapaz de concretizar. Deseja escapar da pobreza, mas não consegue trabalho como comediante; deseja apreciação e admiração, mas é desprezado; deseja respeito e compaixão, mas é publicamente humilhado; deseja afeto amoroso, mas não acredita que é merecedor e, por isso, evita as mulheres. Ele não tem nada. Seus anseios mais essenciais lhe são negados, pelo que Arthur passa a sonhar acordado imaginando-se famoso, na televisão, bem-sucedido e em um relacionamento com uma vizinha. Mentalmente e emocionalmente fragilizado pela constância dos abusos, dos maus-tratos e do desprezo que assolaram sua vida desde a infância, ele não possui a resiliência e a estabilidade psicológica para escapar à maré de dificuldades. E a impossibilidade de escapar deste paradoxo acaba fracionando sua psique.

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É como adverte o provérbio africano: "O jovem que não é acolhido pela aldeia a queimará para sentir seu calor".

Originalmente, o Coringa era apenas um vilão lunático. Foi inspirado não na realidade, mas na figura simbólica que lhe dá nome. Um coringa, ou bobo da corte, é uma figura tradicionalmente absurda a que falta juízo e racionalidade nas ideias e ações. Ele não mede consequências, e por fazer pouco caso da lógica e da ordem, divertindo-se com disparates e destruição, é frequentemente tratado como símbolo do caos. Em inglês, o coringa é conhecido como joker (aquele que faz rir), palavra também usada como sinônimo para palhaço, bufão, arlequim (sendo esta última a origem do nome de Arlequina - Harley Quinn em inglês, de harlequin).

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Foi no Batman de Christopher Nolan (2008) que a versão cinematográfica do Coringa se tornou realmente intrigante. Mais impulsivo e idealista do que sua versão no filme de Tim Burton (1989), o Coringa de Nolan é um gerador de caos por excelência, e dinheiro e poder só lhe interessam na medida em que lhe permitem continuar atormentando Gotham. Em contraste, o Coringa de Todd Phillips parece mais transtornado que maluco, e seu prazer com o caos e a destruição é um prazer doloroso: a única forma de afeto que conseguiu concretizar foi a do afeto negativo, a violência; a única forma de participação social em que pôde ser reconhecido foi a da destruição; a única fama que alcançou foi a do crime.

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Não é à toa que o filme tenha feito tanto sucesso entre o público. Sem lutas apoteóticas de super-heróis, sem carroceis de computação gráfica e com um roteiro bastante incomum para o gênero, Coringa (2019) mostra ao expectador que os vilões reais são mais parecidos conosco do que gostaríamos de acreditar.

A história do Coringa não é muito diferente da do criminoso comum. Não é que a ele tenha, de fato, faltado oportunidades; mas o excesso de barreiras sociais e a escassez de oportunidades, somados aos resultados psicológicos de uma infância de abuso e de uma educação insuficiente, esmagaram seu desejo de "jogar pelas regras". De sua perspectiva, o mundo o trata com injustiça, e ele, em troca, despreza a justiça no mundo. Assim como ele, milhares de pessoas no mundo real vivem uma jornada semelhante, de vítimas a vitimizadoras. Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #5 É um quadro tipicamente masculino, quase sempre de jovens, e de classe baixa. E ainda que alguns críticos tenham acusado Coringa de romantizar a violência e normalizar as ações de um serial killer, parece-me que o filme funciona como o testemunho de uma ruína humana, a trajetória de um homem como qualquer outro até o ponto sem retorno.

Mas e sua futura namorada, Arlequina?

É muito difícil imaginar o Coringa deste filme de 2019 em um relacionamento com Arlequina, personagem interpretada por Margot Robbie em Esquadrão Suicida (2016) e em Aves de Rapina este ano. Não apenas suas personalidades são completamente incompatíveis, mas cada um deles existe em um filme com temática, estilo, tom e visual diferentes. E se este Coringa é uma representação de um sociopata masculino, a Arlequina de Aves de Rapina é o estereótipo de uma sociopata feminina.

A insanidade criminosa de Arlequina é, esta sim, retratada com glamour. E como uma comédia. Em uma das primeiras cenas do filme, por exemplo, Arlequina quebra as duas pernas de um homem e o aleija para sempre porque ele a ofendeu. É claro que se os sexos fossem reversos, essa reação seria desproporcional e absurda; mas parece haver algo de cômico quando a violência vem da mulher. Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #6 Como sabemos que se trata de ficção, e de uma ficção não realista, tendemos a encarar a brutalidade com o mesmo olhar com que assistiríamos as barbaridades de Tom & Jerry ou Pica-Pau (como um cartum). Ou como as mutilações e execuções em Kill Bill. E não precisaríamos pensar mais nisso.

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #7 Arlequina, porém, é um retrato caricatural e exagerado de um tipo real. Seu caráter, sua personalidade e muitas de suas atitudes são cada vez mais comuns na sociedade, e são admirados e idealizados como um modelo feminino a ser imitado (entendidos como empoderamento, libertação, autenticidade, etc.).

Não surpreende que o subtítulo do filme seja "Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa". Emancipação é uma palavra que jamais seria incluída em um título de filme (especialmente neste gênero) não fosse sua associação direta com o feminismo. Para a surpresa de ninguém, o marketing do filme o caracterizou como feminista, antimachista, empoderante. Uma história para inspirar mulheres do mundo todo, para nutrir sua autoestima, para reforçar que todas são capazes de alcançar seus sonhos. Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #8 Na melhor das hipóteses, é um caso de contradição grosseira entre a mensagem pretendida e o que de fato é apresentado na tela; no pior, a confirmação de que uma serial killer cleptomaníaca vestida de palhaço e um time de criminosas é a cara do feminismo, na visão dos produtores.

Arlequina é terrível. São tantas pessoas que a odeiam, devido às suas traquinagens cruéis, que o filme transforma a situação em piada, apresentando com textos coloridos o nome de suas vítimas e, abaixo, a descrição de o que ela havia feito contra elas.

Além de egoísta e irresponsável, Arlequina é narcisista. Quem mais usaria uma camisa com o próprio nome estampado? Na ausência de planos para o futuro (uma vez que só se preocupa com o aqui e agora), seus anseios se resumem aos instintos físicos básicos: comer, embebedar-se até vomitar, dançar, dormir. Esperaríamos que sexo estivesse nessa lista, mas devido ao teor da produção, esse aspecto foi de todo ignorado (caso contrário, teríamos a protagonista compensando sua dor de cotovelo com várias cenas de sexo casual e uma infinidade de brinquedos eróticos esquisitos). Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #9 Enquanto em Coringa o maior desejo do protagonista é ser bem-sucedido na vida, ser reconhecido por seus esforços e ser apreciado, tudo o que Arlequina quer é comer seu amado pão com ovo e bacon - gana que ela só consegue satisfazer ao final do filme.

Hedonista, caótico e autodestrutivo, seu caráter e personalidade são traduzidos em seu visual. Dentre suas várias tatuagens, em uma em seu rosto lê-se "APODRECIDA". Suas roupas, maquiagem e cabelo tingido são apenas um pouco mais exagerados do que veríamos no mundo real. E para completar o quadro, Arlequina vive em um apartamento sujo e esculhambado na companhia de uma hiena, e mal consegue pagar por sua comida.

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #10

Não são comuns entre mulheres os atos de violência cometidos por Arlequina, mas, de resto, o quadro apresentado no filme é fortemente representativo de uma subcultura crescente. São jovens que interpretam costumes sociais e responsabilidades éticas como formas de opressão, buscando, por isso, antagonizá-los à custa de suas relações sociais, profissionais e familiares. Egoísmo é celebrado como autocuidado e libertação dos interesses alheios; narcisismo é tratado como amor próprio e sinal de autoestima; irresponsabilidade é justificável porque decorre do ato natural e autêntico de seguir os instintos e não reprimir os desejos.

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #11"Aves de Rapina celebra o empoderamento feminino, mas é muito mais do que o gênero dos produtores; é uma lufada de ar fresco no espaço sério e sombrio dos super-heróis"

Da adoção dessa filosofia de vida decorre todo tipo de sociopatia, dentre os quais: manipulações, como mentiras, chantagens, intrigas, bullying psicológico, vitimização interesseira e gaslighting, ou, nos casos mais graves, execução de fraudes, extorsão e falsas acusações de assédio e estupro; complexo de superioridade, sadismo; falta de empatia, de comprometimento ou de remorso, levando a quebra de promessas, agressões de parceiros, crianças ou animais; falta de autocontrole, como promiscuidade perigosa e abuso de drogas; e, no limite, casos bem mais raros como crimes hediondos.

É claro que estamos falando de um filme de humor, e de uma personagem caricatural. Mas note que Coringa foi feito para um público que não quer ser como o Coringa, enquanto Aves de Rapina parece ter sido feito para um público que quer ser como Arlequina. No site de notícias Salon, por exemplo, a colunista Mary Elizabeth Williams escreve:

O patriarcado será estilhaçado com granadas de mão e laços de cabelo. Pelo menos, essa é a impressão que eu tenho depois de assistir ao excêntrico, ultraviolento e extremamente feminista Aves de Rapina. [Depois de terminar seu relacionamento com o Coringa, Arlequina] logo descobre os perigos de não ter mais um homem assassino, manipulador e emocionalmente abusivo para protegê-la, e que o poder de mulheres unidas pode causar estragos.

Coringa e Arlequina: Retratos da Sociopatia Contemporânea Psicologia & Comportamento Cinema psicologia comportamento cinema loucura Figura do Slideshow #12"... Aves de Rapina é um filme delicioso sobre família escolhida, sobre poder feminista e sobre arruinar os sistemas vigentes - como policiais e mafiosos..."

Sem dúvida, o Coringa é um assassino manipulador e emocionalmente abusivo. Mas parece ter escapado à colunista que Arlequina é igualmente assassina, manipuladora e emocionalmente abusiva. O empoderamento celebrado aqui não possui qualquer restrição ética. "Causar estragos" é dado como positivo, porque é um exercício de poder desempenhado por uma mulher. A colunista citada, é claro, é apenas um dos milhares de exemplos que podem ser trazidos sobre o enaltecimento de sociopatias. Nada parecido pode ser encontrado em relação a Coringa: ninguém o celebra como um modelo masculino a ser admirado e seguido.

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Tudo considerado, esses dois filmes formam um par bastante curioso. Coringa, com seu tom sério, um drama diretamente inspirado em Taxi Driver, de Scorsese, adota a perspectiva de seu protagonista, desdobrando sua narrativa de forma realista e visceral. Da mesma forma, Aves de Rapina retrata o mundo como a própria Arlequina o vê e entende: uma sequência irracional de eventos absurdos e desordenados, cores grotescas e conexões espasmódicas. Quase em nada combinam - como um retrato barroco ao lado de um cartum psicodélico -, mas talvez por isso mesmo se complementem.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador